O satélite militar russo Cosmos 2612 realizou uma série de manobras deliberadas na órbita terrestre baixa a região espacial mais próxima da Terra entre sexta-feira (16) e esta segunda-feira (19) para se aproximar do satélite comercial norte-americano ICEYE-X36. A operação reduziu a distância entre os dois aparelhos de cerca de 320 km (mais de 200 milhas) para aproximadamente 5 km (3 milhas) na sexta-feira, atingindo uma aproximação máxima estimada de 26 metros (cerca de 85 pés) nesta segunda-feira.
O ICEYE-X36 é um equipamento de radar de abertura sintética (tecnologia capaz de gerar imagens detalhadas da superfície terrestre mesmo sob nuvens ou no escuro) registrado nos Estados Unidos pela divisão norte-americana da empresa de origem finlandesa ICEYE, cuja constelação fornece inteligência militar à Ucrânia. O astrofísico e rastreador independente de satélites Jonathan McDowell classificou a manobra como o primeiro encontro na órbita terrestre baixa entre dois satélites ativos sem o consentimento do proprietário de um deles. “Novos dados orbitais mostram que o K2612 fez uma manobra em 16 de outubro e agora mantém posição a 5 km ou menos do ICEYE X36. Até onde sei, este é o primeiro encontro em órbita terrestre baixa de dois satélites ativos em que o proprietário de um dos satélites não deu aprovação”, afirmou McDowell, em tradução livre.
Rastreamento do Cosmos 2612 e dados de aproximação na órbita baixa
Os dados de monitoramento da plataforma Orbital Radar indicaram que o momento de menor distância entre o Cosmos 2612 (identificado pelo código de catálogo espacial NORAD 68762) e o ICEYE-X36 (NORAD 59103) ocorreu a uma altitude orbital de 541 km, com velocidade relativa de 0,00 km/s entre os dois objetos. Antes disso, a empresa de inteligência e monitoramento espacial LeoLabs havia detectado a redução brusca de distância na tarde de sexta-feira, apontando que o movimento parecia ser uma abordagem intencional.
A empresa suíça de consciência situacional espacial S2A Systems também registrou em vídeo a passagem conjunta dos satélites ICEYE-X36 e Cosmos 2612 sobre a América do Sul no domingo (18). Em comunicado sobre o caso, a LeoLabs declarou que, “embora a intenção permaneça incerta, o comportamento justifica monitoramento contínuo”. O serviço Orbital Radar avaliou a gravidade da operação: “Este é um encontro transfronteiriço entre objetos de diferentes nações, o tipo de evento observado de perto por suas implicações na segurança espacial”.
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A sequência de eventos que levou o equipamento russo a encostar no satélite norte-americano envolveu lançamentos e semanas de ajustes de trajetória:
- 4 de março: lançamento do satélite comercial norte-americano ICEYE-X36.
- 16 de abril de 2026: lançamento do satélite militar russo Cosmos 2612 (COSPAR 2026-083H) a partir do Cosmódromo de Plesetsk, base espacial localizada no norte da Rússia.
- 30 de setembro de 2026: início da série de ajustes orbitais do Cosmos 2612 para sincronizar seu plano orbital e sua altitude com o ICEYE-X36.
- Segunda-feira, 12 de outubro de 2026: o satélite russo realiza uma manobra que altera sua velocidade em cerca de 27,9 m/s para ajustar a altitude próxima à do equipamento norte-americano, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, instituto de pesquisa em segurança e política externa sediado em Washington).
- Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: os satélites realizam novo ajuste e ainda estão separados por mais de 200 milhas (cerca de 320 km) de distância.
- Sexta-feira, 16 de outubro de 2026: o Cosmos 2612 reduz a distância em relação ao ICEYE-X36 para cerca de 3 milhas (aproximadamente 5 km).
- Segunda-feira, 19 de outubro de 2026, às 02h06 UTC (23h06 de domingo no horário de Brasília): o Cosmos 2612 é registrado a aproximadamente 640 metros atrás e 2 km acima do ICEYE-X36.
- Segunda-feira, 19 de outubro de 2026, às 16h07 UTC (13h07 no horário de Brasília): horário de máxima aproximação calculada de 26 metros (cerca de 85 pés) entre os dois satélites.
Riscos de colisão com o ICEYE-X36 e alertas sobre queima de combustível
Na órbita terrestre baixa, os objetos viajam a uma velocidade aproximada de 17.000 milhas por hora, o que torna manobras de proximidade operações de alto risco. Aaron Brynildson, professor de direito espacial na Universidade do Mississippi, explicou que não existe um limite legal estrito sobre a distância mínima entre satélites, mas os países geralmente mantêm ao menos 6 milhas (9,7 km) de separação por segurança. Segundo Brynildson, em distâncias menores, se “o satélite-alvo e o satélite perseguidor se movessem ao mesmo tempo, a probabilidade de colidirem um com o outro aumentaria significativamente”.
Analistas aeroespaciais e pesquisadores do CSIS alertaram que a disposição da Rússia em queimar o combustível escasso do equipamento para alterar altitude, velocidade e plano orbital sugere uma operação intencional para inspecionar, espionar ou interferir em aparelhos ocidentais que apoiam a Ucrânia. Clayton Swope, diretor-adjunto do Projeto de Segurança Aeroespacial e pesquisador sênior de espaço do CSIS, afirmou na sexta-feira que a distância registrada colocava os equipamentos praticamente “para-choque com para-choque”. Para Greg Gillinger, analista espacial da empresa de consultoria e inteligência Integrity ISR, a movimentação foge do padrão. “Tudo isso é incomum e apenas aponta para um engajamento proposital entre a Rússia e um satélite operado pelo Ocidente que está apoiando a Ucrânia”, disse Gillinger.
Cooperação da ICEYE com a Ucrânia e histórico de manobras russas
As Forças Armadas da Ucrânia utilizam imagens de radar da ICEYE, incluindo dados de um satélite adquirido por meio de financiamento coletivo (vaquinha pública). Em janeiro de 2026, a empresa anunciou a assinatura de um acordo com um cliente dentro do Ministério da Defesa da Ucrânia para expandir a cooperação em inteligência espacial por meio de sua constelação de satélites. A aproximação russa ocorre em um momento em que o território ucraniano lida com interrupções de serviços de satélite em tempo real.
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Uma autoridade ucraniana confirmou que os militares do país utilizam os recursos da empresa finlandesa e afirmou que as forças de defesa não foram avisadas previamente sobre as manobras dos últimos dias, embora tenham recebido alertas sobre movimentações semelhantes na primavera e no verão do Hemisfério Norte. Em maio de 2026, satélites russos já haviam manobrado ao redor do ICEYE-X36; na ocasião, a Força Espacial dos Estados Unidos (ramo das Forças Armadas norte-americanas responsável por operações militares no espaço) informou que satélites da série Cosmos estavam posicionados perto de um satélite comercial ocidental de radar usado pela Ucrânia para inteligência de imagens.
Até o momento, a intenção exata do governo de Moscou com a aproximação — se espionagem de sinais, inspeção visual, teste de armamento antissatélite ou intimidação — permanece desconhecida, e não há confirmação oficial de que o satélite específico ICEYE-X36 forneça dados diretamente às Forças Armadas ucranianas. Procurados na sexta-feira e no sábado (17), o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (órgão equivalente ao Ministério da Defesa) e os porta-vozes da ICEYE recusaram-se a comentar o incidente.
