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A revelação de um esquema bilionário de fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) colocou milhões de brasileiros em alerta. Desde 2019, entidades associativas descontaram indevidamente valores de benefícios, totalizando prejuízos estimados em R$ 6,3 bilhões. A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram operações para desmantelar o golpe, que envolveu falsificação de autorizações e cobrança de mensalidades sem consentimento. Agora, o INSS promete ressarcir as vítimas diretamente nas contas onde recebem seus benefícios.

A operação, batizada de “Sem Desconto”, resultou na suspensão de repasses a 31 entidades suspeitas e no afastamento de servidores do próprio INSS. A investigação revelou que associações cobravam mensalidades, muitas vezes sob a justificativa de oferecer serviços como assessoria jurídica ou convênios com academias, mas sem autorização dos segurados. A gravidade do caso levou à demissão do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e à saída do ministro da Previdência, Carlos Lupi.

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O novo presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, anunciou medidas para agilizar a devolução dos valores. Ele destacou que os ressarcimentos serão feitos de forma simples, sem a necessidade de os aposentados enfrentarem filas ou realizarem procedimentos complexos. A estratégia inclui o uso da folha suplementar, uma modalidade reservada para pagamentos complementares.

Para facilitar o entendimento do processo, o INSS orienta os beneficiários a verificarem seus extratos e denunciarem irregularidades. As ações do governo visam não apenas reparar os danos, mas também prevenir novos golpes. Entre as medidas, está a suspensão de novos descontos associativos e a criação de um plano excepcional de ressarcimento, que deve ser submetido à Casa Civil.

Escopo da fraude

A investigação conduzida pela Polícia Federal e pela CGU identificou um esquema sofisticado que operava desde pelo menos 2019. Entidades de classe, algumas classificadas como de fachada, firmavam acordos com o INSS para descontar mensalidades diretamente dos benefícios. Essas cobranças, que variavam de R$ 20 a R$ 120 por mês, eram apresentadas como pagamento por serviços como planos de saúde, apoio jurídico ou auxílio funerário.

Na prática, muitos aposentados desconheciam os descontos. Auditorias revelaram que a maioria das autorizações era falsificada, com assinaturas forjadas ou contratos nunca assinados pelos beneficiários. Um relatório da CGU apontou que 11 das 31 entidades investigadas foram responsáveis por 87% dos descontos indevidos, movimentando cifras milionárias entre 2016 e 2024.

A operação Sem Desconto cumpriu 211 mandados de busca e apreensão e seis de prisão temporária. Durante as ações, foram encontrados cadernos com anotações de supostas propinas destinadas a servidores do INSS, incluindo menções a percentuais como “Virgilio 5%” e “Stefa 5%”. Esses documentos reforçam a suspeita de envolvimento de agentes públicos no esquema.

A dimensão do golpe chocou benefici視点

Reações das entidades

Algumas entidades investigadas emitiram notas públicas negando envolvimento direto nas fraudes. A União Nacional dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unabrasil), por exemplo, alegou que as afiliações foram conduzidas por empresas privadas, e não por seus colaboradores. A entidade afirmou que, em caso de reclamações, realiza o ressarcimento em dobro dos valores descontados.

A Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec) também se defendeu, atribuindo os descontos indevidos a erros de empresas terceirizadas. A instituição informou que adota a política de devolver o dobro do valor cobrado indevidamente. Outras entidades, como a Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB), optaram por não se manifestar publicamente até o momento.

Apesar das justificativas, a CGU classificou parte das entidades como organizações de fachada, sem estrutura para oferecer os serviços prometidos. A investigação apontou que muitas não possuíam sedes físicas ou funcionários suficientes para atender os associados.

  • Unabrasil: Afirmou ter um programa de compliance e suspendeu novas afiliações desde abril de 2024.
  • Ambec: Alegou que erros ocorreram por terceiros e garante ressarcimento em dobro.
  • AAPB: Não apresentou defesa pública até o fechamento desta matéria.
  • Outras entidades: Algumas negaram captação ostensiva de associados, mas não detalharam suas operações.
INSS
INSS – Foto: Divulgação/Gov.br

Procedimentos para ressarcimento

Aposentados e pensionistas que identificarem descontos indevidos podem iniciar o processo de ressarcimento por diferentes canais. O INSS disponibilizou o e-mail acordo.mensalidade@inss.gov.br para envio de relatos e pedidos de devolução. O órgão promete entrar em contato com as entidades para verificar a existência de autorizações válidas.

Outra opção é acessar o aplicativo ou site Meu INSS, onde é possível consultar extratos, excluir mensalidades associativas e protocolar pedidos de ressarcimento. Para quem prefere atendimento presencial, é necessário agendar horário em uma agência do INSS. O acompanhamento do pedido pode ser feito pelo telefone 135 ou pela plataforma digital.

O governo federal enfatizou que os ressarcimentos serão depositados diretamente na mesma conta usada para o pagamento dos benefícios. A estratégia visa evitar golpes adicionais, como tentativas de criminosos que se passam por funcionários do INSS oferecendo devoluções via Pix ou transferências bancárias.

