Maria de Fátima em Vale Tudo engana a própria mãe e termina rica na Europa ao lado de César Ribeiro

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Maria de Fátima e Afonso Roitman Foto: Maria de Fátima e Afonso Roitman - Foto: Reprodução/Tv Globo

A ambição sem limites de Maria de Fátima consolidou uma das trajetórias mais conhecidas da teledramaturgia na novela Vale Tudo, exibida originalmente pela TV Globo entre maio de 1988 e janeiro de 1989. Vivida por Glória Pires na primeira versão e assumida por Bella Campos na releitura escrita por Manuela Dias, a personagem atravessou décadas como símbolo de manipulação social. Desde as cenas iniciais, a jovem demonstra disposição para alcançar riqueza e prestígio a qualquer preço, passando por cima da própria mãe, Raquel, e de todos ao redor. Na obra original, em vez de sofrer punições pelos crimes cometidos, a antagonista encerra a participação milionária, casada com um nobre europeu e morando fora do país, fruto de uma articulação planejada com o amante e cúmplice César Ribeiro. A nova versão da história, lançada em 31 de março de 2025, retoma o debate público sobre o destino reservado à personagem e sobre a impunidade retratada no roteiro original.

Criada pelos autores Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a jornada da jovem tem início no município de Foz do Iguaçu, onde ela mora com a mãe, Raquel, mulher íntegra vivida em 1988 por Regina Duarte. Logo após o falecimento do avô, a garota negocia a residência da família às escondidas e embarca rumo ao Rio de Janeiro para dar início ao plano de ascensão financeira. Na capital fluminense, ela estabelece parceria com César Ribeiro, ex-modelo interpretado na época por Carlos Alberto Riccelli, com quem passa a elaborar golpes para obter dinheiro rápido. A antagonista utiliza a aparência e o cálculo frio para envolver vítimas como Afonso Roitman, herdeiro de um grande grupo empresarial vivido por Cássio Gabus Mendes. Mesmo após oficializar a união com o empresário, os interesses financeiros e afetivos dela continuam voltados para César, mantendo um vínculo clandestino e estratégico ao longo de toda a narrativa.

Com o desenrolar dos capítulos, a personagem de Glória Pires distancia-se do destino trágico reservado a outras figuras da trama. Enquanto a empresária Odete Roitman, interpretada por Beatriz Segall, acaba assassinada na reta final, a jovem golpista livra-se de qualquer acerto de contas com a Justiça ou com as vítimas. No capítulo final, transmitido em 6 de janeiro de 1989, ela executa a última manobra: sobe ao altar com um príncipe italiano homossexual que necessitava de um matrimônio de aparência para preservar a imagem pública. O arranjo, desenhado por César, assegura aos dois uma rotina de alto padrão no continente europeu, distante das autoridades e dos antigos desafetos. A sequência é descrita na trama por Tia Celina, papel de Nathalia Timberg, que relata uma cerimônia repleta de autoridades estrangeiras e ampla cobertura jornalística.

Casamento com nobre da Lombardia sela vitória da antagonista

O encerramento reservado para a filha de Raquel em Vale Tudo subverteu a tradição dos folhetins de punir os vilões nos últimos capítulos. Enquanto a mãe trabalhadora enfrenta obstáculos diários para sobreviver de maneira honesta, a jovem acumula conquistas materiais sem demonstrar arrependimento pelas fraudes praticadas. Essa oposição direta conduz o questionamento central proposto pelos autores sobre a validade da integridade moral na sociedade. Para a golpista, o resultado prático mostra que a transgressão compensou, permitindo que ela alcance exatamente a posição social e a fortuna cobiçadas desde a saída do interior do Paraná.

Nos diálogos que encerram a produção de 1988, a união matrimonial na Europa aparece como uma operação financeira de alto nível. Durante uma conversa no último episódio, a personagem Tia Celina explica que o noivo pertence a uma das famílias mais tradicionais da região da Lombardia e possui carreira política em franca ascensão, condição que abre as portas da aristocracia internacional para a brasileira. O evento social ganha destaque na imprensa estrangeira pelo porte da celebração e pela lista de convidados. Após ter enganado Afonso e tirado proveito do patrimônio dos Roitman, a jovem atinge o topo da pirâmide social sem responder pelos atos passados.

