Degelo nos Alpes suíços revela esqui de madeira de 2.500 anos

Alpes suíços - 35007/ istockphoto.com Foto: Alpes suíços - 35007/ istockphoto.com

O arqueólogo Romain Andenmatten, do Serviço Cantonal de Arqueologia do cantão de Valais, localizou uma tábua de madeira de quase um metro de comprimento preservada no gelo alpino, apontada como o segundo elemento de um esqui ou raquete de neve do século V a.C. A descoberta ocorreu no passo de montanha Col de Barberine, a 2.286 metros de altitude, na Suíça, após o recuo acelerado das geleiras provocado pelas altas temperaturas no continente europeu.

O achado mobilizou especialistas que tentam resgatar relíquias orgânicas antes que o contato com o ar destrua os materiais. Sobre a preservação do item milenar, Romain Andenmatten afirmou que “o que para mim é mais espetacular é que tenha se conservado”, em declaração concedida em tradução livre do espanhol.

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Dados do achado arqueológico no Col de Barberine

  • Localização: passo de montanha Col de Barberine, cantão de Valais, Suíça
  • Altitude do ponto de coleta: 2.286 metros
  • Datação estimada por radiocarbono: 2.500 anos (século V a.C., durante a Idade do Ferro)
  • Dimensão da peça: quase um metro de comprimento
  • Responsável pela localização: arqueólogo Romain Andenmatten

Por que o degelo nos Alpes ameaça peças históricas?

Pesquisadores que atuam nas passagens alpinas enfrentam uma corrida contra o tempo, pois materiais de origem orgânica, como madeira, couro, tecidos e fibras vegetais, entram em decomposição rápida assim que ficam expostos ao ar livre, à umidade e ao calor. Além da degradação biológica acelerada pelo clima, as equipes alertam para o risco constante de furto de artefatos raros por colecionadores particulares e saqueadores que percorrem trilhas desprotegidas no topo das montanhas.

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Para a arqueóloga Regula Gubler, do Serviço Arqueológico do cantão de Berna, a preservação desses fragmentos altera o entendimento sobre a vida cotidiana das sociedades antigas. Em tradução livre, Gubler declarou que “a Idade da Pedra não foi realmente uma Idade da Pedra. A maioria dos objetos que usavam e vestiam eram feitos de materiais orgânicos”. Como ferramentas de caça, roupas e cestarias eram confeccionadas com elementos da flora e fauna locais, a sobrevivência desses itens em sítios tradicionais de escavação é considerada rara.

Etapas da arqueologia glacial e o monitoramento em Valais

  • Lançamento da plataforma e do aplicativo móvel IceWatcher pelo cantão de Valais em 1 de janeiro de 2021 para mapear descobertas em montanhas.
  • Localização da primeira parte da peça de madeira no Col de Barberine por Romain Andenmatten três anos antes da prospecção recente.
  • Identificação da segunda tábua de quase um metro entre rochas na borda do gelo pelo mesmo arqueólogo na terça-feira (6).
  • Envio de coordenadas e fotografias por montanhistas cadastrados para orientar vistorias científicas de urgência antes do início do inverno.

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Passagens alpinas guardam registros milenares de ocupação humana

A arqueologia glacial se expandiu nos Alpes em decorrência do recuo contínuo das massas congeladas, que alimentam grandes bacias hidrográficas europeias como a do rio Reno. Ao longo das últimas décadas, passagens de montanha utilizadas por caçadores, pastores e viajantes no período pré-histórico revelaram peças em estado excepcional de conservação, incluindo uma aljava feita de casca de bétula de 2.800 a.C. e calçados de couro de mais de 3.500 anos resgatados na passagem de Schnidejoch, além de estatuetas de madeira atribuídas a povos celtas.

As medições científicas indicam que as geleiras da Suíça perderam 20% do volume total de gelo em apenas cinco anos, ritmo sem precedentes na história recente que acelerou a exposição de rochas antes inacessíveis. Projeções climáticas apontam que 97% das massas de gelo alpino remanescentes podem desaparecer até o final do século caso o atual ritmo de aquecimento global persista, transformando drasticamente a paisagem da cadeia de montanhas e encerrando a proteção natural que manteve esses objetos intocados por milênios.

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O aplicativo IceWatcher, ferramenta colaborativa criada pelo Serviço Cantonal de Arqueologia de Valais, opera para permitir que montanhistas e caminhantes enviem fotos e coordenadas geográficas ao encontrarem objetos suspeitos durante expedições em grandes altitudes, agilizando o envio de equipes antes que o material se degrade. O próprio Romain Andenmatten, que atua como gestor do projeto, executou a prospecção direta em campo no Col de Barberine para recolher a madeira de 2.500 anos.

Ainda não foi divulgada a confirmação laboratorial definitiva unindo formalmente a segunda tábua ao primeiro fragmento encontrado três anos antes como par idêntico de um mesmo conjunto, procedimento que depende de análises comparativas complementares em laboratório.

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