Ciência

Ponto Nemo é usado como cemitério para espaçonaves desativadas no Pacífico Sul

Pequenas ilhas circundam Point Nemo, formando um círculo imaginário: a noroeste, a Ilha Ducie; ao norte, Motu Nui; e na ponta sul, a rochosa Ilha Maher – Reprodução
Foto: Pequenas ilhas circundam Point Nemo, formando um círculo imaginário: a noroeste, a Ilha Ducie; ao norte, Motu Nui; e na ponta sul, a rochosa Ilha Maher – Reprodução
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Um ponto no meio do Oceano Pacífico reúne a distinção de ser o local mais distante de qualquer costa habitada do planeta. As pessoas mais próximas dali, em muitas ocasiões, são os astronautas que orbitam a Terra a bordo da Estação Espacial Internacional. O engenheiro croata Hrvoje Lukatela identificou essas coordenadas em 1992 e batizou o local de “polo oceânico de inacessibilidade”.

Lukatela usou um programa de geolocalização para traçar um círculo cujo interior fosse preenchido apenas por água, com três pontos de terra equidistantes nas bordas. O centro dessa figura geométrica marcava a localização buscada. As coordenadas atuais apontadas para o ponto são 48°52,6’S-123°23,6’W, nas águas do Pacífico.

A comunidade científica renomeou o local como Ponto Nemo em referência ao capitão do submarino Nautilus, personagem do romance “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne. Nemo significa “ninguém” em latim.

Três ilhas cercam o ponto e formam os vértices usados no cálculo original de Lukatela. A noroeste fica a Ilha Ducie, do arquipélago das Ilhas Pitcairn. Ao norte está Motu Nui, parte da Ilha de Páscoa. Na ponta sul aparece a rochosa Ilha Maher, que faz fronteira com a Antártida todas a 2.688 quilômetros de distância do centro do círculo, o que dificulta qualquer operação de resgate na região.

A vida marinha ali é escassa. Oceanógrafos apontam que essas águas figuram entre as menos produtivas biologicamente do planeta, resultado do Giro do Pacífico Sul, uma corrente rotativa que impede a entrada de nutrientes vindos de outras regiões oceânicas. A distância da costa também bloqueia o transporte de matéria orgânica pelo vento.

“Não estamos falando de belas ilhas tropicais, mas sim de regiões entre 40 e 50 graus de latitude sul, onde o mar é agitado e quase não há terra. Não fica nas rotas marítimas habituais, e até os pinguins tendem a evitar essa região”, descreveu Jonathan McDowell, astrofísico do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica.

Duas pessoas foram até lá especificamente para encontrar o ponto: o britânico Chris Brown e seu filho Mika Brown.

“O Pacífico Sul é um lugar selvagem. Os marinheiros dizem que abaixo de 40 graus não há lei, o que significa que as regras usuais de navegação não se aplicam. E abaixo de 50 graus não há Deus!”, disse Chris Brown.

Desde a partida no Chile, pai e filho enfrentaram ondas de 11 metros de altura com um período de 13 segundos entre uma e outra. “Era simplesmente um furacão atrás do outro. Tivemos que abandonar o Nemo 20 minutos depois de começarmos a nadar no mar”, recordou o explorador.

Em março de 2024, Chris e Mika Brown se tornaram os primeiros seres humanos a alcançar as coordenadas e mergulhar naquelas águas, dentro do projeto Oito Polos, que prevê visitar os oito polos de inacessibilidade do planeta. O planejamento da expedição a Nemo levou três anos. “Como qualquer alpinista diria, você só escalou uma montanha de verdade quando retorna ao acampamento base são e salvo. A sensação física foi quase como eu havia imaginado. Estava frio, e a travessia das ondas foi agitada. O que eu não esperava era ser atacado por um albatroz!”, contou Brown.

O oceano no Ponto Nemo chega a quase 4.000 metros de profundidade. “Isso equivale a 40 quarteirões até o fundo do mar, e o curioso é que as únicas pessoas que passam por ali regularmente são os astronautas da Estação Espacial Internacional, que orbitam a apenas 416 quilômetros acima da Terra”, explicou o engenheiro aeroespacial argentino Pablo Gabriel de León, que em 1997 se tornou o segundo latino-americano a voar em gravidade zero a bordo do KC-135, da Nasa.

