Novo remédio para Parkinson atua em receptores D1 e D5 para frear compulsões
O comprimido tavapadon foi aprovado nos Estados Unidos para o tratamento da doença de Parkinson em adultos pela Food and Drug Administration (FDA). Desenvolvido e comercializado pela farmacêutica AbbVie sob o nome de Juvmo, o produto de administração oral em dose única diária pode ser adotado de maneira isolada em monoterapia ou em conjunto com a levodopa.
A decisão da agência norte-americana, anunciada pela farmacêutica na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, consolida o fármaco como o primeiro agonista parcial seletivo direcionado aos receptores de dopamina D1 e D5. “A aprovação do Juvmo marca o primeiro avanço dopaminérgico para a doença de Parkinson em décadas”, afirmou Roopal Thakkar, vice-presidente executivo de pesquisa e desenvolvimento e diretor científico da AbbVie, em tradução livre.
Como o tavapadon age no cérebro contra o Parkinson?
A doença de Parkinson surge a partir da degeneração progressiva dos neurônios responsáveis por produzir a dopamina, neurotransmissor encarregado de conduzir os circuitos cerebrais do comando motor. A falta crônica dessa substância provoca rigidez muscular, lentidão, tremores involuntários, perda da expressividade facial e alterações posturais, além de manifestações não motoras que abrangem distúrbios do sono, constipação intestinal, dores e depressão.
Os medicamentos convencionais disponíveis há décadas, como o pramipexol e a rotigotina, mimetizam o efeito da dopamina estimulando prioritariamente os receptores cerebrais D2 e D3. Essa via tradicional de ativação influencia áreas ligadas à regulação do sono e ao sistema neurobiológico de recompensa, o que comumente desperta efeitos colaterais como sonolência diurna, alucinações e transtornos do controle de impulsos, incluindo compulsão por compras e jogos de azar.
O tavapadon opera em um trajeto químico diferente ao focar de maneira seletiva as estruturas D1 e D5, diretamente associadas ao desencadeamento dos movimentos corporais, com baixa afinidade pelas vias D2 e D3. “O que torna o tavapadon único é a sua seletividade para D1. Podemos estimular as vias motoras de forma eficaz, mas a esperança é evitar a sobrecarga associada à estimulação de D2, particularmente os efeitos colaterais não motores”, disse Hubert Fernandez, professor de neurologia na Cleveland Clinic e investigador principal global dos estudos clínicos, em tradução livre.
“Pela primeira vez, estudos em humanos mostram que um remédio que age sobre esse outro grupo de receptores tem efeito sobre os movimentos comparável ao dos medicamentos atuais”, declarou Vitor Tumas, professor de neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Ganho de mobilidade no estudo TEMPO-3 com 507 voluntários
O programa de ensaios clínicos de fase 3, denominado TEMPO e divulgado na revista científica JAMA Neurology, comprovou a eficácia terapêutica do fármaco. No estudo TEMPO-3, os pesquisadores avaliaram 507 pacientes com Parkinson avançado que já recebiam doses contínuas de levodopa e apresentavam oscilações motoras diárias de cerca de cinco horas e meia sem controle satisfatório dos sintomas.
Após 26 semanas de intervenção terapêutica, os indivíduos tratados com tavapadon registraram uma expansão diária de 1,7 hora de mobilidade adequada sem discinesia incapacitante, período clinicamente definido como tempo on. Em contrapartida, os voluntários alocados no grupo que recebeu placebo obtiveram um acréscimo de 0,6 hora, demonstrando uma diferença líquida favorável de 1,1 hora a mais de controle motor proporcionada pela substância ativa.
O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apontou que uma hora diária adicional em condição favorável possibilita ao indivíduo caminhar, vestir roupas sem auxílio e manter atividades laborais por mais tempo. Apesar desse avanço no cotidiano, o especialista ponderou que a magnitude do ganho motor se assemelha àquela proporcionada por medicamentos adjuvantes já consolidados na prática clínica.
Reações adversas, pressão arterial e controle de impulsos
O perfil de segurança observado no ensaio clínico TEMPO-3 demonstrou que 71,7% dos participantes tratados com o tavapadon apresentaram algum evento adverso, frente a 55,1% no grupo placebo. As manifestações mais frequentes englobaram tontura, enjoo e movimentos involuntários em intensidades leves a moderadas. A incidência de abandono precoce do tratamento por reações adversas atingiu 17% entre os pacientes que ingeriram o medicamento.
A mensuração da pressão arterial dos voluntários exibiu queda média de 8,6 mmHg na postura em pé durante o uso da medicação. Quadros de hipotensão ortostática, caracterizados pela diminuição brusca da pressão ao levantar, afetaram 6% dos pacientes sob uso do fármaco e 1,2% dos que receberam placebo. Helder Picarelli orientou que os profissionais de saúde monitorem a pressão arterial dos indivíduos deitados e em pé no início da posologia e recomendem movimentos lentos ao levantar.
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Os registros de transtornos compulsivos e falhas no controle de impulsos totalizaram 2,4% no grupo tratado com a nova substância, diante de 1,2% com o placebo. A verificação do impacto dessa redução teórica de compulsões comportamentais em comparação aos agonistas clássicos dependerá do monitoramento de longo prazo durante o uso contínuo em larga escala na população.
Aquisição bilionária da Cerevel Therapeutics pela AbbVie
A trajetória farmacológica da molécula começou nos laboratórios da empresa de biotecnologia Cerevel Therapeutics, responsável pelas fases iniciais de desenvolvimento do composto químico. A AbbVie incorporou o projeto em sua linha de neurociência ao concluir a aquisição da companhia pelo montante de US$ 8,7 bilhões em uma negociação concretizada em 2023.
O tavapadon funciona estritamente como um modulador sintomático e não impede a morte neuronal provocada pela doença neurodegenerativa. O professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Renato Anghinah, ponderou sobre os rumos científicos da área: “Já existem outros tratamentos a caminho com potencial de modificar a própria doença, e não apenas de aliviar as manifestações”.
Dados técnicos e custos do Juvmo nos Estados Unidos
- Princípio ativo: tavapadon
- Nome comercial registrado: Juvmo
- Laboratório detentor: AbbVie
- Indicação autorizada: tratamento da doença de Parkinson em adultos em monoterapia ou terapia combinada à levodopa
- Mecanismo de ação: agonista parcial seletivo dos receptores de dopamina D1 e D5
- Forma de administração: comprimido oral de uso diário único
- Custo mensal aproximado de atacado (WAC): US$ 4.900,00 nos Estados Unidos
Previsão de vendas e situação do medicamento na Anvisa
A distribuição comercial do Juvmo nas redes de farmácias dos Estados Unidos está programada para iniciar a partir de outubro de 2026. No Brasil, ainda não existe submissão oficial de pedido de registro ou análise sanitária protocolada perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O processo de liberação também segue sem solicitação formal regulatória submetida perante a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA).
