Mãe induziu doenças na filha Nina Blom por 14 anos até ser desmascarada por médico

Nina Blom Foto: Nina Blom - Arquivo Pessoal

Nina Blom era uma criança vibrante e cheia de energia, que adorava cantar e dançar, com uma infância que parecia normal. Contudo, essa imagem se desfez quando sua mãe desenvolveu a convicção de que a menina sofria de uma doença grave, submetendo-a a exames e tratamentos hospitalares em 16 ocasiões ao longo de poucos anos.

Na Holanda das décadas de 1970 e 1980, Nina foi forçada a usar uma cadeira de rodas e sua mãe insistia que ela padecia de uma doença muscular incurável. Diversos profissionais de saúde examinaram a garota, sem conseguir identificar o que a afligia, até que um médico atento conseguiu juntar as peças e revelar a verdade por trás de sua condição: a própria mãe.

O caso se encaixava na falsificação de doenças pediátricas, também conhecida como “doença fabricada ou induzida” ou síndrome de Münchausen por procuração. Este transtorno, que constitui uma forma grave de abuso infantil, acontece quando um cuidador, geralmente um dos pais, inventa ou provoca deliberadamente uma doença na criança.

Os motivos exatos por trás da falsificação de doenças pediátricas ainda são objeto de estudo e permanecem sem total compreensão, mas seus impactos são devastadores para as vítimas. Ao atingir a vida adulta, Nina Blom registrou suas vivências em um livro chamado You are a Horrible Child (Você é uma criança horrível), e sua história também inspirou uma graphic novel para jovens, You are going to Die (Você vai morrer), em colaboração com Margreet de Heer.

Nina Blom
Nina Blom – Arquivo Pessoal

A experiência de Nina foi compartilhada em uma entrevista ao programa de rádio Outlook, do Serviço Mundial da BBC, onde ela detalhou os anos de sofrimento.

Os primeiros anos de uma infância sob controle materno

“Tenho lembranças felizes com minha irmã no sótão da nossa casa, onde tínhamos nosso espaço para brincar”, relembra Blom, destacando que era uma menina que amava música e dança. No entanto, esses momentos de alegria eram escassos, pois sua mãe a restringia, mantendo-a em casa na maior parte do tempo.

Aos 8 anos, Nina começou a sentir-se cada vez mais doente, passando para o controle estrito da mãe, que alegava problemas estomacais constantes e perda de peso. “Lembro-me de que minha mãe me deixava apavorada, dizendo que eu precisava ir ao hospital”, narra Nina. Curiosamente, nas consultas, ela recebia sopa e suco de maçã e sentia-se melhor.

“O médico afirmava: ‘Nina está bem, não há nada a fazer, ela pode ir para casa’”, ela conta. Apesar disso, a mãe insistia no retorno ao hospital e pressionava a filha a relatar dores abdominais.

Certa vez, durante as férias, Nina sentiu um leve desconforto muscular após nadar na piscina com sua irmã. A mãe imediatamente declarou que ela tinha uma doença muscular e que precisaria ser hospitalizada por alguns dias. Ao retornar, Nina disse não sentir dor, mas a mãe a repreendeu: “Não me envergonhe. Você sente dor e vai dizer isso ao médico.”

A situação era extremamente confusa para a criança. “No hospital, eu me sentia culpada, pois havia outras crianças com câncer, que estavam realmente muito doentes”, relembra. “Comigo, nada estava errado”, pensava, enquanto um menino ao seu lado morreu devido à gravidade de sua condição. Seu pai, embora por vezes questionasse a situação, não interveio para protegê-la, seguindo a mãe.

A escalada do abuso físico e psicológico

No hospital, Nina foi submetida a uma série de exames dolorosos, incluindo uma biópsia de medula óssea, mas nenhum problema era encontrado. “Minha mãe estava sempre presente e parecia apreciar a situação”, relata ela, explicando que a mãe a obrigava a ser corajosa e não chorar.

