Multidões se reuniram na Basílica de São Pedro para a última missa dos Novendiais, um ritual de nove dias que marcou o luto oficial pelo papa Francisco. A cerimônia, realizada no domingo, 4 de maio, celebrou a vida do pontífice argentino, falecido aos 88 anos. O evento, carregado de simbolismo, encerrou um período de homenagens e abriu caminho para o conclave que definirá o próximo líder da Igreja Católica. Milhares de fiéis, autoridades e cardeais participaram, refletindo a influência global de Francisco.
A missa, presidida pelo cardeal francês Dominique Mamberti, destacou a trajetória de Jorge Mario Bergoglio, conhecido por sua simplicidade e dedicação pastoral. O Vaticano, agora, volta suas atenções para a Capela Sistina, onde o conclave começará na quarta-feira, 7 de maio. A eleição do novo papa promete ser um marco, com um colégio cardinalício mais diverso do que nunca. A expectativa cresce em Roma e no mundo, enquanto a Igreja se prepara para um novo capítulo.
O impacto de Francisco, primeiro papa jesuíta e sul-americano, foi lembrado durante a cerimônia. Seus esforços para incluir periferias, promover a ecologia e acolher minorias moldaram seu pontificado. A missa final dos Novendiais reforçou esses legados, com fiéis emocionados diante de sua memória. A seguir, alguns aspectos destacados no evento:
- Homenagem à espiritualidade de Francisco, marcada pela oração e disciplina inaciana.
- Presença de cardeais de 71 países, sinalizando a diversidade da Igreja.
- Preparação para o conclave, com foco na escolha de um líder que continue suas reformas.
O luto de nove dias, conhecido como Novendiais, seguiu tradições seculares, com missas diárias na Basílica de São Pedro. Cada celebração reuniu fiéis e clérigos, reforçando o papel central do Vaticano na vida católica global.
Homenagem à vida pastoral
A missa do nono dia, oficiada por Dominique Mamberti, protodiácono do Colégio Cardinalício, trouxe à tona a essência do pontificado de Francisco. O cardeal, que anunciará o “Habemus Papam” após a eleição do novo papa, enfatizou a capacidade de adoração do jesuíta argentino. Ele destacou como Francisco fundamentava suas ações em longos momentos de oração, uma prática enraizada na espiritualidade inaciana. A cerimônia, realizada na Basílica de São Pedro, atraiu milhares de fiéis, que lotaram a praça em um clima de reverência.
Mamberti lembrou as 126 visitas de Francisco ao ícone da Virgem Maria, “Salus Populi Romani”, na Basílica de Santa Maria Maggiore. Essas peregrinações, segundo o cardeal, simbolizavam a devoção do papa à Mãe de Deus, um pilar de sua vida espiritual. O túmulo de Francisco, localizado próximo a esse ícone, foi mencionado como um local de descanso que reflete sua humildade. A escolha de Santa Maria Maggiore como última morada, longe dos palácios vaticanos, reforça o desejo do papa de estar perto do povo.
O sermão de Mamberti também abordou a intensa agenda pastoral de Francisco, que incluiu viagens a 61 países e encontros com líderes de diversas religiões. Sua habilidade de dialogar com muçulmanos, judeus e líderes seculares foi destacada como um marco de seu pontificado. A missa, televisionada para milhões, reforçou a imagem de um papa que viveu para servir, mantendo a simplicidade mesmo em meio à grandiosidade do Vaticano.
Simplicidade que marcou o pontificado
Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio em Buenos Aires, em 1936, transformou a imagem do papado com gestos de humildade. Desde sua eleição, em 2013, ele rejeitou luxos tradicionais, como o Palácio Apostólico, optando por viver na Casa Santa Marta. Essa decisão, incomum para um papa, refletiu seu compromisso com uma Igreja mais próxima dos fiéis. Durante o luto, fiéis de todo o mundo recordaram esses gestos, que inspiraram milhões.
