Indivíduos jovens da espécie arraia-manta gigante (Mobula birostris), também chamada de jamanta, permanecem restritos às águas costeiras rasas da Costa Rica para evitar predadores, enquanto os animais adultos realizam migrações de centenas de quilômetros pelo oceano aberto. A descoberta integra um estudo publicado em 21 de outubro de 2026 na revista científica Frontiers in Fish Science, que analisou o comportamento dos animais na América Central ao longo de sete anos e registrou viagens até a região costeira da Guatemala.
O levantamento reuniu dados coletados entre 2018 e 2025 por meio de diferentes equipamentos de rastreamento marinho. “Ao combinar diferentes tecnologias, conseguimos montar um mapa altamente detalhado de seus deslocamentos e do uso que fazem das estações costeiras de limpeza”, disse Jeffry Madrigal-Mesén, diretor e líder de projeto do grupo de pesquisa Mantas Costa Rica e autor principal do estudo.
Divisão de espaço da arraia-manta gigante entre a costa da Costa Rica e a Guatemala
A pesquisa, que tem como coautores os cientistas Carolina Martín-Rivas e Randall Arauz, identificou uma mudança no uso do espaço oceânico conforme a espécie amadurece. Os animais jovens e imaturos monitorados pela equipe permaneceram estritamente nas águas costeiras rasas, dentro dos limites da zona econômica exclusiva da Costa Rica.
Em contrapartida, os exemplares adultos e maduros executaram migrações transfronteiriças de longa distância. Esses deslocamentos ocorreram ao longo da plataforma continental da América Central, com registros de indivíduos que saíram das áreas costeiras costa-riquenhas e nadaram até águas ao largo da Guatemala.
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“Mostramos que o estilo de vida das arraias-mantas não é um comportamento único para todos. As arraias-mantas gigantes na América Central passam por uma mudança drástica no uso do espaço à medida que amadurecem”, afirmou Madrigal-Mesén, em tradução livre. O pesquisador detalhou o contraste observado entre as faixas etárias no relatório científico, apontando que os jovens permaneceram estritamente em águas rasas próximas à costa que servem como refúgios costeiros, enquanto a maioria dos adultos rastreados executou migrações transfronteiriças de longa distância ao longo da quebra da plataforma continental na América Central.
O trabalho científico foi publicado sob o título original “Bridging coastal aggregation hubs and oceanic sanctuaries: the first multi-scale telemetry baseline for the giant manta ray (Mobula birostris) in Central America” e contou com a colaboração de três instituições voltadas à preservação oceânica. Participaram da iniciativa o grupo de conservação marinha costa-riquenho CREMA (Asociación Centro de Rescate de Especies Marinas Amenazadas), a organização Marine Watch International e a rede de pesquisa MigraMar.
- Período de coleta de dados: de 2018 a 2025 (sete anos de acompanhamento)
- Locais de monitoramento: 5 pontos nas águas da Costa Rica
- Total de animais monitorados: 71 arraias-mantas gigantes
- Monitoramento por transmissores de telemetria acústica: 59 indivíduos
- Rastreamento em larga escala via etiquetas de satélite: 12 indivíduos
- Volume do banco de dados: mais de 12.000 detecções registradas, somadas à identificação fotográfica
- Largura de disco dos indivíduos jovens e imaturos: de 3 a 3,5 metros
- Largura de disco dos indivíduos adultos em migração: de 4 a 4,5 metros
- Peso máximo atingido por um adulto da espécie: até 2.000 kg (4.409 libras)
- Tempo estimado para atingir a maturidade sexual: de 8 a 10 anos de idade
Por que a arraia-manta gigante jovem evita o oceano aberto?
A permanência dos indivíduos mais novos nas proximidades da costa funciona como uma barreira de proteção biológica. Mesmo medindo a partir de 3 metros de largura de disco, porte considerado grande em comparação a nadadores humanos, os animais imaturos ainda correm risco diante da fauna marinha de grande porte que habita o mar aberto.
