Meta lança ‘notas da comunidade’ nos EUA para substituir checagem de fatos

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Meta - Foto: Algi Febri Sugita / Shutterstock.com

A partir da próxima terça-feira, 18 de março, a Meta dará início a um teste nos Estados Unidos que promete mudar a forma como conteúdos são corrigidos em suas plataformas. Facebook, Instagram e Threads começarão a experimentar as chamadas “notas da comunidade”, um recurso que substituirá o sistema tradicional de verificação de fatos por terceiros. Anunciada em janeiro por Mark Zuckerberg, CEO da empresa, a novidade reflete uma guinada na política de moderação de conteúdo e já desperta debates entre especialistas e usuários sobre seus impactos na disseminação de informações.

A decisão de abandonar a checagem profissional por um modelo crowdsourced, inspirado no sistema Community Notes do X, de Elon Musk, foi detalhada em um comunicado da Meta divulgado nesta quinta-feira, 13 de março. Segundo a empresa, cerca de 200 mil pessoas já se inscreveram para participar da fase inicial de testes, que será restrita ao mercado americano. A mudança ocorre em um momento de reaproximação de Zuckerberg com o governo de Donald Trump, que assume a presidência dos EUA em breve, e levanta questões sobre os rumos da moderação online.

Embora a Meta prometa mais liberdade de expressão, críticos alertam para os riscos de desinformação em temas sensíveis, como saúde e política. O teste beta, que terá rollout gradual, marca o fim de uma era iniciada em 2016, quando a empresa lançou seu programa de verificação de fatos em resposta a críticas sobre fake news nas eleições americanas daquele ano.

Por que a Meta está mudando sua abordagem?

A transição para as “notas da comunidade” foi justificada por Zuckerberg como uma resposta às falhas do modelo anterior. Em um vídeo de cinco minutos publicado no Instagram em janeiro, ele afirmou que os verificadores terceirizados eram “politicamente tendenciosos” e que o sistema, originalmente pensado para promover inclusão, acabou sendo usado para “calar opiniões e excluir pessoas com ideias diferentes”. Para o executivo, a mudança reflete uma volta às raízes da empresa, priorizando a liberdade de expressão.

Nos Estados Unidos, onde o teste começará, a Meta planeja implementar o recurso de forma cautelosa. As notas, escritas e avaliadas por usuários, não serão exibidas publicamente de imediato. A empresa informou que vai disponibilizá-las gradualmente a um grupo seleto, fora da lista de espera inicial, para ajustar o sistema antes de torná-lo visível a todos. Isso significa que, por enquanto, os rótulos de verificação de terceiros continuarão aparecendo, mas serão descontinuados assim que o novo modelo estiver consolidado.

A inspiração no X não é coincidência. Desde que Elon Musk assumiu a plataforma em 2022 e introduziu o Community Notes, o sistema ganhou elogios de defensores da liberdade de expressão, mas também críticas por sua inconsistência no combate à desinformação. Zuckerberg, que já expressou admiração pelo modelo de Musk, vê nas “notas da comunidade” uma forma de reduzir o que chama de “erros e censura” na moderação.

O que são as ‘notas da comunidade’ e como elas funcionarão?

Diferente do sistema anterior, em que organizações jornalísticas independentes analisavam conteúdos, as “notas da comunidade” colocam a responsabilidade nas mãos dos usuários. Qualquer pessoa poderá se candidatar para escrever e avaliar notas que adicionem contexto ou corrijam informações em publicações no Facebook, Instagram e Threads. A Meta destaca que as notas só serão publicadas após consenso entre colaboradores de “perspectivas diversas”, um mecanismo semelhante ao adotado pelo X.

Na prática, isso significa que uma postagem potencialmente enganosa poderá receber uma nota visível abaixo dela, informando os usuários sobre sua veracidade ou oferecendo informações adicionais. A empresa divulgou exemplos visuais do recurso no Instagram, mostrando como as notas aparecerão integradas ao feed. No entanto, ao contrário do modelo anterior, posts com notas não terão sua visibilidade reduzida automaticamente, uma mudança que a Meta justifica como parte de sua nova política de “menos intervenção”.

Cerca de 200 mil inscritos já demonstraram interesse em participar do teste nos EUA, e as inscrições seguem abertas. A Meta planeja expandir o recurso para todos os americanos assim que os ajustes forem concluídos, mas não há previsão para lançamento global, que dependerá de avaliações regulatórias em outros países.

Um marco na moderação de conteúdo

A decisão da Meta de encerrar o programa de checagem de fatos por terceiros marca o fim de uma iniciativa que começou há quase uma década. Lançado em dezembro de 2016, o sistema foi criado para conter a onda de desinformação que marcou as eleições presidenciais americanas vencidas por Donald Trump. Na época, o Facebook enfrentou duras críticas por permitir a circulação de notícias falsas, muitas delas impulsionadas por campanhas estrangeiras.

Desde então, a empresa firmou parcerias com dezenas de organizações de verificação em todo o mundo, incluindo no Brasil, onde agências como Aos Fatos e Lupa colaboraram na identificação de conteúdos falsos. Nos EUA, o programa envolveu nomes como PolitiFact e FactCheck.org. Essas parcerias, no entanto, foram surpreendidas pelo anúncio de janeiro, com algumas expressando frustração pela falta de diálogo prévio, conforme reportado pela agência Reuters.

