Demanda por medicamentos para emagrecer impulsiona mercado ilegal e mortes no BrasilPor Janderson Luiz
6 min de leitura
![]() |
Apreensões de milhares de frascos de tirzepatida, princípio ativo do popular Mounjaro, em um ônibus vindo do Paraguai em abril de 2026, revelaram a dimensão do mercado clandestino de medicamentos para emagrecer no Brasil. O confisco de mais de 2.500 frascos, escondidos em potes de doce de leite, é um exemplo notório do crescente tráfico de substâncias da classe GLP-1. Esses produtos alimentam a busca por resultados rápidos, mas trazem sérios riscos à saúde. A alta procura no país expõe milhões a tratamentos sem aprovação e supervisão médica, com consequências graves.
Crescimento da procura por emagrecimento alimenta comércio não regulado
O Brasil se tornou um dos maiores mercados para medicamentos de emagrecimento, como Mounjaro e Wegovy, da classe GLP-1. Essa explosão na demanda é impulsionada por uma cultura que valoriza a estética, o baixo poder de compra da população e a fiscalização deficiente nas fronteiras. Estimativas do banco Itaú BBA indicam que cerca de 51% do mercado brasileiro de remédios para perda de peso, avaliado em 7 bilhões de dólares, vem de fontes não rastreadas. Isso inclui farmácias de manipulação sem fiscalização adequada e produtos contrabandeados do Paraguai. A taxa de uso de GLP-1 no país atinge 5,5% da população, superando a média global de 3,7%, mostrando a adesão massiva a esses tratamentos, muitas vezes sem a devida orientação.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
- Em 2024, foram registradas 609 unidades confiscadas.
- Em 2025, o número saltou para 60.787 unidades apreendidas.
Riscos de saúde e mortes investigadas por uso de injeções clandestinas
Entre 2018 e meados de agosto de 2026, as autoridades brasileiras registraram 83 mortes que estão sob investigação e mais de 3.600 complicações associadas ao uso de medicamentos para emagrecer. Desse total, mais de 60% das notificações de complicações ocorreram apenas nos anos de 2025 e 2026, indicando uma escalada recente no problema. Médicos e especialistas alertam que a forma como esses produtos são fabricados e transportados representa um perigo adicional. O armazenamento inadequado e a exposição a temperaturas elevadas, por exemplo, podem arruinar a eficácia e a segurança das injeções. As bulas de medicamentos como Mounjaro e Wegovy já incluem alertas sobre o risco de pancreatite aguda, afetando uma pequena porcentagem de pacientes. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu advertências sobre os perigos de aspiração e pneumonia durante procedimentos de anestesia, visto que esses medicamentos tendem a retardar a digestão. A Agência Anti-Falsificação documentou um aumento drástico nas apreensões de drogas GLP-1 ilegais:
Essas apreensões continuam a crescer de forma acentuada em 2026, evidenciando a persistência e a expansão do mercado ilícito.
Tráfico e manipulação irregular: as vias do mercado perigoso
A maior parte das injeções ilegais chega ao Brasil vinda do Paraguai, onde a legislação de patentes é mais flexível, permitindo a produção de análogos a medicamentos de marca que, de outra forma, seriam significativamente mais caros. A reguladora de saúde paraguaia, Dinavisa, aprovou o medicamento T.G., fabricado pelos Laboratórios Indufar Cisa, mas afirmou não ser responsável pelo transporte ilegal para o Brasil. Andreia Kohout, diretora farmacêutica da Associação Brasileira de Combate à Falsificação, observa que os consumidores muitas vezes acreditam, erroneamente, que os medicamentos manipulados são idênticos aos de marca. Este mercado, frequentemente promovido por influenciadores digitais, é caracterizado por fornecedores pouco confiáveis e sem a devida fiscalização. O médico Leonardo Sebba, que atua no tratamento da obesidade em Goiás, relata ter visto pacientes com casos graves de constipação após o uso de drogas obtidas por canais não oficiais. Alguns desses casos exigiram intervenção cirúrgica devido a complicações intestinais. “A medicação está em todo lugar, em farmácias, mas também em feiras, salões de cabeleireiro, academias e com vizinhos”, disse Sebba. “Realmente se tornou, e é uma palavra forte, tráfico de drogas.” As empresas Eli Lilly e Novo Nordisk, fabricantes dos medicamentos originais, afirmaram que colaboram com as autoridades brasileiras para combater o mercado ilegal e garantir a segurança dos pacientes, buscando aumentar a acessibilidade dentro dos parâmetros regulamentados e seguros.
Autoridades buscam barrar o mercado ilegal com acesso a alternativas mais baratas
O governo brasileiro e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) esperam que a disponibilização de medicamentos para emagrecer mais acessíveis e devidamente autorizados consiga desviar os consumidores das injeções ilegais e perigosas. Em maio de 2026, a Anvisa aprovou o Ozivy, a primeira alternativa nacional ao Ozempic da Novo Nordisk, que pode ser vendido por menos de 100 dólares para um tratamento de quatro semanas. Desde então, outras marcas similares também receberam aprovação. “Controlar a demanda é difícil”, afirmou Leandro Safatle, diretor-presidente da Anvisa, em agosto de 2026, “mas se essa demanda for atendida por um produto regulamentado e seguro, com preço similar ao das importações não autorizadas, as pessoas naturalmente escolherão a opção regulamentada.” No entanto, a realidade do custo ainda pesa para muitos. Taiane Torres da Silva, de 32 anos, por exemplo, que trabalha como tosadora no Rio de Janeiro e recebe salário mínimo, compra um medicamento paraguaio chamado T.G., não fiscalizado pela Anvisa, por cerca de 75 dólares a cada seis semanas. Em contraste, um suprimento de Mounjaro para quatro semanas, na dose mais baixa, custa em torno de 290 dólares no Brasil. A enfermeira Pamela Erculano Silva, também do Rio de Janeiro, que perdeu 17 kg recentemente, também usa a marca T.G. contrabandeada do Paraguai pela acessibilidade e facilidade de compra.
Casos de morte sob investigação continuam a ser registrados
Flavio Fabres, chefe do instituto médico legal em João Pessoa, Paraíba, examinou um dos casos de óbito relacionados aos medicamentos. Em novembro de 2025, ele realizou a autópsia de Jessica Ataide, de 31 anos, que morreu subitamente enquanto usava a medicação sem acompanhamento profissional. Fabres relatou que, logo após uma dose, o nível de açúcar no sangue de Jessica despencou, provocando uma hipoglicemia severa. Ela perdeu a consciência e engasgou. “O conteúdo estomacal entrou em suas vias aéreas, o que resultou em sua morte por asfixia”, disse Fabres. A família de Ataide preferiu não comentar sobre o ocorrido, e o tipo exato de medicamento que ela utilizava não pôde ser estabelecido. Apesar dos riscos evidentes, a adesão a tratamentos não supervisionados persiste. Vitoria Braga, uma moradora do Rio de Janeiro de 31 anos, está usando uma injeção para emagrecer contrabandeada, junto com seu namorado e três familiares, sem nunca ter consultado um médico. Ela relata ter ficado acamada por quatro dias com febre, náuseas e sintomas de gripe após um aumento recente na dose. “Eu nem sei quem é o fornecedor”, disse ela, “o médico teria dito que eu era louca e me mandado parar.”














