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Diminuir a ingestão de alimentos ultraprocessados (AUP) dentro do ambiente familiar tem se mostrado um desafio contínuo para muitos. Uma família relata sua jornada de cinco anos na busca por uma alimentação mais saudável, enfrentando dificuldades, mas celebrando avanços.

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Especialistas da área da saúde reforçam a preocupação com os AUPs, que estão associados a diversos riscos, como ingredientes nocivos, problemas de saúde e impactos ambientais negativos. Além disso, esses produtos frequentemente substituem opções mais nutritivas na dieta das pessoas. Por essa razão, cresce o interesse em reduzir ou eliminar esses itens do consumo diário.

O caminho para essa mudança exigiu dedicação, tempo e constância. Com base na experiência acumulada, surgiram estratégias eficazes que podem ser aplicadas por outras famílias interessadas em transformar seus hábitos alimentares, conforme publicado em 22 de julho de 2026.

Aumentar a ingestão de vegetais na dieta

Substituir os alimentos ultraprocessados por opções de origem vegetal é uma das maneiras mais acessíveis e eficientes de começar. Além de frutas e verduras frescas, nozes, sementes, pipoca natural e algas torradas são alternativas saborosas e repletas de nutrientes.

Kary Rappaport, terapeuta ocupacional pediátrica e diretora executiva da Solid Starts, organização focada em apoiar pais na alimentação infantil, enfatiza a importância da fase entre seis e doze meses para a introdução de vegetais. Ela explica que este é um momento crucial, onde os bebês demonstram maior receptividade, do ponto de vista do desenvolvimento, a uma ampla gama de alimentos e sabores distintos.

Vegetais
Vegetais – muse studio/ Shutterstock.com

Para crianças em idade mais avançada, a abordagem para introduzir novos alimentos segue princípios semelhantes, segundo Rappaport. A sugestão é oferecer porções pequenas, variar as formas de preparo e estimular a curiosidade natural dos pequenos. Em vez de questionar se a criança gostou, o foco deve ser em descrever o alimento, incentivando-a a provar e observar características como doçura ou temperatura, sem emitir julgamentos de valor.

Além disso, escolher o momento adequado para a oferta é fundamental. Rappaport comenta que a disposição para provar e apreciar novos itens aumenta quando se está com um leve apetite. Ela recomenda oferecer uma bandeja de vegetais crus com homus enquanto o jantar é preparado, aproveitando o momento em que as crianças sentem um pouco de fome. Entretanto, é importante não tentar forçar uma criança que já está faminta a experimentar alimentos desconhecidos.

A professora associada de saúde pública da Universidade Johns Hopkins, Julia Wolfson, aconselha a incluir o máximo possível de vegetais, frutas e produtos crus, mesmo quando as opções totalmente livres de ultraprocessados não são ideais ou disponíveis.

Escolha ingredientes de qualidade superior, dentro do seu orçamento

Em mercados de produtores locais, a qualidade dos alimentos frescos é notável. Maçãs da estação, por exemplo, são consistentemente crocantes, doces e com um sabor realçado, um padrão que se aplica a muitos outros itens encontrados nesses locais.

A chef Penny Stankiewicz ressalta que os produtos disponíveis nas feiras são sazonais, o que naturalmente os torna de melhor qualidade. Ela exemplifica que um tomate redondo e vermelho comprado em janeiro num supermercado comum pode não ter sabor, mas o mesmo tomate em agosto, na alta temporada, é naturalmente delicioso, sem necessidade de preparos especiais.

Embora produtos frescos em feiras possam ter um custo mais elevado e nem todos tenham acesso a elas, a diferença no sabor é significativa. Como alternativa, pode-se testar opções em diversos supermercados. Além disso, alimentos congelados e enlatados podem ser uma boa escolha, já que possuem maior durabilidade. Depois da compra, é essencial aprender as melhores técnicas de armazenamento para maximizar a vida útil dos produtos.

Conversem sobre a alimentação, seus impactos e procedência

Uma das motivações para reduzir o consumo de ultraprocessados é a preocupação com o apoio a grandes corporações que podem estar envolvidas na exploração de trabalhadores, maus-tratos a animais e danos ambientais. O aprofundamento do conhecimento sobre os sistemas alimentares muitas vezes leva à decisão de evitar participar desse modelo de consumo.

Ensinar às crianças a origem dos alimentos e as técnicas de preparo estimula a valorização e o entendimento. Rappaport ainda aconselha a dialogar sobre os efeitos dos alimentos no corpo, usando exemplos práticos como: “se eu consumir muitas guloseimas ou salgadinhos em excesso durante uma viagem, vou me sentir desconfortável e com mal-estar no estômago.”

Wolfson indica que é fundamental que a família se familiarize com a definição de alimentos ultraprocessados. Dessa forma, será possível identificá-los de maneira mais fácil e consciente, apenas observando a lista de ingredientes dos produtos.

Desenvolva suas habilidades culinárias em casa

Embora já dominasse a culinária, o aprofundamento na ciência dos alimentos foi uma etapa importante ao iniciar este projeto. Atualmente, as refeições preparadas em casa apresentam um sabor superior, superando até mesmo as alternativas ultraprocessadas.

As dificuldades para cozinhar, muitas vezes, são estruturais, como a escassez de tempo e energia para o preparo dos pratos. A falta de confiança nas próprias habilidades culinárias também é um fator. Wolfson defende que é essencial facilitar a preparação de refeições saudáveis do zero, tornando os ingredientes mais baratos e acessíveis, e cultivando essas competências desde a infância para que as pessoas desenvolvam autoconfiança.

