O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto acusou peritas criminais de armarem uma cena para incriminá-lo pela morte de sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana. O oficial da Polícia Militar de São Paulo prestou depoimento de mais de oito horas no Fórum Criminal da Barra Funda antes da decisão judicial sobre o envio do caso para julgamento em tribunal do júri.
Durante a audiência realizada em 5 de outubro de 2026, Geraldo Neto declarou que os investigadores adulteraram os objetos do apartamento do casal. “As peritas foram, remontaram a árvore, demoraram ali quase 10 minutos pra remontar a árvore. Só pra me acusar”, afirmou o tenente-coronel, que sustenta a versão de que a esposa tirou a própria vida enquanto ele estava no chuveiro.
Contradições sobre a árvore de Natal e laudos da Polícia Técnico-Científica
Os registros oficiais da investigação rebatem a narrativa apresentada pelo réu. Três laudos emitidos pela Polícia Técnico-Científica, incluindo uma análise complementar elaborada pela perita Amanda Rodrigues Marinone, descartaram a hipótese de suicídio. A reconstituição simulada concluiu que a árvore de Natal encobria a visão que o oficial teria a partir da porta do banheiro, contrariando o relato de que ele teria visto a mulher caída logo após o estampido.
Além dos laudos, gravações de câmeras corporais acopladas aos uniformes dos policiais militares que prestaram o primeiro atendimento registraram o enfeite natalino de pé e intacto dentro da sala. Um bombeiro socorrista que atuou na ocorrência também prestou depoimento confirmando que o objeto estava montado. O socorrista declarou ainda que o chão do banheiro não continha sinais de água acumulada que sustentassem a alegação de que Geraldo Neto havia acabado de tomar banho momentos antes do socorro.
Marcas no queixo de Gisele Alves Santana e vestígios de sangue
A apuração pericial revelou quatro marcas de dedos no queixo da vítima de 32 anos. O laudo necroscópico indica que essas marcas reforçam a constatação técnica de que Gisele Alves Santana foi rendida e imobilizada por trás antes de receber um tiro à queima-roupa disparado pela arma pertencente ao próprio oficial. Exames laboratoriais também localizaram vestígios de sangue no banheiro do imóvel, em uma toalha e na bermuda que o tenente-coronel vestia no momento em que a polícia chegou ao local.
O advogado da família da vítima e assistente de acusação, José Miguel Júnior, destacou a solidez das provas materiais recolhidas no apartamento na capital paulista. “Ela é uma versão que fere a perícia. A perícia é totalmente imparcial, fundamentada e contundente. Gisele não cometeu suicídio e sim foi vítima de um feminicídio”, afirmou o advogado, acrescentando que o processo deve servir de freio à violência contra mulheres.
Cronologia e dados da ação contra o tenente-coronel Geraldo Neto
- 18 de fevereiro de 2026: a soldado Gisele Alves Santana é morta por disparo de arma de fogo por volta das 7h.
- 18 de março de 2026: a Polícia Civil cumpre o mandado de prisão preventiva contra o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto.
- Abril de 2026: o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decide que a competência é da Justiça Comum, remetendo os autos à 5ª Vara do Júri de São Paulo.
- 5 de outubro de 2026: audiência de interrogatório dura mais de oito horas com o réu prestando declarações.
- 11 de outubro de 2026: declarações do depoimento judicial do oficial são veiculadas publicamente.
Competência da 5ª Vara do Júri e situação prisional do oficial
O Superior Tribunal de Justiça negou anteriormente pedidos para que o caso fosse transferido para a Justiça Militar, definindo que crimes cometidos no contexto de violência doméstica e familiar devem ser julgados por varas criminais comuns. O oficial obteve aposentadoria concedida pela corporação enquanto estava detido no Presídio Militar Romão Gomes, mas responde a um conselho de justificação interno que pode resultar na perda definitiva de sua patente militar.
Preso há mais de 200 dias, Geraldo Neto declarou em juízo que não é assassino e pediu para responder ao processo em liberdade. A defesa técnica do oficial requereu a revogação de sua prisão cautelar e a impronúncia, instrumento jurídico que encerra o processo sem levar o réu ao tribunal popular. O Ministério Público do Estado de São Paulo manifestou oposição formal ao pedido de soltura sob o argumento de que a liberdade do oficial pode comprometer a ordem pública.
A juíza da 5ª Vara do Júri de São Paulo ainda não proferiu a decisão interlocutória que define se o tenente-coronel será pronunciado para enfrentar o tribunal do júri e se permanecerá preso preventivamente até o desfecho do processo.
