Os mercados norte-americanos apresentaram grande volatilidade nas últimas semanas, com atenção renovada aos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries, em 1 de setembro de 2026. Nos últimos quinze dias, os índices S&P 500 e Dow Jones registraram quedas de 0,5%, e o Nasdaq recuou mais de 1%.
Ao longo do último mês, o setor de títulos enfrentou forte pressão, com o Treasury de 30 anos superando a marca de 5,3% e atingindo seu ponto mais alto desde a metade de 2002.
Analistas de mercado indicam que a pressão sobre os títulos não se deve exclusivamente à situação fiscal, já que a dívida dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões. Outros fatores incluem a crescente disputa com os títulos do Japão e o endividamento corporativo.
Influência da inflação no Japão e o papel da inteligência artificial
Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, observou que os títulos dos Estados Unidos agora competem com os papéis do Japão. O aumento das taxas de juros no país asiático tornou os rendimentos locais mais convidativos em comparação com os Treasuries.
O Japão lida com um cenário inflacionário desafiador, ao passo que o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi intensifica seus gastos. Essa política tem demandado uma resposta mais firme do banco central japonês.
Saadia também mencionou que companhias de grande porte no setor de serviços em nuvem e infraestrutura digital (hyperscalers), como Meta, Amazon e Alphabet, bem como empresas ligadas à inteligência artificial (IA), ingressaram nessa disputa ao lançarem suas próprias dívidas privadas.
Conforme dados divulgados pelo JP Morgan, a emissão de dívidas por essas hyperscalers teve um salto significativo, passando de US$ 93 bilhões em 2025 para US$ 182 bilhões até julho de 2026. Isso representa quase o dobro em um período inferior a um ano e corresponde a 12% do volume total de emissões brutas de “high grade” nos Estados Unidos.
O banco acrescentou que a competição por financiamento, em detrimento das emissões soberanas, é um elemento crucial para a elevação dos rendimentos reais na porção mais longa da curva de juros.
O economista da Nomos apontou que o crescimento na emissão de dívidas por empresas privadas começou a se intensificar no último ano.
“Essas são empresas de baixo risco e alta qualidade que disputam com os títulos do governo norte-americano, oferecendo taxas atraentes”, afirmou Saadia.
O economista adicionou: “Elas sempre possuíram grande volume de caixa líquido, mas agora observamos pela primeira vez uma emissão de dívidas com esse montante por essas companhias.”
Um relatório do UBS GWM também indicou que o investimento em inteligência artificial está remodelando o mercado de títulos. “Grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos têm aumentado a emissão de dívida para financiar investimentos de capital (capex) ligados à IA”, disse o banco.
Com esse cenário, o UBS destacou que a preferência dessas empresas por financiamentos de longo prazo gera uma concorrência extra pelo capital dos investidores. Isso ocorre em um período onde as exigências de financiamento dos governos já são consideráveis.
“Caso os investimentos em inteligência artificial permaneçam em patamares elevados, a emissão de dívida corporativa pode seguir impulsionando os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo, mesmo em um contexto econômico favorável”, analisou o UBS.
O banco acrescenta que as taxas de juros elevadas não são apenas um reflexo de questões fiscais, mas também da intensa busca por capital por parte do setor privado.
Paula Moreno, sócia e co-CIO da Armor Capital, avalia que a disputa entre a dívida privada e o financiamento público contribui para a diminuição da liquidez global.
Desequilíbrio fiscal nos EUA ainda é um ponto de atenção
Embora uma recente intervenção no mercado de títulos dos Estados Unidos, com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciando a intenção de dobrar as recompras de papéis de médio e longo prazo, possa aprimorar o funcionamento do mercado, o UBS alerta que a medida não soluciona o problema fundamental do desequilíbrio fiscal.
Essa análise é compartilhada por Paula Moreno, da Armor Capital. Ela recorda que, em fevereiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrentou um revés quando a Suprema Corte do país anulou as tarifas externas aplicadas em sua política comercial.
Dentro da estratégia econômica do governo Trump, as tarifas visavam compensar o agravamento da situação fiscal dos Estados Unidos.
“Observamos uma trajetória fiscal desfavorável, com mais emissões de títulos, além da competição entre dívida privada e pública. Os próximos meses e anos provavelmente indicarão uma pressão acentuada proveniente desse cenário de financiamento”, afirmou Moreno.
Portanto, a situação atual ultrapassa a tradicional preocupação com a dívida pública americana. Com o Japão novamente buscando competir pelo capital dos investidores e as grandes empresas de tecnologia elevando a emissão de dívidas para financiar a expansão da inteligência artificial, o Tesouro dos Estados Unidos se vê obrigado a compartilhar espaço com novos emissores, especialmente na porção de longo prazo da curva de juros.
Caso a pressão fiscal persista, somada à alta demanda por financiamento privado, os juros de longo prazo podem permanecer sob estresse, mesmo com uma economia relativamente sólida. Este cenário esclarece por que o mercado de Treasuries deve manter-se como foco principal nos próximos meses.