Stankiewicz compartilha conselhos valiosos para quem está começando a cozinhar:

  • Domine técnicas básicas: Uma vez que se aprende a refogar, por exemplo, o ingrediente não importa tanto, a técnica garante o bom resultado.
  • Aperfeiçoe o corte com facas: Desenvolver habilidades de corte aumenta significativamente a confiança na cozinha.
  • Reconheça seu paladar: É fundamental entender o que se gosta para criar pratos a partir disso. O foco inicial deve ser em preparar algo que realmente agrade, em vez de tentar receitas complexas que podem desestimular.

Pesquisas de Wolfson revelam que cozinhar mais em casa está diretamente ligado a um menor consumo de ultraprocessados. No entanto, a professora aponta que, mesmo para quem cozinha com frequência, uma parcela considerável das calorias ainda pode vir desses alimentos, o que não deve ser motivo de frustração. Ela explica que essa realidade reflete a vasta presença de ultraprocessados, que representam cerca de 70% dos itens em um supermercado comum nos Estados Unidos, sendo as opções mais acessíveis ao consumidor.

Desvende a arte da confeitaria e substitua lanches industrializados

No processo de substituir alimentos ultraprocessados, a troca de sobremesas e lanches revelou-se surprisingly simples. A ideia não era trocar biscoitos por opções sem graça, mas sim por versões caseiras que, em muitos casos, superavam as originais em sabor e qualidade.

Stankiewicz aconselha a abordar a confeitaria sem receios, pois cometer erros é uma parte natural do aprendizado. Ela exemplifica essa ideia com a história da criação do brownie, que teria surgido por acaso quando um confeiteiro adicionou pouca farinha à receita.

O próximo passo envolve a busca por receitas de fontes confiáveis. Comece com pratos que não pareçam muito complexos ou intimidadores. Leia a receita completa antes de iniciar, depois separe todos os ingredientes necessários, organize o que for preciso e então, coloque a mão na massa.

Simplifique a preparação das refeições caseiras

A praticidade do consumo de ultraprocessados, que exigem pouco tempo e esforço mental para serem desembalados e aquecidos, é inegável. O objetivo, portanto, deve ser tornar o preparo de alimentos e a confeitaria caseira tão acessíveis quanto possível.

Em primeiro lugar, é recomendável dominar algumas receitas-chave. Stankiewicz sugere identificar pratos ou técnicas que sejam fáceis de fazer, considerando a disponibilidade e o custo dos ingredientes, a quantidade necessária e o tempo de preparo. O segredo é praticar e se tornar proficiente neles.

Em segundo lugar, organize uma despensa bem abastecida com itens de uso frequente. Manter uma lista de compras compartilhada e atualizá-la sempre que um produto está acabando ajuda a garantir que os ingredientes essenciais estejam sempre à mão.

A terceira dica é preparar comida em maior quantidade do que o necessário. Sobras são uma excelente solução. Melhor ainda são as refeições que podem ser congeladas e reaquecidas, economizando trabalho em dias corridos, pois o preparo já foi realizado previamente.

Valorize os momentos das refeições em família

Na mesa, a regra é clara: celulares e brinquedos são proibidos durante as refeições. Em vez disso, a família se dedica à conversa, geralmente sobre temas leves. As refeições são rápidas, levando cerca de 20 minutos desde o momento em que se sentam até o filho mais novo terminar de comer.

Rappaport enfatiza que estudos demonstram um impacto positivo significativo das refeições em família, onde todos comem juntos, no desenvolvimento infantil. Esses benefícios abrangem áreas como o desempenho escolar, a saúde mental e as habilidades de interação social.

Conciliar horários variados pode ser desafiador. Rappaport, que tem filhos mais velhos, faz um esforço para que a família jante junta ao menos três vezes por semana, equilibrando compromissos de trabalho e atividades extracurriculares. Ela explica que o objetivo não é ter uma “refeição perfeita de quadro”, mas sim criar momentos para a interação. Pode ser, inclusive, um lanche rápido no parque, enquanto aguardam o início de um treino, momento em que ainda é possível conversar, demonstrar interesse e fortalecer laços por meio da comida.

Mantenha a consistência e seja gentil consigo mesmo na jornada

A eliminação total dos alimentos ultraprocessados não foi alcançada, mas a meta é cozinhar na maioria das vezes, selecionar alimentos integrais e adquirir ingredientes de alta qualidade. Em cinco anos e inúmeras escolhas, o paladar se transformou, desenvolvendo uma preferência por produtos menos processados. Cozinhar e assar se tornaram hábitos enraizados. Quando os ultraprocessados deixam de ser apetitosos e o preparo de refeições caseiras se torna tão natural quanto escovar os dentes, a decisão de evitá-los se torna menos intimidante.

Todos os especialistas consultados destacam unanimemente os obstáculos estruturais que dificultam a diminuição do consumo de ultraprocessados. A combinação desses fatores, juntamente com a pressão do tempo e dos custos, muitas vezes faz com que esses alimentos pareçam a escolha mais prática. Imprevistos no trabalho ou questões de saúde podem surgir, impedindo o preparo de refeições do zero. Além disso, dias cheios de atividades e eventos sociais podem deixar pouco tempo para cozinhar ou assar, e nem sempre se tem controle sobre a comida servida em bufês, reuniões ou outras funções.

A realidade é que a maioria das pessoas, inclusive as crianças em festas e encontros sociais, consumirá ultraprocessados em algum momento. Isso não significa um fracasso, mas sim uma parte da vida. Ser realista sobre as escolhas disponíveis ajuda a manter a consistência em vez de desistir por completo. No fim, essa abordagem permitiu à família alcançar seus objetivos. A mensagem final é clara: na busca por uma alimentação melhor, não permita que a perfeição se torne um obstáculo para o progresso.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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