Na Basílica de São Pedro, o caixão de Francisco, feito de madeira simples revestida de zinco, simbolizou sua recusa à ostentação. Diferentemente de antecessores, ele aboliu a tradição de três caixões interligados, de cipreste, chumbo e carvalho. O velório, aberto ao público entre 23 e 25 de abril, atraiu mais de 400 mil pessoas, incluindo peregrinos de Portugal, Brasil e Filipinas. Muitos enfrentaram horas de fila para prestar homenagens, emocionados pela memória de um líder que priorizou os pobres.
A escolha do túmulo em Santa Maria Maggiore, ao lado do ícone “Salus Populi Romani”, foi outro gesto marcante. A sepultura, com apenas o nome “Franciscvs” gravado e uma rosa branca, reflete a simplicidade que definiu sua vida. Peregrinos continuam visitando o local, onde a ausência de ornamentos contrasta com a grandiosidade da basílica.
Preparativos para o conclave
O conclave, marcado para começar em 7 de maio, reunirá 135 cardeais eleitores de 71 países, o grupo mais diverso da história. A eleição ocorrerá na Capela Sistina, sob os afrescos de Michelangelo, com portas fechadas até que um candidato alcance dois terços dos votos. O processo, envolto em segredo, é um dos rituais mais antigos da Igreja, mas desta vez carrega expectativas de renovação. A fumaça branca, sinal da escolha do novo papa, é aguardada com ansiedade por fiéis em todo o mundo.
Os cardeais, todos com menos de 80 anos, representam uma Igreja globalizada. Pela primeira vez, apenas 39% são europeus, enquanto a Ásia contribui com 23 eleitores e a África com 18. Essa diversidade reflete as nomeações de Francisco, que buscou descentralizar o poder da Cúria Romana. Entre os possíveis candidatos, nomes como o italiano Matteo Zuppi, o filipino Luis Antonio Tagle e o guineense Robert Sarah aparecem em especulações.
O conclave também será influenciado por temas sensíveis, como o papel das mulheres na Igreja e o futuro do celibato. Durante seu pontificado, Francisco abriu debates sobre esses tópicos, embora sem mudanças definitivas. Os cardeais agora enfrentarão a tarefa de escolher um líder capaz de manter a unidade em uma Igreja dividida entre progressistas e conservadores.
- Isolamento dos cardeais na Casa Santa Marta, sem acesso a celulares ou internet.
- Uso de cartuchos químicos para produzir fumaça branca ou preta.
- Voto secreto, com cédulas queimadas após cada rodada.
- Máximo de 33 votações antes de ajustes no processo, caso necessário.
Legado de inclusão
Francisco deixou marcas profundas na Igreja, especialmente em sua defesa de migrantes, pobres e minorias. Suas encíclicas, como “Laudato Si’”, sobre a proteção ambiental, e “Fratelli Tutti”, sobre a fraternidade universal, influenciaram debates globais. Ele também promoveu a inclusão de mulheres e pessoas LGBTQIA+, embora enfrentasse resistências internas. Durante os Novendiais, fiéis destacaram essas iniciativas como um chamado à continuidade.
Em Roma, peregrinos de diferentes continentes compartilharam histórias de como Francisco os inspirou. Um grupo de jovens mexicanos, presente na missa final, carregava cartazes com frases de “Laudato Si’”. Uma freira italiana, que conheceu o papa em 2019, descreveu sua empatia como um exemplo para futuras gerações. Esses testemunhos reforçam a relevância de Francisco em um mundo marcado por desigualdades.
As reformas de Francisco na Cúria Romana, visando maior transparência, também foram lembradas. Ele enfrentou desafios financeiros, com déficits no orçamento da Santa Sé, mas implementou medidas para modernizar a gestão. Seus esforços para combater abusos sexuais na Igreja, embora criticados por alguns, resultaram em novas normas de proteção.
