O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) protocolou nesta quarta-feira (21) uma petição no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarando aceitar a quebra de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico referentes aos últimos 20 anos. Para autorizar a liberação dos dados, a defesa do parlamentar impôs ao menos 21 condições ao presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cobrando a ampliação da medida para ex-assessores, familiares, cartões corporativos e registros de reuniões no Palácio do Planalto.
Endereçado ao relator do caso e vice-presidente da Corte, ministro André Mendonça, o documento responde ao desafio lançado por Lula. Os advogados do candidato do PL classificaram a proposta inicial do petista como uma “promessa vazia” e uma “quebra para inglês ver”, sustentando que eventuais irregularidades estariam ocultas em nomes de terceiros, laranjas e empresas. “O pedido de Lula é uma verdadeira aberração jurídica. Não pede nada ao Tribunal, não se encaixa em nenhum tipo de processo e depende da vontade de quem nem sequer é parte. Também é desnecessário, porque, caso o candidato estivesse realmente preocupado em levar a verdade aos eleitores, poderia, ele próprio, divulgar os extratos”, afirmou a defesa de Flávio Bolsonaro na petição.
As 21 exigências de Flávio Bolsonaro para liberar dados de 20 anos
No texto entregue ao TSE, Flávio Bolsonaro concorda em abrir seus próprios dados, os de seus familiares citados pelo adversário e os das empresas das quais é sócio ou administrador, além de não se opor à divulgação de mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em contrapartida, exige que a quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico atinja Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência da República, além da apresentação de termos de autorização de assessores, seguranças e auxiliares que operaram linhas telefônicas para Lula nos últimos oito anos.
Durante agenda de campanha em Guarulhos (SP) nesta quarta-feira (21), o senador justificou a cobrança sobre o ex-chefe de gabinete afirmando que Lula não utiliza aparelho celular próprio e que Marcola recebia as ligações destinadas ao presidente. “Eu não só vou aceitar o desafio como eu vou levar até as últimas consequências”, declarou Flávio Bolsonaro no evento.
A lista de exigências abrange tanto os mandatos anteriores do petista quanto a atual gestão federal. O candidato do PL cobra a abertura de sigilos de empresas ligadas a familiares do presidente, incluindo sociedades de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de sua esposa Renata de Abreu Moreira, empresas do antigo grupo Gamecorp/Gol, negócios no exterior, além do Instituto Lula e da empresa L.I.L.S. Palestras, Eventos e Publicações Ltda. desde 2003.
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Na frente ligada ao caso do Banco Master, a petição solicita a divulgação integral dos registros de visitas nos Palácios do Planalto e da Alvorada, os detalhes da reunião realizada entre Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, os registros de reuniões do ex-ministro Guido Mantega no governo e os planos de voos de uma aeronave atribuída a Vorcaro.
Já sobre as investigações envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a campanha do PL exige esclarecimentos e a quebra de sigilos da empresária e lobista Roberta Luchsinger, com os registros de entradas dela nos palácios presidenciais e de voos na Força Aérea Brasileira (FAB). O pedido inclui ainda a abertura de dados do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) e de seu vice-presidente, o sindicalista José Ferreira da Silva, o Frei Chico, que é irmão de Lula. Completam o pacote a liberação de todos os gastos com cartões corporativos da Presidência da República desde janeiro de 2023 e das agendas institucionais da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, desde o início do mandato.
Negativa sobre a Alcazar Holdings e os 2 inquéritos no STF
Na manifestação enviada ao TSE, Flávio Bolsonaro declarou que não é sócio, administrador nem beneficiário da Alcazar Holdings, uma offshore empresa aberta no exterior, geralmente em regiões com tributação reduzida sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Por esse motivo, o senador afirmou não possuir dados bancários e fiscais da companhia, que pertence ao advogado Willer Tomaz.
O parlamentar é alvo de dois inquéritos em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). Um deles, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, apura suspeita de lavagem de dinheiro e participação oculta na própria Alcazar Holdings, investigação na qual a Polícia Federal apontou que Flávio Bolsonaro esteve cadastrado como usuário principal de uma conta bancária da empresa até 22 de maio de 2025. O segundo inquérito, aberto em julho de 2026 sob relatoria do ministro André Mendonça, investiga o financiamento da cinebiografia “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, apurando negociações com recursos do banqueiro Daniel Vorcaro. A defesa do senador nega irregularidades e critica a divulgação de peças sigilosas no período eleitoral.
Cronologia do embate entre Lula e Flávio Bolsonaro no TSE
A disputa judicial teve origem no debate presidencial do segundo turno e gerou protocolos seguidos na Corte eleitoral, presidida pelo ministro Kassio Nunes Marques. No requerimento inicial, Lula colocou seus dados à disposição no sistema DivulgaCandContas, plataforma oficial do TSE que reúne informações sobre candidatos e contas eleitorais. “A divulgação pública dos dados bancários, fiscais e telefônicos dos dois candidatos, anterior a próxima quarta-feira (21.10.2026), é fundamental para que a população brasileira seja devidamente informada e possa decidir livremente em quem vai votar”, afirmou Luiz Inácio Lula da Silva no documento enviado ao tribunal.
- Domingo, 18 de outubro de 2026: Lula lança o desafio de abertura mútua de sigilos para Flávio Bolsonaro durante debate presidencial na TV Bandeirantes.
- Terça-feira, 20 de outubro de 2026: Lula protocola requerimento no TSE autorizando a abertura dos sigilos dos últimos 8 anos dele, da primeira-dama Janja, dos cinco filhos (Lurian, Marcos Cláudio, Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio) e da L.I.L.S. Palestras, exigindo em troca os dados de Flávio Bolsonaro, de Jair Bolsonaro, da mãe Rogéria Bolsonaro, da esposa Fernanda Bolsonaro, dos irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, e de cinco empresas (Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, All In One Corretora de Seguros Ltda., Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação Ltda., Bolsonaro Digital Ltda. e Alcazar Holdings).
- Quarta-feira, 21 de outubro de 2026: Flávio Bolsonaro protocola petição no TSE aceitando abrir os sigilos de 20 anos, mas condiciona o ato à aceitação de ao menos 21 exigências por parte do petista.
Na peça apresentada nesta quarta-feira (21), a defesa de Flávio Bolsonaro pede que o TSE intime Lula a informar se aceita as novas condições e solicita que, em caso de recusa, a negativa seja formalmente registrada nos autos do processo. Até o momento, não há decisão do ministro relator André Mendonça sobre o pedido de intimação nem resposta formal da campanha petista nos autos aceitando ou recusando as exigências.