A ausência de castigo provocou discussões intensas entre os telespectadores na virada de 1988 para 1989. Com médias de 60 pontos de audiência, número que representava aproximadamente 40 milhões de pessoas acompanhando cada episódio, a produção mobilizou a atenção popular em torno de seus desdobramentos éticos. O triunfo da antagonista foi recebido como um retrato crítico do período pós-redemocratização, expondo a percepção de que o oportunismo frequentemente superava a lei. Ao contrário de Odete Roitman, alvejada mortalmente por Leila, personagem de Cássia Kis, na sequência mais aguardada da obra, a jovem golpista sai ilesa da história.

Parceria com César Ribeiro conduz os golpes da trama

O eixo principal das armações executadas pela vilã passa diretamente pelo envolvimento com César Ribeiro, ex-modelo que se sustenta por meio de trapaças e relacionamentos por interesse. Vivido por Carlos Alberto Riccelli na exibição original e entregue a Cauã Reymond na adaptação de Manuela Dias, o rapaz funciona simultaneamente como cúmplice nos delitos e parceiro amoroso constante. A relação entre os dois combina atração física e ambição financeira, sustentando cenas que marcaram a exibição da década de 1980. Mesmo durante o período em que esteve casada com o herdeiro da família Roitman, a jovem manteve encontros regulares e secretos com o comparsa.

Compreender o funcionamento dessa dupla é indispensável para explicar como a antagonista chega ao topo no encerramento da história. É o próprio César, valendo-se do trânsito entre pessoas ricas e da experiência em chantagens, quem costura o acordo matrimonial com o nobre europeu, viabilizando a fortuna da parceira sem que os dois precisem se separar. A divisão de tarefas mostra-se complementar durante toda a novela: ela entra com a juventude e a capacidade de dissimulação diante da família tradicional, ao passo que ele fornece o planejamento adquirido nos bastidores do meio artístico. Na releitura com Bella Campos e Cauã Reymond, a direção retoma essa mesma estrutura de aliança amorosa e financeira.

A transferência definitiva para o continente europeu representa o ponto máximo da sociedade firmada pelos dois amantes desde a chegada dela ao Rio de Janeiro. A necessidade do príncipe italiano de manter a orientação sexual em sigilo transforma o nobre no alvo ideal para a ambição da dupla. Sem demonstrar culpa pelo abandono da mãe ou pela manipulação do ex-marido, a personagem embarca para o exterior cercada de privilégios materiais. O desfecho confirma a coerência do perfil construído ao longo dos capítulos: uma mulher focada exclusivamente na própria elevação financeira, indiferente aos danos causados a terceiros.

Escalação de Bella Campos e mudanças no elenco da adaptação

A releitura escrita por Manuela Dias, com direção artística de Paulo Silvestrini, reposiciona a narrativa nos tempos atuais preservando a filha de Raquel como motor dos conflitos principais. Aos 27 anos, Bella Campos recebeu a missão de interpretar a personagem que Glória Pires defendeu aos 25 anos na produção de 1988. Com passagens anteriores pelas novelas Pantanal e Vai na Fé, a atriz foi selecionada após uma bateria que superou 40 testes de vídeo e estúdio, demonstrando a exigência da emissora para o papel. Enquanto a interpretação clássica apoiava-se em um comportamento mais frio e contido, a nova versão aposta em uma postura voltada para a exposição, na qual a jovem busca fama rápida como influenciadora nas redes sociais.

As trocas no quadro de protagonistas alteram também a configuração de outros núcleos fundamentais da obra. Taís Araújo assume o posto que pertenceu a Regina Duarte na defesa da batalhadora Raquel, inserindo novas camadas sociais à trajetória da mãe da vilã. O papel da empresária Odete Roitman passou para Débora Bloch, substituindo Beatriz Segall, ao passo que Humberto Carrão ficou encarregado de dar vida a Afonso Roitman, anteriormente interpretado por Cássio Gabus Mendes. O conjunto de escolhas busca aproximar o texto das discussões contemporâneas, mantendo a promessa da autora de alterar a identidade de quem mata Odete na reta final.