“Eu era uma criança sorridente, mas minha mãe, ao me ver alegre, ficava irritada e me castigava”, conta. “Ela agia como se quisesse que eu sentisse dor.” Os castigos incluíam a destruição de seus livros favoritos e, conforme crescia, evoluíam para abusos físicos e psicológicos. “Ela era cruel, não tinha coração”, descreve.

Em uma ocasião, Nina passou quatro semanas internada, até que os médicos decidiram mandá-la para casa. No retorno, a mãe a colocou em uma cadeira de rodas, a fez abandonar a escola e levou sua cama para a sala, proibindo-a de dormir em seu próprio quarto. Isolada, Nina passava a maior parte do tempo na cama, sem contato com o mundo exterior. “Eu gostava de ouvir música, mas quando minha mãe percebeu que isso me divertia, ela tirou essa opção de mim.”

A criança aprendeu a reprimir suas emoções, sonhando com alguém que viria para resgatá-la. A família mudou-se diversas vezes, e a mãe sempre encontrava novos médicos para examinar Nina, reiniciando o ciclo de sofrimento. Certa vez, Nina comentou que sentia dor nas mãos enquanto tecia. A mãe reagiu de imediato, dizendo que algo terrível acontecia e enfaixou os braços da filha tão apertado que os membros e dedos da menina adormeceram.

“Não consigo descrever o quão horrível era ver minha mãe desejando que eu sentisse dor”, lamenta Blom. “Ela se divertia com isso.”

A manipulação da mãe sobre a perspectiva de morte da filha

Com o tempo, a narrativa da mãe mudou. “Se eu descobrir que você não sente dor e inventou tudo isso, você vai ver o que vou fazer”, ela ameaçava. Nina estava cada vez mais confusa com as palavras da mãe.

Por estar sempre prostrada e com os braços enfaixados, a menina perdeu a força muscular e foi enviada a uma clínica para fisioterapia. Quando seu pai descobriu que ela estava sozinha, foi buscá-la. Contudo, Nina foi para outra clínica, onde reaprendeu a andar e encontrou o amor em um companheiro de tratamento.

Após um longo período, Nina começou a sentir-se feliz novamente, até que os médicos da clínica permitiram que ela visitasse a casa da família nos fins de semana. Ao ser buscada pela mãe, ouviu: “Você precisa colocar as faixas outra vez.” “Ela me dava comprimidos secretamente, e eu não tinha permissão para andar em casa”, revela Blom. Com isso, o cenário de antes se repetiu, o que Nina descreve como “horrível”.

Eventualmente, os fins de semana de visita terminaram e ela foi levada de volta para morar permanentemente com os pais. Aos 12 anos de Nina, a mãe adoeceu. Naquele período, a menina, que não podia andar, tinha permissão para engatinhar, encontrando uma dose de liberdade na ausência da mãe. No entanto, quando a mãe retornou para casa, o pai de Nina Blom sofreu um colapso mental, tornando-se agressivo e imprevisível.

A mãe começou a culpar a filha por suas próprias dores de estômago e problemas físicos. Durante uma discussão familiar, o pai, em um acesso de raiva, jogou café quente no pé direito de Nina, aumentando a violência para além das ações da mãe. Com o passar dos dias, a mãe continuava a diagnosticar supostas doenças cardíacas e em outras partes do corpo da filha, até que um dia, ela declarou: “Você vai morrer.” “Aquela foi a primeira vez em que me senti totalmente só, como se estivesse caindo em um abismo”, recorda Blom. “Foi muito doloroso.”

A tentativa de eutanásia e o médico que percebeu o abuso

A vida de Nina Blom estava prestes a mudar. Em uma internação em mais um hospital, ela conheceu o Dr. Vrienten, um novo pediatra. O médico entrou no quarto de Nina e informou que procuraria um local para ajudá-la a movimentar os membros e articulações, a fim de que pudesse voltar a caminhar. Confusa e cética, a menina não compreendia o que estava acontecendo, pois sua mãe havia lhe dito que ela tinha uma doença muscular incurável e que morreria. Embora sempre houvesse uma dúvida em sua mente, ela não ousava questionar.

