Tundra antártica perde capacidade de reter carbono com a recuperação da camada de ozônio

Tundra - Mario Bandi/Shutterstock.com

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A recuperação da camada de ozônio na Antártica enfraquece em até 80% a capacidade da tundra polar de reter carbono atmosférico, revelou uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências e pela Universidade de Ciência e Tecnologia da China. O trabalho de campo ocorreu na Ilha Ardley e teve os resultados publicados no periódico científico Atmospheric and Oceanic Science Letters em 22 de junho de 2026.

Os experimentos demonstraram que uma redução de 20% na incidência de radiação ultravioleta é suficiente para cortar pela metade o sumidouro de carbono formado por musgos e líquens da região. Quando a diminuição da radiação atinge a faixa de 50%, a capacidade de retenção de carbono recua cerca de 80%, provocando intervalos em que o ecossistema polar deixa de absorver o gás para atuar como fonte emissora de dióxido de carbono.

Impacto do corte de radiação ultravioleta no solo polar

Para medir o impacto da reconstituição atmosférica sobre o ecossistema vegetal, os pesquisadores instalaram estruturas com filtros transparentes sobre diferentes parcelas de vegetação na Ilha Ardley. Os dispositivos simularam em campo reduções controladas de 20% e 50% na radiação ultravioleta que chega à superfície, permitindo acompanhar de maneira contínua as trocas gasosas e os fluxos de dióxido de carbono movimentados pelas espécies locais.

Foto: carvalho lendário da Floresta de Sherwood – Reprodução

Sob a redução simulada de 50% na radiação ultravioleta, os pesquisadores constataram que a tundra antártica apresentou períodos intermitentes de inversão funcional. Durante os meses de fevereiro e março, época de pico da respiração do solo polar, os sensores registraram uma taxa máxima de emissão líquida de 145 mg/m²/h de dióxido de carbono. Nesses momentos específicos, o volume de gases liberado para a atmosfera superou o total capturado pela vegetação rasteira.

Como a recuperação da camada de ozônio afeta a tundra antártica?

A vegetação da tundra antártica é formada principalmente por briófitas e líquens que passaram décadas expostos a elevados índices de radiação solar, provocados pelo desgaste histórico da camada de ozônio. Diante dessa condição ambiental extrema, essas plantas desenvolveram mecanismos metabólicos de defesa e pigmentos protetores para manter o crescimento e realizar trocas gasosas sob luz intensa.

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Com a restauração progressiva da barreira estratosférica e o consequente bloqueio dos raios mais intensos, o metabolismo dos musgos sofreu alterações. A menor incidência de radiação ultravioleta provocou uma desaceleração no ritmo da fotossíntese vegetal, diminuindo o volume de dióxido de carbono retirado do ar.

“Podemos esperar que uma radiação ultravioleta mais baixa seja simplesmente benéfica, mas a tundra antártica não responde de maneira tão direta”, afirmou a professora Xiyan Xu, pesquisadora do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências e autora correspondente da pesquisa, em tradução livre.

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A cientista explicou que o processo gera consequências simultâneas em diferentes níveis biológicos do ambiente antártico. “Neste ecossistema sensível, mudanças na radiação ultravioleta podem afetar a fotossíntese das plantas, a decomposição microbiana e o equilíbrio geral de carbono ao mesmo tempo”, disse Xiyan Xu, em tradução livre.

Pinguins e a atividade biológica subterrânea na Ilha Ardley

A pesquisa identificou dois mecanismos biológicos distintos para explicar o enfraquecimento do sumidouro de carbono na Ilha Ardley. Nas terras baixas ocidentais, onde não há colônias de animais marinhos, a perda de capacidade de armazenamento decorreu diretamente da queda na taxa de fotossíntese observada nas briófitas e nos líquens.

Nas terras baixas orientais, o terreno recebe adubação contínua do guano de colônias de pinguins que utilizam a área costeira. Nessas parcelas fertilizadas, a taxa de fotossíntese quase não variou com a filtragem da radiação. No entanto, os microrganismos presentes no solo responderam com forte aceleração de suas atividades biológicas ao serem liberados do estresse gerado pelos raios ultravioleta.

Com a redução da pressão inibitória provocada pela luz, as colônias subterrâneas de bactérias e fungos aceleraram a decomposição da matéria orgânica acumulada. Esse processo aumentou a taxa de respiração microbiana, fazendo com que a liberação de gases pelo solo superasse o volume estocado pelas plantas na superfície.

“Os nutrientes derivados dos pinguins tornam esses solos de tundra biologicamente ativos. Sob menor radiação ultravioleta, esse ambiente rico em nutrientes pode amplificar a perda respiratória de carbono do ecossistema”, declarou o pesquisador associado Tao Bao, do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências e primeiro autor do estudo, em tradução livre.

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Dados e parâmetros do experimento na Ilha Ardley

  • Local de instalação: parcelas de vegetação na Ilha Ardley, Antártica.
  • Instituições participantes: Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências e Universidade de Ciência e Tecnologia da China.
  • Publicação do artigo: Atmospheric and Oceanic Science Letters, em 22 de junho de 2026.
  • Corte de 20% de radiação ultravioleta: redução de 50% na capacidade da tundra de reter carbono.
  • Corte de 50% de radiação ultravioleta: queda de cerca de 80% na absorção de carbono.
  • Pico de emissão líquida de carbono: 145 mg/m²/h medidos entre fevereiro e março.

Protocolo de Montreal e a recomposição prevista para 2066

As mudanças biológicas observadas na Ilha Ardley decorrem do avanço das metas do Protocolo de Montreal, tratado internacional firmado em 1987 para banir gases prejudiciais à atmosfera. Desde a ratificação do documento, a eliminação global de substâncias destruidoras da camada de ozônio, como os clorofluorcarbonetos, atingiu 99% das emissões reguladas.

De acordo com projeções da Organização Meteorológica Mundial, a reconstituição completa da camada de ozônio sobre a Antártica aos parâmetros registrados em 1980 deve se consolidar no ano de 2066. O estudo chinês indica que o avanço dessa recuperação na alta atmosfera traz impactos ecológicos secundários que ainda precisam ser inseridos nos modelos climáticos globais.

Extensão continental das mudanças na tundra polar

Apesar dos dados colhidos na Ilha Ardley, os pesquisadores relatam que ainda não se sabe a dimensão exata em que o efeito se repetirá em toda a extensão do continente antártico. As conclusões foram obtidas em parcelas experimentais locais, exigindo novas campanhas de campo para determinar a amplitude da perda de absorção de carbono em outras regiões da tundra polar antes de 2066.