Últimos dias de Francisco
Antes de sua morte, em 21 de abril, Francisco viveu dias intensos, apesar de sua saúde fragilizada. Ele enfrentava sequelas de uma pneumonia dupla, que o manteve internado por 37 dias até março. Contra orientações médicas, participou de celebrações da Semana Santa, incluindo a missa de Páscoa, em 20 de abril. Na ocasião, saudou fiéis da varanda da Basílica de São Pedro e fez um passeio de Papamóvel, abençoando crianças.
No mesmo dia, Francisco teve um encontro privado com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, para trocar votos pascais. Sua última mensagem pública, lida por um monsenhor, pediu paz e desarmamento, condenando a violência contra civis em conflitos globais. Essas ações, mesmo em meio à fragilidade, refletiram sua determinação em cumprir sua missão até o fim.
A morte de Francisco, causada por um AVC e insuficiência cardíaca, pegou o mundo de surpresa. Ele foi encontrado inconsciente na Casa Santa Marta, onde vivia. A notícia, anunciada pelo Vaticano na manhã de 21 de abril, levou milhares às ruas de Roma, em vigílias espontâneas.
Reações globais
Líderes mundiais e religiosos prestaram homenagens durante o luto. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, decretou sete dias de luto oficial, descrevendo Francisco como uma voz de tolerância. Ele e a primeira-dama, Rosângela da Silva, estiveram no funeral, em 26 de abril, ao lado de outros chefes de Estado. A cerimônia, na Praça de São Pedro, reuniu cerca de 400 mil pessoas, incluindo representantes de 120 países.
No México, igrejas realizaram missas especiais, enquanto na África, cardeais como Fridolin Ambongo, de Kinshasa, destacaram o apoio de Francisco às periferias. Na Ásia, o cardeal Charles Bo, de Mianmar, elogiou sua tentativa de reaproximação com a China. Essas reações mostram o alcance global do pontificado de Francisco.
Organizações ambientais, como o Greenpeace, reconheceram o impacto de “Laudato Si’” na luta contra as mudanças climáticas. Ativistas de direitos humanos também celebraram sua defesa de migrantes e refugiados, citando suas visitas a campos na Grécia e no México.
Funeral e despedida
O funeral de Francisco, em 26 de abril, foi um dos maiores eventos da história recente do Vaticano. Presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re, a Missa das Exéquias ocorreu no átrio da Basílica de São Pedro. Milhares de fiéis enfrentaram chuvas para acompanhar a cerimônia, que incluiu ritos como a Última Commendatio e a Valedictio. O caixão foi levado à Basílica de Santa Maria Maggiore, onde Francisco foi sepultado.
A segurança mobilizou 4 mil agentes, incluindo 2 mil Carabinieri, para proteger a Praça de São Pedro. As ruas de Roma foram fechadas, e o evento foi transmitido para bilhões de pessoas. Líderes como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o rei Felipe VI, da Espanha, estiveram presentes, reforçando a relevância global do papa.
Durante o velório, fiéis fizeram filas de até oito horas para se despedir. Muitos usaram celulares para gravar o momento, enquanto outros preferiram orações silenciosas. Uma freira francesa, Geneviève Jeanningros, quebrou o protocolo ao se aproximar do caixão, em um gesto que emocionou os presentes.
Diversidade no colégio cardinalício
O colégio de cardeais que escolherá o próximo papa é o mais diverso da história. Dos 135 eleitores, 53 são europeus, 23 asiáticos, 18 africanos, 11 norte-americanos e 20 latino-americanos. Essa composição reflete as nomeações de Francisco, que priorizou regiões antes sub-representadas. Países como Tonga, Haiti e Mianmar têm cardeais eleitores pela primeira vez.
