A Anvisa aprovou em 8 de setembro de 2026 o registro do atogepanto, comprimido oral desenvolvido pela farmacêutica AbbVie para prevenir quadros de enxaqueca crônica e episódica em pacientes adultos. O medicamento amplia as alternativas de controle clínico ao focar especificamente nas alterações biológicas que disparam as crises intensas de cefaleia no organismo humano.
O fármaco integra a classe dos gepantos.
Essa categoria farmacológica já contava no território nacional com o rimegepanto, produzido pela Pfizer sob a marca Nurtec ODT e validado pelo órgão sanitário em maio de 2026. A repercussão internacional da substância aumentou nos Estados Unidos com a adesão pública da cantora Lady Gaga a campanhas de conscientização sobre a enfermidade com a qual convive desde a adolescência. Durante anos, pacientes com crises recorrentes utilizavam antidepressivos, anti-hipertensivos e anticonvulsivantes adaptados para a prevenção, mas enfrentavam restrições decorrentes de efeitos adversos frequentes.
Mecanismo biológico atua direto na inflamação nervosa
A nova fórmula atua no bloqueio do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, proteína do sistema nervoso identificada pela sigla CGRP que dilata vasos sanguíneos cerebrais e ativa a neuroinflamação responsável por dores agudas. Ao contrário dos tratamentos antigos que induzem vasoconstrição, a molécula oferece segurança a pessoas com histórico cardiovascular comprometido.
O produto não contrai vasos.
O médico Alexandre Venturi, professor colaborador de neurologia da Faculdade de Ciências Médicas e da Residência Médica da Santa Casa de São Paulo, declarou que o início de resposta dos gepantos ocorre no mesmo dia da ingestão, o que autoriza intervenções em períodos de alta exigência ou fases pré-menstruais.
Alexandre Venturi afirmou que os medicamentos novos entrarão primeiro na rotina de casos graves e resistentes antes de alcançar outros perfis de pacientes. Trabalhos científicos também avaliam a resposta positiva do atogepanto associado à aplicação de toxina botulínica e sua capacidade de atingir estruturas profundas do sistema nervoso.
Diferenças práticas marcam o uso de cada medicação
As duas terapias liberadas no país apresentam esquemas posológicos e funções terapêuticas distintas:
- Rimegepanto: comprimido de desintegração oral tomado a cada dois dias para prevenção ou consumido pontualmente durante os episódios agudos de dor.
- Atogepanto: comprimido de uso diário contínuo exclusivo para prevenção, com aprovações prévias da FDA nos Estados Unidos e da EMA na União Europeia.
A indicação do atogepanto contempla tanto pessoas com a forma episódica, caracterizada por até 14 dias de dor mensal, quanto pacientes com o quadro crônico de 15 dias ou mais com cefaleia a cada mês.
Comercialização no país depende de tabela de preços
Nenhuma das novidades chegou às prateleiras das drogarias brasileiras até o momento da liberação regulatória oficial da agência sanitária. Os produtos aguardam a determinação do teto tarifário pela CMED, órgão interministerial encarregado de fixar os valores máximos autorizados para venda em território nacional.
A farmacêutica Pfizer estabeleceu a previsão de iniciar a distribuição do Nurtec ODT no mercado brasileiro durante o primeiro semestre de 2027.
O diretor médico da AbbVie Brasil, Fernando Mos, confirmou que a empresa ainda não consegue projetar o custo final do medicamento no país antes da manifestação das autoridades regulatórias.
Valores cobrados no exterior superam cinco mil reais
O mercado farmacêutico dos Estados Unidos comercializa o Nurtec ODT sob valores elevados na venda direta ao consumidor final. Sem cobertura securitária, a caixa com 8 unidades varia de US$ 1.100, soma superior a R$ 5.600, até US$ 1.300, patamar que encosta em R$ 7.000.
Plataformas locais de benefícios concedem cupons que diminuem essa despesa para US$ 480 por embalagem. A Pfizer também disponibiliza cartão de copagamento que isenta segurados elegíveis.
Alexandre Venturi explicou que o acesso equilibrado às inovações dependerá da incorporação à rede pública de saúde e do reembolso compulsório pelas operadoras privadas de planos médicos.
Testes clínicos registraram queda expressiva de crises
A aprovação técnica decorreu dos resultados dos estudos globais de fase 3 denominados ADVANCE e PROGRESS. No ensaio PROGRESS, a medicação diária reduziu pela metade a quantidade de dias com desconforto em 40% dos voluntários diagnosticados com o quadro crônico, diminuindo também a dependência de analgésicos comuns.
A SBCe calcula que a enxaqueca acomete entre 30 e 34 milhões de pessoas no Brasil, contingente correspondente a 15,2% dos cidadãos do país.
Para mensurar o prejuízo funcional provocado pelo problema, a entidade disponibiliza um teste de seis perguntas que calcula a interferência da dor de cabeça sobre o trabalho e a concentração.