O trabalho de pré-produção e definição dos nomes durou cerca de doze meses sob o comando de Manuela Dias e Paulo Silvestrini. Para bater o martelo sobre a protagonista jovem, a direção realizou avaliações conjuntas de Bella Campos contracenando diretamente com Taís Araújo e também com Renato Góes, ator escalado para viver o executivo Ivan. A sintonia em cena entre os intérpretes, sobretudo nas sequências que reúnem a vilã e o parceiro César Ribeiro, foi tratada pela equipe técnica como requisito básico para sustentar a tensão dramática da obra.

Episódios decisivos da trajetória da personagem em 1988

Ao longo da exibição original, a escalada de Maria de Fátima apoiou-se em reviravoltas específicas que marcaram os capítulos da época. Os principais acontecimentos e as respectivas datas de exibição na primeira versão foram:

  • Venda do imóvel familiar em 16 de maio de 1988: logo no capítulo de estreia, a jovem comercializa a casa deixada pelo avô sem o conhecimento da mãe e viaja para o Rio de Janeiro, deixando Raquel sem recursos em Foz do Iguaçu.
  • Embate na areia em 31 de maio de 1988: durante o capítulo 14, Raquel trabalha vendendo sanduíches na praia quando encontra a filha, que já circula em ambientes sofisticados e renega a origem humilde.
  • Vestido rasgado e união em 15 de agosto de 1988: no capítulo 80, após um confronto direto em que a mãe rasga o traje de noiva da filha, a golpista mantém a cerimônia e oficializa o casamento com o herdeiro Afonso Roitman.
  • Acidente nas escadarias em 15 de setembro de 1988: no capítulo 108, a antagonista despenca pelos degraus do Teatro Municipal do Rio de Janeiro em uma das sequências mais dramáticas de toda a produção.
  • Matrimônio europeu em 6 de janeiro de 1989: no último capítulo, a personagem concretiza a união de fachada com o príncipe da Lombardia sob orientação de César Ribeiro.

A sucessão desses eventos demonstra o método adotado pela personagem para eliminar obstáculos e garantir degraus mais altos na elite carioca. Cada confronto familiar ou acidente de percurso foi rapidamente revertido por ela em benefício próprio até a saída definitiva do país.

Audiência histórica de 80 pontos e retrato pós-ditadura

Transmitida em um período em que o país acabava de sair do regime militar, a novela de 1988 contou com 204 capítulos que refletiram o debate público sobre corrupção e crise econômica. Em praças como Rio de Janeiro e São Paulo, a transmissão chegou a atingir picos de 80 pontos de audiência, especialmente nas semanas que cercaram a morte de Odete Roitman. Dentro desse panorama, o comportamento cínico da filha de Raquel funcionou como espelho das distorções morais debatidas diariamente nas ruas e na imprensa.

A abertura embalada pela música Brasil, interpretada por Gal Costa, dava o tom de denúncia social que permeava os diálogos escritos por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Expressões repetidas pela personagem de Glória Pires sobre a necessidade de subir na vida a qualquer custo popularizaram-se rapidamente entre os telespectadores. O fato de a golpista terminar a trama recompensada com fortuna e título de nobreza contrariou o padrão moralista da televisão, reforçando a tese crítica da obra.

Na versão conduzida por Manuela Dias, a substituição da carreira de modelo pelo desejo de viralizar na internet adapta a mesma ganância aos mecanismos de visibilidade do século XXI. Embora os meios utilizados pela jovem tenham mudado para incluir plataformas digitais, o conflito ético entre o trabalho árduo da mãe e os atalhos ilegais da filha permanece no centro do roteiro.

Bastidores dos testes de elenco e direção de Paulo Silvestrini

O processo seletivo que definiu Bella Campos para o papel central exigiu etapas rigorosas de avaliação dramática nos estúdios da emissora. A autora Manuela Dias relatou que a confirmação ocorreu imediatamente após a análise do desempenho da atriz nas cenas de teste. “Quando vimos o teste da Bella, soubemos que era ela”, declarou a novelista em entrevista sobre os bastidores da produção. Para adequar a personagem à intérprete de 27 anos, dois anos mais velha do que Glória Pires tinha quando gravou a obra original, o roteiro alterou a idade da vilã na ficção de 21 para 23 anos.