Agora, com o teste das “notas da comunidade” começando em 18 de março, a Meta redefine sua estratégia. A empresa também anunciou que os verificadores terceirizados poderão se tornar colaboradores das notas, mas sem o status especial que tinham antes. Esse movimento é visto como um aceno ao governo Trump, que historicamente criticou a moderação das big techs como censura a vozes conservadoras.

Riscos e críticas ao novo modelo

Especialistas consultados pelo g1 apontam que a mudança pode abrir brechas para a proliferação de conteúdos problemáticos. Yasmin Curzi, pesquisadora da Universidade de Virgínia, alerta que a falta de checagem profissional pode permitir a circulação de desinformação sobre vacinas, eleições e até discursos de ódio, como racismo e homotransfobia, desde que não sejam “explicitamente ilegais”. Para ela, o modelo crowdsourced pode não ter a mesma eficácia em identificar nuances ou informações falsas complexas.

Helena Martins, professora da Universidade Federal do Ceará e integrante da Coalizão Direitos na Rede, reforça essa preocupação. Ela destaca que apenas violações graves, como pornografia infantil ou terrorismo, continuarão sendo alvo de ações proativas da Meta. Outros temas sensíveis, como teorias conspiratórias sobre Covid-19, dependerão da iniciativa dos usuários para serem corrigidos, o que pode sobrecarregar a comunidade e deixar lacunas na moderação.

No X, onde o modelo já funciona há anos, estudos apontam limitações. Uma análise do Centre for Countering Digital Hate mostrou que, entre janeiro e outubro de 2024, 74% das notas corretivas em posts políticos enganosos não foram exibidas, enquanto as publicações originais acumularam bilhões de visualizações. Isso sugere que o sistema da Meta pode enfrentar desafios semelhantes, especialmente em plataformas com bilhões de usuários.

Cronograma do teste nos EUA

O rollout das “notas da comunidade” seguirá um calendário inicial nos Estados Unidos:

  • 18 de março: Início do teste beta com participantes inscritos e um grupo aleatório.
  • Primeiras semanas: Ajustes no sistema de redação e classificação das notas.
  • Fase pública: Liberação gradual para todos os usuários americanos, sem data confirmada, dependendo dos resultados do teste.
  • Transição: Fim dos rótulos de verificação de terceiros assim que as notas estiverem consolidadas.

A Meta enfatiza que o processo será monitorado de perto para garantir que o recurso funcione “de maneira eficaz” antes de qualquer expansão. Fora dos EUA, como na União Europeia e no Brasil, o programa de checagem atual será mantido até que a empresa avalie questões regulatórias locais.

Impactos esperados nas plataformas

Com o fim da checagem tradicional, a Meta também planeja relaxar restrições em temas polêmicos. Zuckerberg anunciou em janeiro que assuntos como imigração e identidade de gênero, antes limitados, voltarão a circular livremente, desde que não violem regras contra conteúdo ilegal. Além disso, conteúdos políticos, que haviam sido reduzidos nos feeds nos últimos anos a pedido dos usuários, serão reintegrados de forma “personalizada”.

Essa mudança pode alterar a experiência em plataformas como o Instagram, onde o foco em fotos e vídeos leves vinha predominando. No Facebook, a volta de debates políticos promete reacender discussões acaloradas, enquanto o Threads, concorrente direto do X, pode se tornar um campo de teste para o novo modelo. A empresa garante que os algoritmos continuarão priorizando ambientes “amigáveis e positivos”, mas sem interferir tanto no que os usuários veem.

A decisão coincide com uma reestruturação interna. A equipe de confiança e segurança, antes baseada na Califórnia, será transferida para o Texas, um estado visto como mais alinhado à visão de liberdade de expressão defendida por Zuckerberg e pelo governo Trump. Essa movimentação reforça a percepção de que a Meta busca se adaptar ao clima político americano atual.

O que os usuários podem esperar?

Para os cerca de 3 bilhões de usuários das plataformas da Meta, o teste nos EUA é um prenúncio de mudanças maiores. Quem usa o Facebook, Instagram ou Threads poderá, em breve, contribuir com notas ou ver correções feitas pela comunidade em posts duvidosos. A empresa aposta que o modelo será “menos tendencioso” e mais escalável que a checagem profissional, mas admite que pode “pegar menos coisas ruins”, como disse Zuckerberg.

Algumas funcionalidades práticas do novo sistema incluem:

  • Possibilidade de qualquer usuário se candidatar como colaborador.
  • Notas visíveis apenas após validação por múltiplas perspectivas.
  • Foco em adicionar contexto, sem punir diretamente os posts corrigidos.

Nos EUA, onde a polarização política é alta, o recurso pode amplificar tanto vozes diversas quanto narrativas enganosas, dependendo de como os usuários o utilizarem. A experiência no X mostra que notas bem-sucedidas exigem engajamento ativo e fontes confiáveis, algo que a Meta terá de incentivar em larga escala.

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