Na manhã desta terça-feira, 6 de maio, o Vaticano foi palco de um momento crucial para a Igreja Católica. Os 173 cardeais presentes, dos quais 130 com direito a voto, participaram da 12ª e última Congregação Geral antes do início do conclave. A reunião, realizada a portas fechadas, marcou o fim das discussões preparatórias para a eleição do novo papa, que sucederá Francisco, falecido em 21 de abril de 2025. O evento, carregado de simbolismo, ocorreu sob forte expectativa global, com fiéis e jornalistas atentos aos movimentos na Praça São Pedro.
A Capela Sistina, local das votações, já está pronta, com bloqueadores de sinal instalados para garantir o isolamento total dos cardeais. A chaminé, que emitirá a fumaça branca ou preta, foi montada, e as cortinas de veludo vermelho na varanda da Basílica de São Pedro aguardam a primeira aparição do novo pontífice. Esse conclave, com 133 eleitores de 70 países, é o mais diversificado da história, refletindo a visão global de Francisco.
Os debates desta terça-feira abordaram temas centrais para o futuro da Igreja. Entre eles, destacaram-se:
- A continuidade das reformas de Francisco, como a sinodalidade e a transparência econômica.
- O combate aos abusos sexuais e a crise climática, inspirada na encíclica Laudato Si’.
- A necessidade de um papa que atue como “construtor de pontes” em um mundo polarizado.
- O fortalecimento do diálogo ecumênico e inter-religioso.
A missa Pro Eligendo Romano Pontifice, marcada para quarta-feira, 7 de maio, às 10h no horário local, abrirá oficialmente o processo. À tarde, os cardeais seguirão para a Capela Sistina, onde a primeira votação está prevista para o início da tarde.
Perfil do novo pontífice em debate
Os cardeais dedicaram parte da última reunião a discutir as qualidades esperadas do próximo papa. A ênfase recaiu sobre um líder capaz de manter a abertura promovida por Francisco, mas com habilidades administrativas para gerir a complexa estrutura da Santa Sé. A comunhão, descrita como a “vocação essencial” do pontífice, foi um tema central, segundo o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni.
A diversidade dos eleitores, com representantes de regiões como Mongólia, Laos e Papua-Nova Guiné, sugere que o novo papa pode vir de uma área periférica, alinhada à visão de Francisco. Cerca de 80% dos cardeais eleitores foram nomeados pelo papa argentino, o que reforça a expectativa de continuidade. No entanto, vozes conservadoras, como a do cardeal americano Raymond Burke, defendem uma abordagem mais tradicionalista.
A duração média dos últimos dez conclaves, de 3,2 dias, alimenta a esperança de uma eleição rápida. Em 2005, Bento XVI foi escolhido em dois dias, e Francisco, em 2013, em cinco votações. Para alcançar a maioria de dois terços, um candidato precisará de pelo menos 89 votos, um desafio em um colégio tão diverso.
Logística reforçada para isolamento total
A organização do conclave envolveu meses de preparativos. A Casa Santa Marta, residência dos cardeais durante o processo, foi adaptada para acomodar os 133 eleitores, apesar de limitações de espaço. Um segundo prédio, conhecido como Santa Marta Antiga, foi incluído para suprir a demanda. Cerca de cem funcionários, incluindo cozinheiras, médicos e ascensoristas, prestaram juramento de silêncio para garantir a confidencialidade.
Os cardeais ficarão sem acesso a celulares, internet ou qualquer meio de comunicação externa. A segurança foi reforçada com detectores de metais, sistemas antidrones e postos de controle na Praça São Pedro. A primeira votação, na tarde de quarta-feira, será um teste inicial, com votos muitas vezes simbólicos, antes de negociações mais intensas nos dias seguintes.
- Medidas de segurança implementadas:
- Bloqueadores de sinal telefônico instalados na Capela Sistina.
- Sistemas antidrones para proteger o espaço aéreo do Vaticano.
- Postos de controle na Praça São Pedro e arredores.
- Juramento de sigilo para todos os funcionários envolvidos.
Expectativas globais e atenção à chaminé
Milhares de fiéis e turistas já lotam a Praça São Pedro, aguardando sinais do conclave. A chaminé da Capela Sistina, que emitirá fumaça preta em caso de votação inconclusiva ou branca para anunciar o novo papa, é o foco das atenções. A primeira fumaça está prevista para o fim da tarde de quarta-feira, por volta das 14h no horário de Brasília. Nos dias seguintes, duas fumaças diárias serão emitidas, após as votações da manhã e da tarde.
A eleição ocorre em um momento de tensões globais, com guerras e crises migratórias dominando as discussões dos cardeais. A escolha do novo papa será observada não apenas pelos 1,4 bilhão de católicos, mas também por líderes mundiais, que veem no pontífice um mediador em conflitos internacionais.
Cardeais brasileiros no centro do processo
Sete cardeais brasileiros participarão do conclave, representando o terceiro maior contingente, atrás de Itália (17) e Estados Unidos (10). Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, é um dos nomes mais influentes, tendo sido cotado como papável em 2013. Dom Paulo Cezar Costa, de Brasília, destacou a defesa da paz por Francisco como um legado a ser mantido.
Outros brasileiros incluem Dom Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, e Dom Leonardo Steiner, de Manaus, o primeiro cardeal da Amazônia. Dom João Braz de Aviz, Dom Jaime Spengler e Dom Sérgio da Rocha completam a lista. A presença brasileira reflete a relevância da América Latina, que abriga 46 dos 133 eleitores, um salto em relação aos 13 de 2005.
- Cardeais brasileiros no conclave:
- Dom Odilo Scherer, 75 anos, arcebispo de São Paulo.
