Yuezhuornis yangyuanensis achado em Fujian comprova existência de predador terrestre na linhagem das aves

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Fóssil ave do Jurássico - ca2hill/ istockphoto.com Foto: Fóssil ave do Jurássico - ca2hill/ istockphoto.com

A identificação da espécie primitiva Yuezhuornis yangyuanensis por equipes da Academia Chinesa de Ciências comprova a existência de uma ave terrestre e predadora que habitou a província de Fujian, no sudeste da China, durante o período Jurássico Superior. Divulgado pela revista científica Nature em 14 de outubro de 2026, o levantamento detalha que o animal viveu entre 150 milhões e 148 milhões de anos atrás sem a capacidade de voar. A descoberta contesta a premissa científica de que os primeiros passos evolutivos dessa linhagem ocorreram exclusivamente em função da adaptação ao voo.

O trabalho de investigação reuniu profissionais do Instituto de Ciências Geológicas de Fujian e do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), órgão vinculado à Academia Chinesa de Ciências. Na publicação oficial, Liming Xu assina como primeiro autor, enquanto o paleontólogo Min Wang atua como autor correspondente. “Quando examinamos o Yuezhuornis, ficamos impressionados com sua extraordinária mistura de características”, declarou Min Wang, em tradução livre, acrescentando que a espécie apresentava porte físico semelhante ao de um corvo.

Proporções ósseas de 50 centímetros e garras em forma de foice

Exames realizados na estrutura óssea apontam que o exemplar de Yuezhuornis yangyuanensis tinha peso calculado em 821 gramas e atingia aproximadamente 50 centímetros de comprimento total. A medição dos membros mostrou que as asas ou braços (membros anteriores) tinham comprimento cerca de um terço menor em relação às pernas (membros posteriores). Tal configuração corporal impedia a sustentação de voo contínuo, separando o animal do padrão observado em outras aves primitivas registradas na paleontologia.

A confirmação sobre os hábitos da espécie exigiu o cruzamento das medidas do esqueleto com a estrutura anatômica de 377 espécies de aves que existem atualmente. Esse comparativo demonstrou que o animal pré-histórico tinha proporções diretamente alinhadas às de aves modernas que permanecem a maior parte do tempo no chão, como os faisões. Embora contasse com pernas e pelve parecidas com as das aves contemporâneas e braços curtos, o fóssil preservou atributos clássicos de dinossauros carnívoros: dentes serrilhados em alta densidade, uma longa cauda óssea e um segundo dedo do pé hiperextensível dotado de uma grande garra curva em formato de foice, elemento típico do grupo Deinonychosauria, do qual faz parte o caçador bípede Velociraptor.

Conforme o artigo publicado na revista Nature, essa garra flexível e curvada localizada nos pés funcionava como ferramenta para capturar presas diretamente no solo. Diante dessas características anatômicas, o Yuezhuornis yangyuanensis passa a ocupar a posição de registro mais antigo já documentado dentro da linhagem evolutiva das aves a perder ou a não desenvolver a habilidade de voar.

Ficha técnica do holótipo IVPP V34427 após 440 dias de escavações

Para localizar o único fóssil que fundamentou o reconhecimento formal do animal, as equipes trabalharam durante quatro anos em escavações no sudeste do território chinês. A nomenclatura oficial escolhida pelos autores combina referências geográficas e culturais: o nome do gênero, Yuezhuornis, remete a uma ave mítica presente em antigas lendas chinesas, ao passo que o termo específico, yangyuanensis, identifica a área exata da retirada do material. Os parâmetros documentais da pesquisa estão discriminados abaixo:

  • Identificação oficial do fóssil: espécime holótipo IVPP V34427 (exemplar físico único utilizado pela ciência para descrever formalmente uma nova espécie).
  • Período da descoberta em campo: agosto de 2024, após 440 dias de escavações acumuladas pela equipe.
  • Localização exata: depósito fossilífero da Fauna de Zhenghe, na Formação Nanyuan, situado no município de Yangyuan, condado de Zhenghe, cidade de Nanping, província de Fujian, China.
  • Publicação oficial: estudo intitulado “Jurassic flightless bird reveals early ecological diversity of avialans”, divulgado em 14 de outubro de 2026 na revista Nature e repercutido internacionalmente em 15 de outubro de 2026.

Convivência com Baminornis zhenghensis e Fujianvenator há 149 milhões de anos

Antes dos trabalhos de campo concentrados na Fauna de Zhenghe, o acervo paleontológico global referente às aves do Jurássico era reduzido e baseava-se majoritariamente nos fósseis de Archaeopteryx, animal primitivo apto ao voo descoberto em território alemão. O predador de solo recém-identificado integra um conjunto de fósseis de aproximadamente 149 milhões de anos extraídos da mesma formação rochosa na China, onde também foram encontrados o Baminornis zhenghensis e espécies de pernas longas ligadas a regiões alagadas, a exemplo do Fujianvenator.

O registro de que diferentes animais com estruturas corporais variadas habitavam o mesmo ecossistema pré-histórico comprova uma rápida diversificação ecológica logo nos primeiros milhões de anos após o aparecimento do grupo das aves. No intervalo compreendido entre 150 milhões e 148 milhões de anos atrás, coexistiam naquela região predadores restritos ao ambiente terrestre, espécies plenamente voadoras e animais com capacidade reduzida de voo. “Isso nos mostra que a evolução inicial das aves foi muito mais complicada do que percebíamos anteriormente”, afirmou Min Wang.

Limitação de esqueleto único mantém dúvida sobre ancestrais voadores

Mesmo com o mapeamento minucioso da estrutura óssea apresentado no artigo, a ciência ainda não dispõe de provas definitivas para confirmar se os ancestrais diretos do Yuezhuornis yangyuanensis chegaram a voar no passado e perderam a função de forma secundária ou se linhagens primitivas distintas adquiriram traços ligados ao voo de modo independente.

A ausência de uma resposta conclusiva sobre essa etapa evolutiva decorre do fato de toda a descrição da espécie depender de um único esqueleto encontrado em estado incompleto e parcial. Segundo os cientistas do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, o esclarecimento sobre a ausência original ou perda posterior do voo nesse grupo do Jurássico dependerá da localização de novos fósseis em futuras frentes de escavação.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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