Quando a mãe soube da transferência para um centro de reabilitação, explodiu de fúria: “Qual clínica? Você vai morrer”, e Nina foi obrigada a voltar para casa. No retorno, a mãe a forçou a manter as pernas em formato de X, usando almofadas para fixá-las, retirou sua alimentação e instalou uma sonda nasogástrica, além de obrigá-la a tomar 20 comprimidos diariamente. Ela foi levada novamente a outro hospital, repetindo o padrão de internações anteriores.

Desta vez, a mãe permaneceu 24 horas por dia no hospital. Quando as enfermeiras pediam para verificar a temperatura da filha, a mãe usava um copo de água quente para falsificar os resultados. Em uma visita subsequente dos médicos, Nina não se sentia bem, deitada na maca e com dificuldade para respirar. De repente, ela percebeu o médico ao lado de sua mãe, que afirmou claramente: “Queremos a eutanásia, pode nos ajudar, doutor?”

Nina Blom se lembra de ter expressado o mesmo desejo ao médico, influenciada por tantos anos de sofrimento: “Doutor, quero morrer. Pode me ajudar?” “Naquele momento, o médico recuou, conversou com minha mãe e receitou 24 horas de morfina”, conta Blom. “Nós a manteremos adormecida”, explicou o médico. Após essa resposta, a menina sentiu que não havia mais saída e estava certa de que ninguém acreditaria nela.

O resgate e a dura jornada de recuperação

Mas o Dr. Vrienten havia notado a situação e decidiu contatar os serviços de proteção de menores. Um dia, uma mulher entrou no quarto de Nina e disse: “Olá, Nina, sou do serviço de proteção de menores e estou aqui para ajudar você. Vou levar você para um novo hospital.” Ao ouvir a palavra “hospital”, Nina reagiu: “Não, não, por favor, me deixe morrer, não quero mais ir para o hospital.” A menina percebeu que sua mãe estava entrando em pânico, enquanto dois policiais monitoravam a ação. Em seguida, dois homens a colocaram em uma ambulância e a levaram para um hospital.

“Eles tiraram as faixas dos meus braços e pernas, e havia uma câmera de vídeo no pequeno quarto, à minha direita”, ela relata. “Por dois dias, eu não vi meu pai, nem minha mãe. Mas, dois dias depois, eles vieram me visitar pela primeira vez.” “Lembro que, naquela primeira visita, eu repeti a eles até 18 vezes que não estava doente”, prossegue. “Minha mãe esqueceu que a câmera estava gravando e ficou furiosa cada vez que eu dizia que não estava doente. Isso também serviu de prova e revelação do que estava acontecendo comigo.”

Nina Blom foi finalmente libertada de seu martírio, mas levou tempo para compreender a extensão do que havia ocorrido. Ela foi vítima da síndrome de Münchausen por procuração, uma forma de abuso infantil em que o cuidador provoca ou exagera uma doença na criança. Os motivos para essa falsificação de doenças pediátricas ainda não são totalmente compreendidos, mas seus efeitos podem ser devastadores, como se viu em seu caso.

“Minha mãe me deixou doente por 14 anos”, ela conta, explicando que o objetivo era receber atenção dos médicos. Além disso, a mãe também havia provocado doenças em si mesma diversas vezes, submetendo-se a mais de 50 cirurgias. Nina parou de ver seus pais e levou anos para retomar sua vida normal. Inicialmente, viveu em uma clínica, recebendo terapia física e psicológica, depois em uma casa assistida e, por fim, estabeleceu-se em uma nova cidade com outra identidade.

Blom formou-se em uma academia de arte, encontrou trabalho e o amor. Sua irmã também se afastou dos pais e cortou todo o contato com eles. “O que meus pais me fizeram foi um crime”, relata Nina. “É uma forma grave de abuso infantil, e eu simplesmente sobrevivi.” Anos depois, em 2009, ela constatou que seus pais não haviam sofrido nenhuma punição e tampouco reconheceram o mal que haviam causado à pequena Nina. Após uma profunda reflexão, ela decidiu deixar a história para trás e reconstruir sua própria vida. “Estou muito, muito feliz por ter sobrevivido. Existem tantos motivos para viver”, conclui.

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