Estudo com 46 pacientes avalia IA para exercícios de ombro em casa com câmeraPor Luís Pereira
6 min de leitura
![]() |
Pacientes com dor no ombro que treinaram em casa com um aplicativo ligado à câmera do celular tiveram alívio maior em parte do acompanhamento. Os dados vêm de um estudo espanhol publicado em outubro de 2026, que testou a ferramenta como complemento à fisioterapia tradicional. A pesquisa envolveu 46 adultos com dor relacionada ao manguito rotador.
Os participantes tinham idade média de 59 anos e foram divididos em dois grupos de 23 pessoas. Durante 12 semanas, um grupo fez apenas fisioterapia convencional. O outro seguiu o mesmo tratamento com o RehBody, que usa a câmera frontal de celular ou computador para analisar os movimentos e dar retorno em tempo real.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
O ensaio foi conduzido no serviço de reabilitação e fisioterapia do Hospital Universitario Virgen Macarena, em Sevilha, na Espanha. Trata-se de um ensaio clínico randomizado, em que os voluntários são sorteados para os grupos, controlado, de centro único e com avaliadores cegos. Os desfechos foram medidos no início e nas semanas 2, 4 e 12.
Dor e movimento do ombro melhoraram mais com o aplicativo
A queda da dor superou a diferença mínima clinicamente importante de 1,3 ponto na escala numérica de dor nas semanas 4 e 12. Na comparação entre grupos, o grupo com o aplicativo teve vantagem nas semanas 2 e 4, com diferenças médias de -0,7 e -1,01 ponto, respectivamente. Essa diferença mínima é a menor variação que o paciente percebe como melhora real.
A função do membro superior melhorou mais na semana 4, com diferença média de -7,3 pontos no questionário QuickDASH. Já as crenças de evitação ao medo, medidas pelo questionário FABQ, diminuíram mais no grupo experimental na semana 12, com diferença média de -7,6 pontos.
Depois da intervenção, menos participantes do grupo com o aplicativo precisaram de cuidados de saúde adicionais: 3 contra 10 no grupo controle. Os pesquisadores recrutaram 76 pacientes entre março e maio de 2025, e 46 atenderam aos critérios e aceitaram participar. O acompanhamento terminou em setembro de 2025, e a análise seguiu o princípio de intenção de tratar, que mantém cada participante no grupo para o qual foi sorteado.

Câmera do celular analisa a execução e registra a adesão
O RehBody identifica pontos de referência do corpo por meio da câmera. Ele orienta a execução dos exercícios, reconhece a forma e o momento das repetições e registra parâmetros como amplitude de movimento e adesão. Não há necessidade de sensores extras ou equipamentos especiais, basta o dispositivo que o paciente já possui.
Leia também: Indústria da moda acelera adoção de modelos criados por inteligência artificial para fotos de catálogo
A ferramenta foi criada para que profissionais de saúde prescrevam e monitorem programas de exercício terapêutico. Pelo painel, eles acompanham o desempenho e podem ajustar o plano. O estudo lembra que o exercício terapêutico é tratamento de primeira linha para a dor relacionada ao manguito rotador, mas a adesão a programas em casa costuma ser limitada sem supervisão.
Sociedade de cirurgia do ombro vê a IA como apoio ao médico
Eduardo Malavolta, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), comentou o potencial da tecnologia. “A inteligência artificial pode ser uma ferramenta interessante para ampliar o acompanhamento do paciente durante a reabilitação. Ao utilizar a câmera para analisar a execução dos exercícios e oferecer feedback em tempo real, a tecnologia pode contribuir para que o paciente tenha mais segurança ao realizar os movimentos em casa e facilitar o acompanhamento entre as consultas ou sessões de fisioterapia”, afirmou.
Malavolta também fez um alerta sobre o uso. “É importante evitar que o paciente use a inteligência artificial para tentar tratar sozinho uma situação que deveria ser avaliada por um profissional. A mensagem que precisamos passar é de equilíbrio entre inovação e segurança, entendendo a IA como uma ferramenta complementar, e não como substituta do médico ou do fisioterapeuta. O futuro não é IA no lugar do profissional, mas profissional utilizando IA para cuidar melhor do paciente.”
Dor no ombro exige avaliação individual antes do aplicativo
A dor no ombro pode ter causas diferentes, e um sintoma isolado não define o diagnóstico. A avaliação individual, com histórico, exame físico e, quando indicado, exames de imagem, continua necessária para orientar o tratamento.
O aplicativo não deve ser usado pelo paciente para diagnosticar a própria condição nem para escolher exercícios sem orientação. Ferramentas digitais podem trazer informações incompletas ou desatualizadas, por isso a escolha dos exercícios e o acompanhamento da evolução devem ficar com profissionais de saúde.
Dois dos autores do estudo, Alejandro Suero-Pineda e Olga Villar-Alises, têm vínculo com a empresa que desenvolveu o RehBody. Os demais autores declararam ausência de conflito de interesse. O ensaio foi registrado na Open Science Framework e aprovado pelo comitê de ética do hospital.
Continue lendo: Seguradoras excluem riscos de inteligência artificial das apólices
Por que a dor no manguito rotador é tão comum na atenção primária
A dor relacionada ao manguito rotador está entre as queixas musculoesqueléticas mais comuns na atenção primária. Ela atinge estruturas que estabilizam e movimentam o ombro e pode limitar atividades do dia a dia. Diretrizes clínicas indicam o exercício terapêutico estruturado como base do tratamento conservador.
Fazer exercícios em casa costuma ser difícil pela falta de retorno imediato, pela dificuldade de progredir e pela ausência de monitoramento objetivo. Ferramentas de telereabilitação e visão computacional buscam reduzir essas barreiras ao oferecer orientação em tempo real e dados de desempenho ao profissional.
O estudo indica que o aplicativo somado ao tratamento convencional pode melhorar a dor em alguns momentos, favorecer a função do membro superior e reduzir a necessidade de cuidados adicionais após 12 semanas. Os resultados se referem a pacientes com dor relacionada ao manguito rotador acompanhados em um centro hospitalar específico.
A publicação saiu na revista Musculoskeletal Science and Practice, volume 85, artigo 103626. Os autores principais são Olga Villar-Alises, Celia Cónstenla Cortés, Manuel Rodríguez-Piñero Durán, Pablo Rodríguez Sánchez-Laulhé, Javier Martinez-Calderon e Alejandro Suero-Pineda.
A pesquisa não avaliou o uso isolado do aplicativo. Todos os participantes receberam o tratamento convencional, e o grupo experimental teve o RehBody como acréscimo. Pacientes com outras causas de dor no ombro, como artrose avançada ou instabilidade, não foram o foco do estudo, e a avaliação individual segue necessária para definir a indicação de exercício.















