Flávio Bolsonaro propõe transição de 24 meses no Bolsa Família

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Bolsa família Foto: Bolsa família - Foto: Pamela Marciano / Shutterstock.com

A Regra de Proteção do Bolsa Família entrou no centro do debate econômico e eleitoral no Brasil neste domingo (25), com análises sobre como evitar que o corte do auxílio desestimule a busca por emprego formal. Enquanto as normas vigentes garantem metade do pagamento por até 12 meses para quem aumenta a renda com o trabalho, propostas em discussão defendem ampliar o prazo para 24 meses e substituir as faixas fixas de corte por uma redução gradual.

O economista Claudio Adilson Gonçalez analisou que a passagem entre o recebimento do auxílio e a autonomia financeira precisa evitar perdas bruscas quando o trabalhador assina a carteira ou consegue um aumento salarial. “Boa política social garante renda quando ela falta e assegura que cada avanço obtido pelo trabalho deixe a família efetivamente melhor”, afirmou Gonçalez.

Como funciona o cálculo de retirada gradual do Bolsa Família?

Bolsa Família
Foto: Bolsa Família – Lyon Santos/MDS

No modelo atual do programa social, o corte do pagamento ocorre em degraus fixos conforme a evolução dos ganhos da casa, o que pode gerar uma taxa implícita elevada sobre o salário formal recém-conquistado. Para evitar que um pequeno acréscimo salarial provoque a perda imediata de metade ou de toda a transferência federal, Claudio Adilson Gonçalez propõe uma retirada gradual do benefício ao longo de um período de 12 a 24 meses. Nesse formato alternativo, sempre que a família ultrapassar a linha que dá direito ao pagamento integral, cada R$ 1,00 adicional obtido pelo trabalho reduziria o repasse governamental apenas em uma fração menor, garantindo que a renda total disponível na residência continue subindo a cada avanço profissional.

Na simulação apresentada pelo economista, se cada R$ 100,00 a mais de salário reduzissem o benefício em R$ 30,00, o orçamento doméstico ainda teria um ganho líquido de R$ 70,00 no fim do mês. Esse mecanismo exigiria também um retorno rápido ao programa caso o trabalhador perca a vaga, diminuindo o risco para grupos de renda oscilante que aceitam ocupações temporárias.

Como a saída mais lenta amplia a quantidade de pessoas atendidas e eleva o custo público, a medida dependeria do cruzamento direto do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) com os registros oficiais do mercado de trabalho e da Previdência Social. A integração de dados permitiria cortar pagamentos indevidos para financiar a transição, sem punir quem enfrenta variações constantes de faturamento.

Saiba mais: Bolsa Família paga piso de R$ 600 e adicionais de até R$ 150 em 2026

Proposta de Flávio Bolsonaro prevê transição de 24 meses no Bolsa Família

O tema ganhou destaque na campanha presidencial na segunda-feira (19), na semana anterior ao segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), realizado em 25 de outubro de 2026. A economista e coordenadora econômica da campanha do candidato do PL, Daniella Marques, apresentou a ideia de fixar um período de dois anos para os atendidos que entrarem no mercado formal.

Veja também: Regra de Proteção do Bolsa Família paga 50% a quem consegue emprego

“Quem está no Bolsa Família vai ter regra de transição, como teve na época do presidente Bolsonaro, de dois anos, para que possa abrir o seu negócio ou aceitar emprego de carteira assinada. Com uma regra de transição por dois anos e o retorno automático caso dê errado. As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é um início de uma jornada”, declarou Daniella Marques.

Após a fala repercutir na disputa eleitoral, a assessoria da economista e integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro informaram que a contagem de 24 meses começaria somente a partir da assinatura da carteira de trabalho ou da abertura da empresa. Os representantes negaram que o auxílio seria encerrado para quem continuasse desempregado.

Até o momento, a campanha de Flávio Bolsonaro não detalhou os critérios operacionais de como funcionaria o retorno automático ao programa, nem informou se a manutenção do pagamento durante os dois anos seria integral ou parcial.

Valores, prazos e limites atuais da Regra de Proteção do Bolsa Família

Atualmente, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) já aplica um modelo de transição reformulado a partir de meados de 2025. As regras em vigor dividem os beneficiários conforme a origem e a estabilidade do dinheiro que entra na residência:

  • Limite de entrada no Bolsa Família e retorno ao valor integral: renda familiar mensal de até R$ 218,00 por pessoa.
  • Teto para novos entrantes na Regra de Proteção (a partir de junho e julho de 2025): renda mensal por pessoa acima de R$ 218,00 até o limite de R$ 706,00.
  • Valor pago durante a transição: 50% do benefício a que a família teria direito.
  • Prazo para renda instável (trabalho formal ou informal): permanência de até 12 meses na regra.
  • Prazo para renda estável ou permanente (aposentadoria, pensão ou Benefício de Prestação Continuada, o BPC, pago a idosos): permanência de até 2 meses.
  • Regra anterior (válida para quem entrou na transição até junho de 2025): permanência de até 24 meses recebendo 50% do benefício, com teto de renda mensal de R$ 759,00 por pessoa (meio salário mínimo).
  • Prazo do Retorno Garantido: prioridade para reinclusão no programa por até 36 meses caso a família tenha o auxílio cancelado após o fim da transição e a renda volte a ficar em até R$ 218,00 por pessoa.

Geração de empregos no Caged e estudos sobre o Bolsa Família

Dados do mercado de trabalho e pesquisas econômicas indicam que o recebimento do repasse federal convive com a busca por vagas formais e informais no país. Segundo um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) elaborado com base nos registros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a Regra de Proteção alcançou 4,58 milhões de beneficiários do Bolsa Família desde janeiro de 2023. No mesmo período analisado pela instituição, os integrantes do programa social responderam por 85,18% do saldo líquido de 5,38 milhões de empregos com carteira assinada abertos em território nacional.

Levantamentos acadêmicos nacionais e internacionais — entre eles estudos de Oliveira e Soares, de 2012, e de Banerjee e coautores, de 2017 — também apontam que programas de transferência de renda não provocam acomodação generalizada dos trabalhadores. Na mesma linha, uma pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2013 não identificou evidências de que o benefício estimule a migração para a informalidade, embora o fato de o salário com carteira assinada ser diretamente visível ao governo mantenha a discussão técnica sobre o formato ideal de saída do programa.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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