  • Verificação de extratos: Acesse o Meu INSS, clique em “Extrato de pagamento de benefício” e busque por “débito associação” ou “mensalidade associativa”.
  • Cancelamento de descontos: No Meu INSS, selecione “Excluir mensalidade de associação ou sindicato no benefício”.
  • Denúncias: Registre reclamações no Portal Consumidor.gov.br ou na Ouvidoria do INSS via Plataforma Fala BR.
  • Contato direto: Ligue para o 0800 da entidade, disponível no holerite, ou envie e-mail ao INSS.
  • Apoio jurídico: Procure um advogado especializado em direito previdenciário para ações judiciais.

Medidas do governo

O governo federal anunciou a suspensão de todos os repasses a entidades associativas a partir de maio de 2024. A medida, segundo o ministro da CGU, Vinícius de Carvalho, garante que nenhum aposentado terá descontos associativos na folha de pagamento até a conclusão das investigações.

A Advocacia-Geral da União (AGU) e o INSS trabalham na elaboração de um Plano de Ressarcimento Excepcional. O documento, em fase final de elaboração, será submetido à Casa Civil e apresentado ao Conselho Nacional de Justiça, ao Ministério Público Federal e à Defensoria Pública da União. A proposta prevê a devolução de valores bloqueados na operação, que já somam R$ 2 bilhões.

Além disso, o INSS abriu Procedimentos Administrativos de Responsabilização de Pessoas Jurídicas contra as entidades investigadas. Servidores envolvidos no esquema também enfrentam processos administrativos e judiciais. O governo prometeu reforçar a fiscalização sobre acordos de cooperação técnica com associações, exigindo maior transparência nas autorizações de desconto.

Alerta contra novos golpes

A divulgação do esquema bilionário gerou uma onda de tentativas de golpes adicionais. Criminosos têm se passado por funcionários do INSS, enviando mensagens por e-mail ou WhatsApp com promessas de agilizar ressarcimentos. Esses contatos frequentemente solicitam dados pessoais, documentos ou transferências bancárias.

O Ministério da Previdência Social emitiu alertas para que os beneficiários não cliquem em links suspeitos ou forneçam informações sensíveis. O INSS reforçou que não realiza comunicações sobre ressarcimentos por Pix, depósitos avulsos ou saques em caixas eletrônicos. Qualquer contato oficial ocorre pelos canais verificados, como o site gov.br ou o telefone 135.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção São Paulo, também orientou as vítimas a registrarem boletins de ocorrência ao identificarem descontos indevidos. A entidade alertou que golpistas utilizam os dados fornecidos para cometer novas fraudes, como abertura de contas bancárias ou contratação de empréstimos em nome dos aposentados.

  • Sinais de golpe: Mensagens com links, pedidos de dados bancários ou promessas de devolução rápida.
  • Ação recomendada: Não clique em links e denuncie ao INSS ou à polícia.
  • Proteção de dados: Evite compartilhar CPF, RG ou informações de contas em comunicações não verificadas.

Histórico de fraudes no INSS

Esquemas de descontos indevidos não são novidade no INSS. Relatos de beneficiários indicam que irregularidades semelhantes ocorrem há pelo menos duas décadas. Um aposentado de 74 anos, Odilon Guimarães, relatou à imprensa que notou cobranças indevidas de R$ 20 em 2006, três anos após iniciar seu benefício por invalidez. Na época, os descontos apareciam como “consignação”, apesar de ele nunca ter contratado crédito consignado.

Entre 2019 e 2024, o volume de reclamações sobre mensalidades associativas disparou. O Procon de Contagem, em Minas Gerais, informou que realiza cerca de 100 audiências mensais para tratar de descontos indevidos, sendo 90% relacionados a benefícios do INSS. Desde 2019, o órgão registra aumento constante nas queixas, com picos em 2023 e 2024.

A CGU começou a monitorar irregularidades em 2022, após detectar um crescimento anormal nos valores descontados na folha de pagamento. A auditoria inicial identificou que 29 entidades não tinham condições de entregar as contrapartidas prometidas, como descontos em academias ou serviços jurídicos. A investigação ganhou força em 2023, culminando na operação Sem Desconto.

Perfil das vítimas

A maioria dos atingidos pelo esquema é composta por aposentados e pensionistas de baixa renda, considerados alvos vulneráveis. A CGU destacou que o golpe explorava a falta de acesso à informação e a dificuldade de muitos beneficiários em acompanhar seus extratos. Muitos só perceberam os descontos após anos, quando consultaram o Meu INSS ou receberam orientações de familiares.

Humberto Machado, de 67 anos, relatou à imprensa que teve R$ 120 descontados mensalmente por dois anos. Ele descobriu a fraude ao verificar seu extrato em maio de 2024, mas os descontos continuaram por mais dois meses, mesmo após reclamações. Casos como o dele são comuns, segundo a CGU, que identificou padrões de cobranças recorrentes em benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Mulheres e idosos acima de 70 anos representam uma parcela significativa das vítimas. Muitas vivem em áreas rurais ou periferias, onde o acesso a agências do INSS ou à internet é limitado. A Defensoria Pública da União anunciou que oferecerá assistência jurídica gratuita para apoiar esses grupos no processo de ressarcimento.