O isolamento do Ponto Nemo levou a Nasa e outras agências espaciais a escolherem o local como cemitério subaquático de espaçonaves desativadas. “Para garantir que esses grandes objetos espaciais pudessem ser localizados em uma área comum, foi escolhido o local mais remoto da civilização humana, e este é precisamente o local”, afirmou De León, que ressaltou tratar-se de uma área de mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, e não de um ponto exato.

“Existe uma lenda de que todas as naves são descartadas no Ponto Nemo, mas na realidade elas são descartadas no Pacífico Sul, em uma área com milhares de quilômetros de extensão, praticamente em qualquer lugar entre a Nova Zelândia e o Chile”, disse McDowell. “Você quer ficar longe de todos, e o Pacífico Sul é um lugar onde as pessoas geralmente não ficam.”

Segundo o astrofísico, a primeira espaçonave pousou naquelas águas na década de 1970: naves de carga russas não tripuladas do programa Progress, que reabasteciam a Salyut 6, a primeira estação espacial da história. Só em 1990 outros satélites passaram a ter o mesmo destino. Nos últimos 50 anos, cerca de 260 objetos caíram nas profundezas do Pacífico Sul.

O desafio de desorbitar a Estação Espacial Internacional

A Nasa se prepara agora para o próximo grande passo: a desorbitação da Estação Espacial Internacional, uma estrutura do tamanho de um campo de futebol de ponta a ponta, cuja montagem original exigiu 27 voos do ônibus espacial. “A desorbitação de um objeto tão grande nunca foi feita antes”, disse De León.

A ISS deve deixar a órbita em 2030. A SpaceX, empresa fundada por Elon Musk, foi escolhida para fornecer o Veículo de Desorbitação dos Estados Unidos, apelidado de Superdragon e baseado em versão modificada da espaçonave de carga Dragon.

“Não se trata propriamente de um único objeto, mas sim de vários objetos conectados por anéis de acoplamento. Algumas partes, como os painéis solares e os radiadores, são mais fáceis de desorbitar porque são mais leves e queimam na alta atmosfera. Mas outros módulos, geralmente pressurizados, são mais pesados e irão cair”, explicou De León, citando o precedente da reentrada descontrolada da Skylab, em 1979, quando destroços caíram na Austrália.

Algo parecido ocorreu com a Salyut 7: apesar do plano de desorbitá-la no Pacífico, partes da estrutura atingiram a superfície terrestre, incluindo províncias argentinas como Santa Fé, em fevereiro de 1991. A sucessora, a Mir, conseguiu uma desorbitação controlada no mesmo trecho do oceano.

McDowell estima em cerca de um em 10.000 o risco de impacto em áreas povoadas em caso de saída descontrolada de órbita. “Pode parecer muito improvável, mas é importante lembrar que houve cerca de 10.000 reentradas descontroladas nos 60 anos da era espacial”, observou.

Para trazer a estação de volta às coordenadas aproximadas do Ponto Nemo, é preciso reduzir sua velocidade em ângulo específico no lado oposto do planeta em relação ao ponto de queda. “O que precisa ser feito é uma redução na velocidade em um ângulo específico para que a cápsula caia. Para descer nas coordenadas aproximadas do Ponto Nemo, ela precisa sair da órbita do outro lado da Terra, quando a espaçonave passar pelo lado oposto. É matemática pura”, resumiu De León.

McDowell publica desde 1989 o Jonathan’s Space Report, boletim que detalha lançamentos, reentradas e objetos espaciais. Segundo ele, há uma década existiam cerca de 1.000 satélites operacionais; hoje são mais de 16.000, número que pode chegar a 100.000 dentro de dez anos. “Antes, o tráfego espacial era dividido, aproximadamente, em um terço militar, um terço governamental civil e um terço comercial. Hoje, é predominantemente comercial. Dois terços de todos os satélites ativos pertencem a uma única empresa: a SpaceX”, concluiu o astrônomo.

“Desde criança, olho para o céu com admiração e encantamento. Nos últimos anos, a saturação de satélites artificiais começou a interferir na apreciação das maravilhas naturais do céu noturno”, afirmou McDowell. A Estação Espacial Internacional, segundo o planejamento atual, deve se juntar às demais naves no fundo do Ponto Nemo.

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