Os trabalhos de desenvolvimento da nova versão tiveram início em 2023, momento em que a direção da TV Globo escalou oficialmente Manuela Dias para reescrever o clássico. A produção foi incluída no calendário festivo de 60 anos do canal, entrando na grade das 21h em substituição à novela Mania de Você. Na concepção visual, o diretor Paulo Silvestrini implementou uma estética que combina referências da década de 1980 com elementos atuais no desenho de cenários e figurinos.

Com o lançamento do primeiro capítulo em 31 de março de 2025, o duelo moral entre as personagens de Taís Araújo e Bella Campos voltou a ocupar o horário nobre. Além de acompanhar a nova roupagem dos golpes da filha contra a mãe, o público aguarda a solução inédita prometida pela autora para o assassinato de Odete Roitman, cujo culpado será diferente daquele exibido em 1989.

Alterações de roteiro e troca do Catete por Vila Isabel

A transposição da história para a realidade contemporânea trouxe modificações diretas já nos episódios de abertura da nova versão. No capítulo de estreia, quando o personagem Rubinho, vivido por Julio Andrade, agride Raquel, a protagonista reage imediatamente e devolve o tapa no marido, atitude que não existia na gravação de 1988. Além disso, a autora optou por desmembrar os acontecimentos do primeiro capítulo original em dois episódios, ampliando o tempo de tela dedicado à venda clandestina da casa da família em Foz do Iguaçu. Na chegada ao Rio de Janeiro, o bairro que acolhe a mãe trabalhadora deixou de ser o Catete, na Zona Sul, passando para Vila Isabel, na Zona Norte da capital.

No núcleo principal, a entrada de nomes como Alexandre Nero soma-se a Taís Araújo e Débora Bloch na reformulação visual e dramática da obra. O relacionamento entre a jovem ambiciosa e o comparsa vivido por Cauã Reymond incorpora o uso de ferramentas tecnológicas e redes sociais na aplicação das fraudes, mantendo a estrutura de parceria amorosa e criminosa que sustentou o enredo original.

Atores de 1988 que faleceram e detalhes de gravação

A retomada da história ocorre após a morte de integrantes importantes do elenco que gravou a primeira versão na década de 1980. A atriz Beatriz Segall, responsável por eternizar a vilã Odete Roitman, faleceu no ano de 2018, aos 92 anos de idade, em decorrência de complicações ligadas à doença de Alzheimer e problemas respiratórios. Jairo Lourenço, intérprete do personagem Luciano na trama clássica, morreu em 2021, aos 60 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Já o ator Roberto Frota, que interpretou Santana em 1988, faleceu em setembro de 2024, aos 85 anos, devido a uma pneumonia após enfrentar o tratamento contra um câncer. Na nova formação do elenco, atrizes como Paolla Oliveira, escalada para viver Heleninha Roitman, e Carolina Dieckmann, que assume o papel de Leila, dão sequência aos personagens que marcaram a teledramaturgia.

Os bastidores da produção original também reuniram particularidades técnicas que cercaram a construção da antagonista vivida por Glória Pires:

  • Gravação externa no Centro do Rio: a sequência da queda no capítulo 108 foi rodada diretamente nas escadarias reais do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, demandando múltiplas repetições da equipe e da atriz até a aprovação do diretor.
  • Figurino rasgado em cena: o vestido de noiva destruído por Raquel durante a briga no capítulo 80 exigiu preparação especial da equipe de arte e consolidou-se como o ponto de ruptura definitiva entre mãe e filha.
  • Sigilo no desfecho europeu: as gravações do casamento com o nobre da Lombardia para o capítulo de 6 de janeiro de 1989 ocorreram sob restrição nos estúdios para evitar que os detalhes do golpe final vazassem antes da transmissão.

Esses registros de produção mostram a engrenagem técnica por trás da trajetória de Maria de Fátima, cuja história segue agora sob a interpretação de Bella Campos e o texto de Manuela Dias no horário nobre da televisão.

Manuela é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2015

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