Ações judiciais

A possibilidade de ações judiciais ganhou força entre os afetados. Especialistas em direito previdenciário recomendam que as vítimas busquem advogados para agilizar a devolução dos valores e pleitear indenizações por danos morais. O Código de Defesa do Consumidor prevê que cobranças indevidas devem ser ressarcidas em dobro, além de eventuais multas por atraso.

Washington Barbosa, especialista em direito previdenciário, explicou que ações de pequeno valor, até 40 salários mínimos, podem ser julgadas rapidamente em juizados especiais. Para valores maiores, o processo tramita como precatório, com pagamento previsto para o ano seguinte à sentença. Ele estimou que, para um desconto médio de R$ 45 por 10 meses, o ressarcimento, com multa e danos morais, pode chegar a R$ 13,8 mil.

A OAB São Paulo orienta que os beneficiários reúnam provas, como extratos bancários e boletins de ocorrência, antes de ingressar na Justiça. A entidade também recomenda verificar o termo de adesão da mensalidade associativa no Meu INSS, que pode comprovar a ausência de autorização.

  • Documentos necessários: Extratos do INSS, boletim de ocorrência, RG, CPF e comprovantes de residência.
  • Juizados especiais: Para valores até 40 salários mínimos, com tramitação mais rápida.
  • Precatórios: Para indenizações acima de 60 salários mínimos, pagos no ano seguinte.
  • Danos morais: Podem ser pleiteados com base nos prejuízos emocionais e financeiros.

Avanços na fiscalização

O INSS anunciou mudanças nos acordos de cooperação técnica com entidades associativas. A partir de 2025, todas as autorizações de desconto serão validadas por dupla checagem, exigindo confirmação direta do beneficiário por canais oficiais. O órgão também planeja implementar um sistema de alertas automáticos no Meu INSS para notificar os segurados sobre novos descontos.

A CGU, por sua vez, ampliou a análise de dados financeiros para identificar movimentações suspeitas em tempo real. A integração de sistemas entre o INSS, a Polícia Federal e o Banco Central permitirá o rastreamento de recursos desviados. A expectativa é que essas medidas reduzam a incidência de fraudes nos próximos anos.

O Ministério da Previdência Social criou um grupo de trabalho para monitorar a implementação do Plano de Ressarcimento Excepcional. O grupo inclui representantes da AGU, da Defensoria Pública e do Ministério Público Federal, que acompanharão a execução dos pagamentos e a punição dos responsáveis.

Relatos dos afetados

A divulgação do esquema gerou indignação entre os aposentados. Muitos expressaram frustração com a demora do governo em identificar o golpe. Um beneficiário de 65 anos, que preferiu não se identificar, relatou que perdeu R$ 80 por mês durante três anos. Ele só descobriu a fraude ao tentar contratar um empréstimo consignado e perceber que seu benefício estava comprometido por descontos desconhecidos.

Outra aposentada, de 72 anos, contou que recebia ligações frequentes de supostos representantes de associações oferecendo serviços gratuitos. Após fornecer seus dados, passou a ter descontos de R$ 50 mensais. Ela conseguiu cancelar as cobranças pelo Meu INSS, mas ainda aguarda o ressarcimento.

A Defensoria Pública relatou que muitos beneficiários enfrentam dificuldades para acessar os canais digitais do INSS. Em resposta, o órgão planeja realizar mutirões de atendimento em comunidades de baixa renda, com apoio de assistentes sociais e advogados.

Esforços regionais

Órgãos estaduais e municipais também se mobilizam para apoiar as vítimas. Em Contagem, Minas Gerais, o Procon local realizou mais de 100 audiências em abril de 2024 para tratar de descontos indevidos. A superintendente do órgão, Silvania Silva dos Santos, informou que as reclamações triplicaram nos últimos dois anos, refletindo a escala do problema.

No Rio de Janeiro, a Defensoria Pública estadual lançou uma campanha para orientar aposentados sobre como verificar extratos e protocolar pedidos de ressarcimento. A iniciativa inclui palestras em associações de idosos e parcerias com prefeituras para ampliar o alcance.

Em São Paulo, a OAB firmou acordo com o Procon para agilizar a mediação entre beneficiários e entidades. O objetivo é resolver casos sem a necessidade de ações judiciais, reduzindo o tempo de espera para as devoluções.

  • Contagem: Procon realiza audiências diárias, com 90% dos casos ligados ao INSS.
  • Rio de Janeiro: Campanha da Defensoria Pública inclui palestras e mutirões.
  • São Paulo: OAB e Procon mediam acordos para evitar processos judiciais.
  • Outras regiões: Mutirões estão previstos em cidades como Salvador e Recife.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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