Cerca de 100 manifestantes realizaram um protesto em frente à sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, contra a decisão que suspendeu o impulsionamento pago de um vídeo sobre o caso Ana Clara nas redes sociais. O ato ocorreu na sexta-feira (23), após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e vice-presidente do TSE, André Mendonça, atender a um pedido do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e estipular multa de R$ 10 mil para cada nova alavancagem da gravação.
A peça publicitária de 2 minutos e 28 segundos, intitulada Flávio defendeu assassino de criança, foi divulgada pela campanha do presidente da República e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em plataformas digitais como Facebook e Instagram. Durante a manifestação na capital federal, a presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM), Maria das Neves Filha, classificou a medida judicial como censura e criticou o fato de a decisão ter saído no último dia útil antes da votação de segundo turno. “Devemos denunciar essa censura flagrante à nossa democracia. Vamos tomar as medidas cabíveis para fazer com que a justiça prevaleça nesse caso”, afirmou a dirigente. “É por isso que estamos na rua hoje”, declarou.
Argumentos de André Mendonça para barrar o vídeo no TSE
Na decisão que determinou que a campanha petista se abstenha de contratar novos impulsionamentos para o vídeo, o ministro André Mendonça argumentou que a gravação não apresenta conteúdo promocional autônomo da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, limitando-se a tecer críticas ao concorrente. Segundo o vice-presidente da Corte eleitoral, o fato de a peça reproduzir falas de debate eleitoral e o depoimento da mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, não garante autorização de uso do material para alavancagem paga nas plataformas digitais.
Saiba mais: TSE confirma que ausência no 1º turno não impede voto no domingo
“A mensagem publicitária dirige-se essencialmente à crítica e à desqualificação do candidato adversário”, escreveu André Mendonça no despacho. O magistrado acrescentou ainda na justificativa que “a circunstância de o material reproduzir manifestações proferidas em debate eleitoral e depoimento de familiar da vítima não afasta, por si só, a irregularidade do impulsionamento remunerado.”
Presença da mãe de Ana Clara em debate presidencial
Na noite de 23 de outubro de 2026, horas após o protesto em frente ao TSE, a campanha de Lula levou Cristiane Gomes da Silva a um estúdio de televisão como convidada para acompanhar o debate presidencial na primeira fila, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e de Marcelo Freixo (PT). Na chegada ao local, a mãe da criança cobrou explicações do candidato do PL. “Tô animada para ele explicar, por que ele defendeu o assassino da minha filha. Já que ele nunca me procurou, eu vim até ele”, disse Cristiane.
Veja também: Debate entre Lula e Flávio Bolsonaro amplia alerta sobre 33,4 milhões de abstenções
Durante o encontro televisivo, Lula voltou a mencionar o episódio em uma discussão sobre segurança pública. Em resposta, Flávio Bolsonaro dirigiu-se à mãe da vítima e declarou: “Tenho a confiança de que não foi esse policial que deu esse tiro”. No domingo (18), quando o tema foi levantado em outro debate na televisão — gerando cerca de 1 milhão de buscas pelo termo flavio bolsonaro caso ana clara no Google em 24 horas —, o senador havia argumentado que o acusado não poderia ser condenado antes do julgamento e rebateu o adversário: “Você não pode criminalizar a advocacia, Lula”.
Morte de Ana Clara em Niterói e atuação de Flávio Bolsonaro
O caso que originou a disputa eleitoral ocorreu em 2 de fevereiro de 2021, quando a menina Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, foi atingida por um disparo de fuzil enquanto brincava na porta de casa com o irmão de 2 anos na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, durante uma operação policial. A criança foi socorrida, mas morreu no Hospital Estadual Azevedo Lima. De acordo com a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), o tiro partiu do policial militar Bruno Dias Delaroli, que foi preso em flagrante e denunciado por homicídio qualificado por ter assumido o risco de matar.
Durante o exercício do mandato de senador, Flávio Bolsonaro atuou como advogado na defesa de Bruno Dias Delaroli no processo judicial, tentando reverter a decisão que submetia o acusado ao Tribunal do Júri, que é o colegiado popular responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. O julgamento do denunciado, que estava previsto para ocorrer na quarta-feira (21), foi adiado pela Justiça e reagendado para 5 de maio de 2027.
