Cura do HIV: dois pacientes adicionais entram na lista de remissão sustentada, elevando total a 13

HIV
Foto: Melnikov Dmitriy/ Shutterstock.com

Novos anúncios de possíveis curas para o HIV foram feitos na 26ª Conferência Internacional sobre AIDS. Dois pacientes deixaram de usar antirretrovirais e não apresentam mais o vírus detectável nos exames desde então.

Um dos indivíduos, conhecido como paciente de Kansas City, localizada no Missouri (EUA), completou 14 meses sem a necessidade de medicação.

O outro paciente, que também lidava com hepatite B, atingiu 12 meses sem tratamento para o HIV e sem vestígios do vírus em sua carga viral.

Uma carga viral detectável significa que o HIV está presente no sangue em níveis que podem ser mensurados. Por outro lado, a carga viral indetectável indica que o vírus está em um patamar tão baixo que os testes atuais não conseguem detectá-lo. Quando esse status é mantido através do tratamento, a transmissão sexual do vírus não ocorre.

Com esses dois novos casos, o número total de curas ou remissões do HIV reconhecidas pela Sociedade Internacional de Aids (IAS) agora soma 13.

Os avanços foram apresentados na Conferência Internacional sobre AIDS, um evento promovido pela IAS que acontece no Rio de Janeiro.

O paciente de Kansas City é um homem de 21 anos que recebeu o diagnóstico de HIV e de uma leucemia agressiva em 2018. Antes do tratamento, ele possuía uma alta concentração do vírus por mililitro de sangue e uma contagem muito baixa de células de defesa.

Em outubro de 2020, ele foi submetido a um transplante de células-tronco de uma doadora não aparentada, mas totalmente compatível. A doadora era portadora de duas cópias de uma rara mutação, a CCR5-delta32, que impede que as formas mais comuns do HIV infectem as células. É crucial entender que este tipo de procedimento é de alto risco e só é realizado em pacientes com doenças graves do sangue, e não como um tratamento convencional para o HIV.

Após o transplante, o paciente enfrentou complicações e precisou de um reforço de células-tronco. A suspensão dos antirretrovirais ocorreu em fevereiro de 2025, e 14 meses depois, os exames continuavam sem detectar o vírus no sangue ou células com HIV que pudessem reativar a infecção.

O segundo paciente também recebeu células-tronco de um doador que possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32. O caso dele era considerado mais complexo devido à presença de diferentes variantes do HIV, capazes de utilizar múltiplos pontos de entrada nas células.

Os medicamentos foram interrompidos após mais de quatro anos do transplante. Doze meses depois, o HIV permanecia indetectável, e os pesquisadores não identificaram vírus com capacidade de se multiplicar nem material genético completo do HIV em amostras do intestino.

A interrupção da medicação, contudo, resultou na reativação da hepatite B em apenas 25 dias, já que parte dos antirretrovirais também auxiliava no controle desse outro vírus.

É possível afirmar que alguém está curado do HIV?

Os dois casos recém-anunciados são tratados como possíveis curas porque o período sem medicamentos ainda é relativamente curto. Os pesquisadores indicam a necessidade de um acompanhamento mais prolongado para confirmar a ausência definitiva do HIV.

Segundo Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o termo mais preciso para esses casos é “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”.

Diaz disse que isso significa que, ao interromper o tratamento, o vírus não retorna. Em algumas pessoas, há evidências robustas de que o vírus realmente desapareceu.

Não existe, entretanto, um único exame capaz de inspecionar todas as partes do corpo e assegurar que nenhuma célula infectada permaneceu oculta. Por essa razão, mesmo os pacientes dos casos mais antigos continuam sendo monitorados.

Diaz afirma que é necessário esperar no mínimo dois anos sem a medicação para que as evidências de remissão se tornem mais sólidas. A interrupção dos antirretrovirais não deve ser tentada fora de ambientes de pesquisa, pois na maioria das pessoas, o HIV volta a se multiplicar rapidamente.

Histórico dos casos anteriores de remissão do HIV

Antes dos dois novos relatos, a IAS havia documentado 11 casos de remissão após transplantes de células-tronco. Veja detalhes de cada ocorrência:

  • Paciente de Berlim, 2009: Este foi o primeiro caso de cura do HIV oficialmente reconhecido. Timothy Ray Brown tinha 40 anos quando passou por um transplante para tratar leucemia e, após o procedimento, conseguiu viver sem medicação e sem o retorno do vírus.
  • Paciente de Londres, 2019: Uma década depois, Adam Castillejo, de 37 anos, tornou-se o segundo caso confirmado. Ele realizou um transplante para tratar um linfoma e permaneceu sem o HIV após suspender o tratamento.
  • Paciente de Düsseldorf, 2023: Marc Franke, de 53 anos, foi submetido a um transplante devido a uma leucemia. Anos depois, interrompeu os antirretrovirais e o vírus não foi mais detectado.
  • Paciente de Nova York, 2023: Uma mulher com leucemia foi a primeira a alcançar a remissão do HIV após um transplante que utilizou sangue de cordão umbilical e células de um doador adulto.
  • Paciente City of Hope, 2023: Paul Edmonds, de 63 anos, vivia com HIV há mais de três décadas quando fez o transplante. Seu caso demonstrou que a remissão também pode ocorrer em pacientes com idade mais avançada.
  • Paciente de Genebra, 2024: Um homem de 53 anos entrou em remissão mesmo após receber células de um doador que não possuía a mutação que geralmente dificulta a infecção pelo HIV.
  • Segundo paciente de Berlim, 2024: Neste caso, o paciente e o doador tinham apenas uma cópia da mutação protetora. Ainda assim, o HIV não retornou após a suspensão dos medicamentos.
  • Paciente de Marselha, 2024: Uma mulher na faixa dos 50 anos alcançou remissão depois de um transplante realizado para tratar uma leucemia.
  • Paciente de Oslo, 2025: Um homem de 58 anos recebeu células do próprio irmão para tratar uma doença grave do sangue. Subsequentemente, suspendeu os antirretrovirais e manteve-se sem carga viral detectável.
  • Paciente de Chicago, 2025: Neste registro, um homem de 67 anos apresentou carga viral detectável novamente após interromper o tratamento pela primeira vez. Os medicamentos foram reiniciados e, após uma nova suspensão, o vírus não voltou a se multiplicar.
  • Paciente de Toronto, 2026: Um homem de 62 anos realizou um transplante para tratar uma leucemia. Quando seu caso foi apresentado em congresso, ele estava há dez meses sem antirretrovirais e sem carga viral detectável.

