Dívida pública federal tem R$ 886,3 bilhões com estrangeiros em meio a choques externos

dívidas serasa

Africa Studio/Shutterstock.com

Investidores estrangeiros aumentaram a participação na dívida pública federal interna brasileira para R$ 886,3 bilhões em agosto de 2026, atingindo 9,91% de todo o estoque emitido pela União. O crescimento ocorre em meio à avaliação de como a liquidez internacional e a política monetária de bancos centrais externos, como o Banco do Japão, repercutem sobre os ativos e o fluxo financeiro do país.

O dado integra o levantamento da série de reportagens Olho no Japão, que detalha os canais de transmissão pelos quais eventuais aumentos de juros promovidos pela autoridade monetária japonesa afetam os mercados emergentes. No mês anterior, em julho de 2026, os não residentes tinham R$ 879,07 bilhões aplicados nesses papéis, fatia correspondente a 9,82% do estoque total apurado pelo Tesouro Nacional.

Como a liquidez internacional do Japão alcança os ativos brasileiros?

O impacto de oscilações financeiras externas não exige remessas físicas diretas de moeda japonesa para atingir as negociações em território nacional. O Brasil oferece mercados profundos e com alto volume transacionado, permitindo que grandes fundos globais ajustem suas carteiras rapidamente tanto para ampliar o risco quanto para desmontar posições especulativas de carry trade, estratégia em que investidores tomam recursos emprestados em moedas de juros baixos para aplicar onde o rendimento é maior.

Contas, dívidas, calculadora no celular – simon2579/ istockphoto.com

Segundo a pesquisa trienal do Banco de Compensações Internacionais, o BIS, as operações de balcão no mercado de câmbio envolvendo o real movimentavam cerca de US$ 90 bilhões por dia em abril de 2025. A maior parcela desse volume, totalizando US$ 61 bilhões diários, correspondia a contratos a termo, conhecidos como outright forwards, enquanto as negociações no mercado à vista somavam US$ 15 bilhões por dia. Essa estrutura permite a montagem de proteções e apostas futuras de grande porte sem a necessidade de transferências bancárias imediatas entre os países.

Câmbio e derivativos concentram volume de negociação internacional

Além do mercado de moedas, o segmento internacional de derivativos de juros denominados em moeda brasileira apresentou forte expansão nos últimos anos. O giro médio diário saltou de menos de US$ 2 bilhões em 2022 para US$ 9,2 bilhões em abril de 2025 no mercado de balcão, o que representa uma multiplicação por quase cinco vezes em um intervalo de três anos, de acordo com as informações apuradas pelo BIS.

A velocidade de ajuste desses instrumentos foi observada em setembro de 2026, quando fundos alavancados monitorados pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos, a CFTC, realizaram uma virada equivalente a mais de 72 mil contratos em iene. Enquanto reduziam as apostas contra a moeda japonesa e passavam a comprá-la, esses gestores diminuíram em aproximadamente 40% a posição líquida comprada em real ao longo de apenas duas semanas.

Saiba mais: Iene fraco e juros altos no Japão elevam preocupações sobre o mercado de bitcoin

  • R$ 886,3 bilhões em estoque de títulos da dívida pública federal interna com investidores não residentes em agosto de 2026.
  • 9,91% de participação estrangeira sobre o total da dívida pública brasileira no mesmo período.
  • R$ 1,208 trilhão mantido na reserva de liquidez do Tesouro Nacional para honrar vencimentos da dívida.
  • US$ 90 bilhões negociados em média por dia no mercado de câmbio de balcão envolvendo o real em abril de 2025.
  • US$ 61 bilhões transacionados diariamente em contratos de câmbio a termo no levantamento do BIS.
  • US$ 9,2 bilhões diários movimentados em derivativos de juros em moeda brasileira no exterior.
  • 40% de redução na posição líquida comprada em real por fundos na CFTC em setembro de 2026.

Tesouro Nacional mantém colchão financeiro e base interna de investidores

Apesar da sensibilidade dos preços de mercado às movimentações externas, a capacidade do governo de gerenciar seus passivos conta com amortecedores internos. O colchão de liquidez mantido pelo Tesouro Nacional encerrou agosto de 2026 em R$ 1,208 trilhão, montante suficiente para cobrir os vencimentos de títulos federais por um período de cerca de 7,2 meses. O estoque total da Dívida Pública Federal somou R$ 9,293 trilhões no encerramento daquele mês.

A composição dos detentores da dívida pública evidencia que a maior parte dos papéis permanece nas mãos de instituições nacionais. Os bancos instalados no país concentravam 31,22% do montante total em agosto de 2026, seguidos pelo setor de previdência, com 22,63%, e pelos fundos de investimento, detentores de 22,52%. Essa estrutura mitiga o risco de refinanciamento do Estado mesmo diante de oscilações bruscas nas taxas de juros ou no câmbio decorrentes do cenário externo.

Continue lendo: Tesouro Nacional libera saque de cotas do PIS/PASEP em 2026

Cenário político e taxas domésticas influenciam decisões de gestores

O comportamento dos ativos locais também responde a fatores domésticos que contrabalançam os choques externos. Em 5 de outubro de 2026, no pregão seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais, o real registrou valorização de mais de 4% em relação ao dólar e o índice acionário Ibovespa subiu 7,7%, refletindo a reação de investidores ao ambiente político nacional, em movimento conhecido no mercado como Flávio Trade.

Gestores de grandes fundos internacionais apontam que as taxas brasileiras sustentam a atratividade dos papéis locais. Grégoire Pesques, diretor de investimentos de estratégias de renda fixa da gestora Amundi, destacou que o patamar nominal acima de 14% e os juros reais próximos de 9% mantêm favorável a relação entre risco e retorno. Já Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da gestora PIMCO, afirmou que a tese de investimento nesses mercados permanece de pé e que as análises sobre o risco estão “em curso”, exigindo atenção aos canais de câmbio e ao prêmio exigido pelos credores.

O montante exato de recursos operados no Brasil que utilizam financiamento direto na moeda japonesa não é conhecido nem rastreável de forma pública, em razão do predomínio de contratos derivativos e negociações fechadas em balcão fora do país. A série de reportagens do Radar Econômico prevê a publicação de uma quinta matéria, abordando o ritmo em que a economia do Japão reduz o financiamento concedido ao mercado internacional.