Entre os cardeais, figuras como o húngaro Péter Erdő, defensor de tradições litúrgicas, e o italiano Pierbattista Pizzaballa, conhecido por promover o diálogo inter-religioso, estão em destaque. A presença de cardeais africanos, como Robert Sarah, da Guiné, levanta a possibilidade de um papa negro, algo inédito em mais de 1.500 anos.
A diversidade também traz desafios, com visões contrastantes sobre o futuro da Igreja. Alguns cardeais defendem a continuidade das reformas de Francisco, enquanto outros buscam um retorno a posturas mais conservadoras.
- 71 países representados, um recorde histórico.
- Apenas 39% dos eleitores são europeus, contra 52% em 2013.
- Ásia e África juntas somam 41 cardeais, quase um terço do total.
- Cardeais nomeados por Francisco representam 67% dos eleitores.
Temas que moldarão a eleição
A escolha do próximo papa será influenciada por questões como a inclusão de mulheres, o celibato e a descentralização da Igreja. Francisco abriu sínodos para discutir esses temas, mas as decisões ficaram para seu sucessor. O próximo papa também enfrentará desafios financeiros, com o déficit da Santa Sé estimado em 50 milhões de euros anuais.
A proteção ambiental, um dos pilares de Francisco, deve permanecer em pauta. Cardeais como Anders Arborelius, da Suécia, defendem a continuidade de “Laudato Si’”. Já o combate aos abusos sexuais exige avanços, com pressão por maior transparência. Esses temas dividem os cardeais, tornando o conclave um momento crucial.
A eleição também ocorre em um contexto global tenso, com conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia. O próximo papa precisará manter a relevância da Igreja em um mundo polarizado, seguindo o exemplo de Francisco, que mediou diálogos entre líderes opostos.
Devoção popular
Durante os Novendiais, fiéis de todo o mundo viajaram a Roma para homenagear Francisco. Um grupo de peregrinos portugueses, liderado por Lia Pimenta, de Alcobaça, participou de todas as missas, descrevendo a experiência como um “adeus coletivo”. Na África, igrejas em Nairóbi e Kinshasa realizaram vigílias, enquanto na Argentina, missas em Buenos Aires atraíram milhares.
Em Santa Maria Maggiore, a sepultura de Francisco tornou-se um ponto de peregrinação. Diariamente, centenas de pessoas deixam flores e mensagens no local. A rosa branca sobre o túmulo, renovada a cada manhã, tornou-se um símbolo de sua simplicidade.
Jovens católicos, especialmente das Américas, organizaram campanhas nas redes sociais para celebrar o legado de Francisco. Hashtags como #PapaFrancisco e #LaudatoSi ganharam milhões de visualizações, mostrando o impacto do papa entre novas gerações.
Rituais do conclave
O conclave seguirá rituais precisos, começando com a missa “Pro Eligendo Papa” na manhã de 7 de maio. Após a celebração, os cardeais se dirigirão à Capela Sistina, onde prestarão juramento de sigilo. As votações, realizadas duas vezes por dia, continuarão até que um candidato obtenha 90 votos. A fumaça preta indicará rodadas sem decisão, enquanto a branca anunciará o novo papa.
A segurança do conclave inclui varreduras contra dispositivos eletrônicos, garantindo total isolamento. Os cardeais ficarão hospedados na Casa Santa Marta, onde Francisco viveu. O processo, embora tradicional, foi modernizado por Francisco, que reduziu formalidades para agilizar a eleição.
Cada cédula de votação contém a frase “Eligo in Summum Pontificem” (Eu escolho como Sumo Pontífice), seguida do nome do candidato. Após a contagem, as cédulas são queimadas com produtos químicos para produzir a fumaça característica.
- Juramento de sigilo, feito em latim, é obrigatório para todos os presentes.
- Até quatro votações diárias, duas pela manhã e duas à tarde.
- Fumaça branca sinaliza a eleição, geralmente após 3 a 5 dias.
- O novo papa escolhe seu nome antes de aparecer na varanda da Basílica.

