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Um diagnóstico de HIV recebido no meio das gravações encerrou a carreira de Paulo Nigri aos 32 anos. O ator, nascido em 27 de março de 1963, no Rio de Janeiro, morreu em 27 de outubro de 1995 por complicações da AIDS. Antes disso, ele já havia ganhado espaço na televisão ao viver Cosme na novela Tieta, exibida pela Rede Globo em 1989.

O período em que Nigri adoeceu foi marcado pela falta de informação e por tratamentos limitados. Naquela década, o HIV parecia uma ameaça quase invencível. Nos palcos do Rio, ele havia passado por peças como Blue Jeans e Capitães de Areia, esta última inspirada na obra de Jorge Amado sobre meninos de rua em Salvador.

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O diagnóstico chegou quando a doença ainda carregava um peso enorme. Mesmo assim, o ator seguiu trabalhando enquanto a saúde permitiu. Sua trajetória ficou marcada pela resistência e pelas políticas públicas que, anos depois, mudariam o combate ao HIV.

Os primeiros passos no teatro carioca antes de Cosme

Antes da televisão, Nigri construiu uma base sólida no teatro carioca, um celeiro de talentos nas décadas de 1980 e 1990. Ele participou de O Alienista, de Machado de Assis, que satirizava o poder e a psiquiatria, e de Capitães de Areia, que tratava de questões sociais urgentes. Essas montagens ajudaram a prepará-lo para a teledramaturgia.

Em 1989, ele foi escalado para viver Cosme em Tieta, novela baseada no romance de Jorge Amado. O personagem, um seminarista ingênuo e amigo de Ricardo, interpretado por Cássio Gabus Mendes, contrastava com o ambiente de intrigas e sensualidade de Santana do Agreste, cidade fictícia que serviu de cenário à trama. A novela teve direção de Reynaldo Boury e texto de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.

Em papel coadjuvante, Nigri chamou atenção pela delicadeza e pela autenticidade do personagem. A novela abordou hipocrisia, poder e sexualidade, e alcançou índices altos de audiência. Foi reprisada em diversas ocasiões.

Quando o HIV entrou na vida do ator durante as gravações

Durante as gravações de Tieta, Nigri descobriu que era HIV positivo. Nos anos 1980, o vírus ainda era pouco compreendido pela ciência e pela sociedade. Sem tratamentos eficazes, o diagnóstico era visto como uma sentença de morte, e o preconceito tornava tudo mais difícil.

Muitos soropositivos enfrentavam rejeição na família, discriminação no trabalho e isolamento social. A desinformação predominava em grande parte do período.

No Brasil, a epidemia ganhou visibilidade em 1982, com os primeiros casos registrados. Entre 1980 e 1995, mais de 100 mil pessoas morreram em decorrência da doença, muitas delas jovens em plena idade produtiva. A falta de campanhas educativas no início e a demora no desenvolvimento de medicamentos ajudaram o vírus a se espalhar, sobretudo entre populações urbanas e grupos marginalizados.

Trabalho na TV até a saúde não permitir mais

Mesmo com o diagnóstico, Nigri gravou Tieta e, em 1991, participou da novela Salomé, onde interpretou Frederico. A determinação em continuar trabalhando, apesar da progressão da doença, marcou sua carreira curta.

Ele se afastou da televisão quando a saúde já não permitia mais. A morte, em 1995, deixou um vazio no meio artístico.

Marcos do combate à AIDS no país desde 1982

A resposta à epidemia passou por etapas que transformaram a doença de ameaça fatal em condição controlável. Estes são os marcos citados nesta reportagem:

  • 1982: primeiros casos de AIDS registrados no Brasil, inicialmente entre homens homossexuais nas grandes cidades.
  • 1996: início da distribuição gratuita do coquetel antirretroviral pelo SUS.
  • 2017: implantação da PrEP no SUS, ampliando as estratégias de prevenção.
  • 2023: 96% das pessoas vivendo com HIV no Brasil diagnosticadas, com 10.338 mortes por AIDS, o menor número desde 2013.

O índice de diagnóstico de 2023 superou a meta da ONU, de 95%. O país tem como objetivo eliminar a AIDS como problema de saúde pública até 2030.

Como a cultura ajudou a falar sobre HIV

Na música, Cazuza e Renato Russo, que também morreram em decorrência da doença, transformaram suas experiências em letras que emocionaram e conscientizaram o público. No teatro, peças como Blue Jeans, na qual Nigri atuou, trataram do tema com sensibilidade.

Tieta levou a discussão a milhões de lares brasileiros. A novela mostrou que o HIV não escolhia vítimas por classe ou orientação sexual. Personagens como Cosme reforçavam que a AIDS era questão de saúde pública, e não estigma moral.

Formas de prevenção ao HIV indicadas pela reportagem

Prevenir o HIV exige esforço coletivo e acesso a informação confiável. Quatro estratégias aparecem como centrais:

  • Uso de preservativos em todas as relações sexuais.
  • Realização de testes regulares para HIV, disponíveis gratuitamente em unidades de saúde do SUS.
  • Adoção da PrEP por pessoas em situação de risco, como parceiros de soropositivos ou trabalhadores do sexo.
  • Tratamento contínuo para quem vive com HIV, que reduz a carga viral a níveis indetectáveis e impede a transmissão.

Quem busca orientação ou testagem pode procurar uma unidade de saúde do SUS. A equipe local informa sobre o acesso à PrEP.

O que Paulo Nigri deixou na memória da televisão

Nigri ficou lembrado pela interpretação de Cosme, vista como exemplo de talento e carisma. Sua luta simboliza a resiliência de uma geração que enfrentou a epidemia com poucos recursos.

Fora das telas, ele tocava violão. A cidade cenográfica de Santana do Agreste, construída para Tieta, virou ponto turístico na época.

As reprises da novela mantêm viva a memória do ator. A morte dele, em 1995, também reforçou a urgência de avanços no combate à doença.

Casos novos e mortes por AIDS em 2023 no país

Em 2023, o Brasil registrou 38 mil novos casos de HIV, com maioria entre homens (27 mil) e na faixa etária de 25 a 29 anos. Apesar do aumento de 4,5% em relação a 2022, impulsionado pela ampliação da testagem via PrEP, as mortes por AIDS caíram para 10.338, o menor número em uma década.

A taxa de mortalidade ficou em 3,9 mortes por 100 mil habitantes, a menor em dez anos. Globalmente, cerca de 40 milhões de pessoas vivem com HIV, e mais de 20 milhões recebem tratamento financiado por programas como o PEPFAR, dos Estados Unidos.

No país, o SUS garante que 95% das pessoas tratadas atinjam a supressão viral, o que evita a transmissão.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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