- Dom Paulo Cezar Costa, 57 anos, arcebispo de Brasília.
- Dom Orani Tempesta, 74 anos, arcebispo do Rio de Janeiro.
- Dom Leonardo Steiner, 74 anos, arcebispo de Manaus.
Nomes cotados para o papado
Embora nenhum candidato seja oficialmente declarado, alguns cardeais surgem como favoritos. O italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, é apontado como um moderado com forte apoio, especialmente após a desistência de Angelo Becciu, condenado por fraude. O filipino Luis Antonio Tagle, conhecido como o “Francisco asiático”, também ganha destaque por sua proximidade com o público.
Outros nomes incluem o maltês Mario Grech, defensor da sinodalidade, e o ganês Peter Turkson, que poderia se tornar o primeiro papa africano. O arcebispo de Marselha, Jean-Marc Aveline, e o italiano Matteo Zuppi também aparecem em listas de apostas. A escolha, porém, pode surpreender, como ocorreu com Jorge Mario Bergoglio em 2013.
A ausência de dois cardeais conservadores, o espanhol Antonio Cañizares Llovera e o bósnio Vinko Puljic, por motivos de saúde, enfraqueceu o bloco tradicionalista. Isso pode favorecer candidatos alinhados à visão de Francisco, mas o equilíbrio entre moderados e conservadores ainda é incerto.
Preparativos finais na Capela Sistina
A Capela Sistina, fechada ao público desde 28 de abril, foi cuidadosamente preparada para o conclave. Os afrescos de Michelangelo, incluindo A Criação de Adão, servirão de pano de fundo para as votações. Operários instalaram cadeiras, mesas e a chaminé, enquanto o chão foi coberto com tapetes para proteger o mosaico histórico.
A primeira votação, marcada para a tarde de quarta-feira, será seguida pela queima das cédulas, com um produto químico que determina a cor da fumaça. Nos dias seguintes, até quatro votações diárias ocorrerão, duas pela manhã e duas à tarde. Se após três dias não houver consenso, os cardeais farão uma pausa de 24 horas para orações.
- Etapas do processo de votação:
- Missa Pro Eligendo Romano Pontifice às 10h de quarta-feira.
- Primeira votação na tarde de 7 de maio, com fumaça prevista para as 14h (horário de Brasília).
- Até quatro votações diárias a partir do segundo dia.
- Pausa de oração após três dias sem consenso.
Influência de Francisco no colégio cardinalício
A nomeação de 108 dos 133 cardeais eleitores por Francisco moldou o perfil do conclave. Ele priorizou regiões periféricas, como a África e a Ásia, onde o catolicismo enfrenta desafios. Países como Mali e Papua-Nova Guiné, estreantes no conclave, simbolizam essa abertura. A Europa, com 49% dos eleitores, ainda domina, mas a presença de 46 cardeais latino-americanos reforça a influência do hemisfério Sul.
A visão de Francisco, centrada na sinodalidade e no diálogo com o mundo moderno, permeou as discussões pré-conclave. Cardeais como o colombiano Jorge Jiménez Carvajal destacaram a “atmosfera pacífica” das reuniões, sugerindo um desejo de unidade. No entanto, tensões internas, como as críticas de conservadores às reformas de Francisco, ainda persistem.
Reuniões pré-conclave e temas globais
As 12 Congregações Gerais, iniciadas após a morte de Francisco, abordaram questões administrativas e desafios globais. Na última reunião, os cardeais discutiram a crise climática, a evangelização e a data da Páscoa, em referência ao Concílio de Niceia. A guerra e a migração também estiveram na pauta, com um apelo por um cessar-fogo global.
A presença de 173 cardeais, incluindo 43 não eleitores, demonstra a amplitude das discussões. As intervenções, 26 no total, variaram entre reflexões teológicas e preocupações práticas, como a transparência econômica. O Anel do Pescador de Francisco foi invalidado, marcando o fim oficial de seu pontificado.
Tradição e modernidade no processo eleitoral
O conclave, com raízes na Idade Média, combina tradição e adaptações modernas. A expressão Extra omnes, anunciada pelo mestre das celebrações litúrgicas, Diego Ravelli, marcará o início do isolamento. As cédulas, queimadas após cada votação, garantem o sigilo, enquanto a fumaça mantém o mundo informado.
A eleição exige dois terços dos votos, ou 89 no caso de 133 eleitores. Em casos extremos, após 34 votações sem consenso, os dois mais votados disputam um “segundo turno”, ainda precisando da mesma maioria. A rapidez das últimas eleições, como as de 2005 e 2013, sugere que os cardeais buscarão um consenso ágil para projetar unidade.
- Tradições do conclave:
- Uso de cédulas secretas, queimadas após cada votação.
- Fumaça preta para votações inconclusivas, branca para eleição.
- Expressão Extra omnes para iniciar o isolamento.
- Juramento de sigilo pelos cardeais e funcionários.
A espera na Praça São Pedro
A Praça São Pedro, que recebeu 90 mil pessoas durante o funeral de Francisco, voltou a se encher de fiéis. Turistas como María de los Ángeles Pérez, do México, expressaram esperança em um papa voltado aos mais pobres. As missas nas igrejas de Roma, celebradas por cardeais, oferecem pistas sutis sobre suas visões para a Igreja.
O conclave, que começa em 7 de maio, será acompanhado por milhões via televisão e redes sociais. A fumaça, seja preta ou branca, será o único sinal do progresso das votações até o anúncio de Habemus papam. A escolha do novo papa definirá os rumos da Igreja Católica em um mundo marcado por divisões e desafios.