“Isso nos leva a crer que as arraias-manta menores não se arriscam nessas longas migrações, provavelmente devido à ameaça de grandes predadores, como orcas e tubarões-tigre”, afirmou Madrigal-Mesén. Segundo o diretor do Mantas Costa Rica, o tamanho corporal atingido na fase adulta atua como um dos principais mecanismos de defesa da espécie no oceano.
As marcas físicas registradas nos animais durante as etapas de identificação fotográfica sustentam a conclusão da equipe sobre o risco de predação. “É bastante comum ver animais sem partes do corpo e, em muitos casos, o formato dos ferimentos sugere fortemente que sejam mordidas de outros grandes predadores marinhos”, disse o autor principal do estudo.
Fidelidade da arraia-manta gigante às estações de limpeza na Costa Rica
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O cruzamento das mais de 12.000 detecções com os registros fotográficos revelou que as arraias-mantas demonstram alta fidelidade aos pontos costeiros da Costa Rica. Pouquíssimos animais se deslocaram entre as cinco áreas de monitoramento, mesmo nos casos em que esses pontos estavam separados por algumas dezenas de quilômetros.
Essas áreas funcionam como estações costeiras de limpeza, que são formações de recifes rochosos onde pequenos peixes removem parasitas da pele das raias, em uma relação biológica simbiótica. Além da remoção de parasitas, os pesquisadores observaram nos mesmos recifes comportamentos de alimentação, cortejo e acasalamento recente, indicando que as formações servem como pontos de convívio para a espécie.
Sobre a integração entre satélite, telemetria acústica e fotografia, Madrigal-Mesén declarou que a equipe não teria conseguido montar esse quebra-cabeça se não tivesse utilizado as três tecnologias juntas, pois a combinação dessas ferramentas transformou dados fragmentados em um registro unificado.
Apesar do mapeamento detalhado, os cientistas ainda não sabem o que desencadeia a transição dos indivíduos jovens para a população migratória adulta, embora suspeitem da influência de áreas de alimentação e reprodução em águas produtivas da região. Também não está confirmado como as arraias conseguem se orientar para retornar exatamente às mesmas estações de limpeza.
“Com base na batimetria dos diferentes locais que monitoramos, deve haver uma relação com as formações rochosas. Nós, seres humanos, temos lugares favoritos aos quais gostamos de ir”, disse Madrigal-Mesén. “Por que elas não poderiam preferir uma estação de limpeza a outra?”, acrescentou o pesquisador.
Ameaças de pesca à arraia-manta gigante e estudos genéticos na América Central
O rastreamento via satélite mostrou que a proteção natural e legal das áreas costeiras cessa quando os animais iniciam suas rotas migratórias. Assim que deixam a Ilha do Coco, uma ilha vulcânica localizada no oceano Pacífico, e as zonas costeiras monitoradas da Costa Rica, as arraias-mantas entram em águas abertas desprotegidas.
Nesses trajetos internacionais, a espécie fica exposta à pesca industrial e ao risco de colisão com o tráfego de embarcações. A vulnerabilidade da arraia-manta gigante é agravada pelo ciclo biológico lento, semelhante ao de tubarões e outras raias, com baixa taxa de reprodução e necessidade de 8 a 10 anos para alcançar a maturidade sexual.
“Estudos como esse nos ajudam a reconhecer que esses refúgios costeiros só as protegem durante uma época específica do ano. Por isso, é tão crucial proteger os corredores marinhos pelos quais essas espécies migratórias transitam”, afirmou Madrigal-Mesén, defendendo a criação de áreas de proteção nas rotas oceânicas.
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Os dados obtidos ao longo dos sete anos também alteraram a percepção dos biólogos sobre a origem dos animais da região. Antes do estudo, a hipótese inicial era a de que os exemplares avistados na Costa Rica fossem migrantes vindos de populações do México ou do Equador, mas os deslocamentos mais curtos e concentrados na plataforma centro-americana sugerem a existência de uma população própria e distinta na América Central. Para confirmar essa hipótese, a equipe de pesquisadores iniciou uma nova etapa de investigação baseada em estudos genéticos dos animais.