Todos esses indivíduos receberam transplantes para tratar leucemias, linfomas ou outras doenças sanguíneas graves. Os procedimentos não tiveram como foco principal o tratamento do HIV, mas acabaram substituindo uma grande parte das células de defesa dos pacientes por células do doador.

Na maioria dos casos, os doadores possuíam duas cópias da mutação CCR5-delta32, uma característica que confere às novas células resistência às formas mais comuns do HIV e diminui a probabilidade de o vírus se proliferar novamente.

A mutação, contudo, não é a única explicação. O paciente de Genebra, por exemplo, alcançou a remissão mesmo com células sem essa proteção. Já no segundo caso de Berlim, o doador apresentava apenas uma cópia da alteração genética.

De acordo com Sharon Lewin, infectologista e ex-presidente da IAS, é provável que múltiplos mecanismos estejam atuando simultaneamente nesses casos.

O tratamento aplicado antes do transplante elimina parte das células infectadas; as novas células podem atacar as que restaram e, se carregarem a mutação, tornam-se mais resistentes ao HIV.

Lewin afirmou que quando as células do doador não possuem o CCR5, isso serve como um impulso adicional para aumentar as chances de cura.

A diferença entre controladores de elite do HIV e a remissão por transplante

Os controladores de elite são pessoas que conseguem manter o HIV em níveis muito baixos sem o uso de antirretrovirais. Nesses indivíduos, o próprio sistema imunológico controla a replicação do vírus e impede a perda de células de defesa.

Isso não significa necessariamente que o HIV foi totalmente eliminado. O vírus pode permanecer latente em algumas células, mas não consegue se multiplicar em quantidade suficiente para ser detectado em exames comuns ou causar danos à saúde.

Nos casos de remissão pós-transplante, o processo é distinto. Os pacientes foram submetidos a um tratamento intensivo que destruiu parte das células antigas e reconstruiu o sistema de defesa com células de outra pessoa.

As evidências sugerem que este processo reduziu drasticamente os locais onde o HIV poderia se esconder no organismo.

Desafios na busca por uma cura definitiva para o HIV

O HIV é capaz de inserir seu material genético nas células de defesa. Algumas dessas células entram em um estado de dormência e podem permanecer assim por anos, sem produzir novas partículas virais.

Os antirretrovirais impedem a multiplicação do HIV, mas não conseguem remover o material genético viral que já está oculto nessas células. Esse conjunto de células infectadas é denominado reservatório viral.

Quando o tratamento é interrompido, uma dessas células pode reativar a produção do vírus e reiniciar a infecção. Geralmente, isso acontece em poucas semanas.

A dificuldade aumenta porque o HIV não se restringe ao sangue. Ele pode se esconder em gânglios, no intestino, no sistema nervoso e em outros tecidos, que são mais desafiadores de examinar.

Quando uma cura universal para o HIV pode se tornar realidade?

Os transplantes comprovam a possibilidade de remissão, mas não podem ser amplamente oferecidos como tratamento para o HIV. Esses procedimentos carregam riscos de infecções graves, rejeição celular, danos a órgãos e até mesmo óbito.

Por essa razão, o transplante é indicado apenas para indivíduos que necessitam dele para combater doenças sanguíneas graves. Para quem vive com HIV e responde bem aos antirretrovirais, os riscos do transplante superariam qualquer benefício potencial.

Cientistas atualmente buscam replicar os efeitos positivos dos transplantes de maneira mais segura. Entre as abordagens em estudo estão anticorpos, medicamentos que fortalecem o sistema imunológico e terapias genéticas capazes de tornar as células resistentes ao HIV.

Lewin acredita que uma cura sem a necessidade de transplante será viável. Pesquisas com anticorpos e fármacos que estimulam a imunidade já permitiram que alguns participantes mantivessem o vírus sob controle após a suspensão dos antirretrovirais.

Ela afirmou que é preciso que mais pessoas respondam ao tratamento e que o controle seja melhor e mais duradouro.

As terapias genéticas também demonstram resultados promissores, embora ainda predominantemente em estudos com animais.

Não há uma previsão exata sobre quando uma cura simples, de baixo risco e acessível em larga escala estará disponível para a população. Até lá, os antirretrovirais permanecem a forma comprovada de manter o HIV indetectável e prevenir a transmissão sexual.

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