Produzida pela família do produtor rural João Alves Pereira no Sítio João Durval, em Igarapé (MG), a Cachaça Durvalina conquistou o 1º lugar nacional na categoria Cachaça Branca de Alambique do Prêmio CNA Brasil Artesanal 2026. O anúncio ocorreu na quinta-feira (15), durante cerimônia na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília (DF), onde a modalidade reuniu 170 amostras inscritas de diferentes regiões do país.
Esta foi a primeira participação do alambique mineiro na disputa nacional, liberada após a propriedade obter o registro oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em dezembro de 2025. “Esse reconhecimento valoriza nosso trabalho e nos motiva a continuar produzindo com cada vez mais qualidade”, afirmou o fundador João Alves Pereira, de 74 anos.
Sucessão familiar e regularização da Cachaça Durvalina no MAPA
A trajetória da família Alves Pereira na produção da bebida teve início no final de 1983, quando João Alves Pereira, insatisfeito com os prejuízos no cultivo de hortaliças na propriedade rural da Região Metropolitana de Belo Horizonte, decidiu construir um alambique com o apoio do pai, Durval, cujo nome inspirou a marca comercial. “A horta estava muito ruim. Eu conversei com o meu pai: ‘vou parar com esse negócio de horta e começar outro tipo de vida. Estou com vontade de mexer com alambique’. Ele disse: ‘Se quiser mexer com isso, a gente começa’. No final de 1983, já começámos a alambicar. Daí para a frente, só fui dando sequência”, declarou o produtor.
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Após 43 anos de vendas informais no comércio local, o negócio passou por uma reestruturação em janeiro de 2024, quando a tecnóloga em Gestão Ambiental Aline Alves Pereira, de 36 anos, filha do fundador, deixou um emprego com carteira assinada (CLT) para assumir a gestão administrativa e operacional do sítio. Para cumprir as exigências sanitárias e legais do MAPA, a irmã dela, a farmacêutica Renata Alves Pereira, assumiu a Responsabilidade Técnica (RT) e a cogestão da bebida, em um processo de adequação estrutural e emissão do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF, documento que dá acesso a políticas públicas rurais) acompanhado pela extensionista Carolina Vilela Moreira, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG).
Para Aline Alves Pereira, a regularização concluída no fim de 2025 permitiu que o produto rompesse a barreira regional. “A gente já era bem reconhecido na região, mas não tinha aquele alcance de supermercados, que exige a regularização. Depois do registo, foi possível participar em concursos e exposições. O prémio da CNA foi até ao primeiro concurso que participámos. Nossa, não há palavras para descrever!”, disse a gestora.
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Fermentação caipira e barris de amendoim na produção em Igarapé
A fabricação da Cachaça Durvalina utiliza cana-de-açúcar cultivada na própria fazenda e adota o método de fermentação caipira, que emprega fubá e canjica de milho sem adição de produtos químicos. A versão branca premiada em Brasília descansa em barris de madeira de amendoim, enquanto a linha amarela do alambique passa por envelhecimento em tonéis de amburana.
Segundo João Alves Pereira, o controle do tempo de destilação é decisivo para o padrão da bebida. “São canas de qualidade, todas selecionadas, com a fermentação bem feita e a lambicagem muito bem feita também. Tudo com tempo: não deixa passar e nem faltar a hora. Tudo bem organizado”, afirmou.
Resultado do Prêmio CNA Brasil Artesanal 2026 e domínio de Minas Gerais
Em 15 de outubro de 2026, a cerimônia na capital federal premiou ao todo 30 produtores rurais de seis estados, somando as 170 amostras de cachaça de alambique, 115 de doce de leite e 85 de azeite. O concurso de cachaça é restrito a alambiques com produção máxima de 20 mil litros por ano e avaliou os rótulos em três fases: júri técnico especializado, júri popular realizado em 26 de junho de 2026 durante a feira PecBrasil, em Fortaleza (CE), e análise da história do produto.
Minas Gerais obteve quatro das dez colocações premiadas nas duas categorias da bebida, que contaram com a parceria técnica da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA):
- 1º lugar (Cachaça Branca): Cachaça Durvalina, de João Alves Pereira (Igarapé-MG);
- 2º lugar (Cachaça Branca): Cachaça Pol, de Bruna Bianchin e Eliseu Pol (Marau-RS);
- 3º lugar (Cachaça Branca): Cachaça Padre Doutor, de Cintian Carla Silva (Córrego Fundo-MG);
- 4º lugar (Cachaça Branca): Cachaça Fé, de Felipe Russo Mafra Machado (Morungaba-SP);
- 5º lugar (Cachaça Branca): Cachaça Bússola de Prata, de Andrei Cristian Rezende (São Francisco do Sul-SC);
- 1º lugar (Cachaça Amarela): Cachaça Cana da Terra Extra Premium, de Antônio Abrão Bastos (Alexânia-GO);
- 2º lugar (Cachaça Amarela): Cachaça Dona Diva Extra Premium, de Antônio Renato de Souza (Pouso Alegre-MG);
- 3º lugar (Cachaça Amarela): Cachaça DiBonito Três Madeiras, de Osvaldo Esterquile Júnior e Hamilton Fernandes (Bonito-MS);
- 4º lugar (Cachaça Amarela): Cachaça Princesa do Vale (MG).
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Impacto comercial, consultoria do Sebrae e expansão da safra
Os três primeiros colocados de cada categoria receberam certificados, valores em dinheiro, os selos de qualidade Ouro, Prata e Bronze da CNA e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), além de consultoria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para aprimorar rótulos, embalagens e estratégias de mercado. Na solenidade — que reuniu a diretora de Administração e Finanças do Sebrae Nacional, Margarete Coelho, o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Meza, a primeira-secretária para Comércio da Delegação da União Europeia no Brasil, Maria Luisa Andrisani, e o coordenador-geral de Cooperativismo, Associativismo Rural e Agregação de Valor do MAPA, Nelson de Andrade Júnior —, o vice-presidente da CNA, Gedeão Pereira, destacou o objetivo comercial da disputa: “Essa casa trabalha para valorizar esses produtos e ampliar o acesso aos mercados nacional e internacional. O Brasil já é uma potência mundial no agronegócio
e iniciativas como essa ajudam a levar a qualidade e a excelência dos produtos brasileiros cada vez mais longe”.Com uma produção anual estimada em 17 mil litros no Sítio João Durval, a família agora estrutura a abertura de canais digitais de venda e o uso de plataformas de comércio eletrônico da própria CNA. A venda da bebida é feita presencialmente na propriedade rural em Igarapé ou por encomenda via telefone no número (31) 8239-6945, enquanto o fundador já ampliou a área de plantio de cana-de-açúcar neste ano para elevar a capacidade produtiva na safra de 2027.
