Apenas 71,04% da frota de ônibus municipais de São Paulo circulava às 14h40 deste domingo (25), dia do segundo turno das eleições presidenciais. O volume corresponde a 9.786 veículos nas ruas de um total de 13.767 coletivos da capital paulista, índice inferior aos 100% de operação exigidos pela Justiça Eleitoral.
Os números fazem parte de um levantamento em tempo real do aplicativo privado e gratuito de mobilidade BusInfo. Enquanto o sistema registrou 71,04% dos veículos fora das garagens, a coligação Brasil Pronto Pra Mais, do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e parlamentares do PSOL acionaram a Justiça Eleitoral denunciando que a administração municipal operava com cerca de 60% da frota.
Decisão judicial sobre a frota de São Paulo e denúncias do PT e do PSOL
A obrigatoriedade de colocar 100% da frota operacional nas ruas de São Paulo, em patamar compatível ao de dias úteis, foi determinada pelo juiz Tiago Ducatti Lino Machado, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo. A decisão atendeu a uma ação popular apresentada pela vereadora Luana Alves (PSOL), pela deputada estadual Mônica Seixas (PSOL-SP) e pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), fundamentada na Resolução nº 23.751/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF, ação no Supremo Tribunal Federal para evitar ou reparar lesão a preceito constitucional) nº 1.013. Na mesma ação, as parlamentares haviam solicitado a reserva mínima de 10% da frota para áreas periféricas e a entrega de um plano detalhado por linha, mas esse pedido específico foi negado pelo magistrado.
Em caso de descumprimento da ordem para operar com a totalidade dos veículos, a sentença estipulou multa pessoal de R$ 100 mil ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e ao presidente da São Paulo Transporte (SPTrans, gestora do sistema municipal), Victor Hugo Borges, além da possibilidade de configuração de crime eleitoral. Diante da quantidade reduzida de coletivos nas ruas, o diretório estadual do PT em São Paulo declarou que pedirá a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Jorge Caldeira, sob a alegação de operação com 60% da frota.
“A consequência é concreta e imediata, pois a redução de cerca de 40% (quarenta por cento) da frota no dia da votação aumenta o tempo de espera, a lotação dos veículos e o custo do deslocamento, atingindo sobretudo o eleitorado de menor renda, que depende do ônibus para chegar ao seu local de votação”, afirmou a coligação Brasil Pronto Pra Mais na petição enviada à Justiça Eleitoral.
Justificativa da SPTrans sobre o prazo de notificação do TRE-SP
A SPTrans declarou, em nota oficial, que recebeu a notificação do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) com menos de 12 horas de antecedência em relação ao início da operação de domingo. Segundo a empresa, todas as concessionárias responsáveis pelos 32 lotes operacionais do município foram avisadas 22 minutos após o recebimento da ordem judicial, mas o intervalo curto dificultou a reorganização imediata do serviço.
“É importante considerar, contudo, que a ampliação da frota em prazo tão reduzido impõe desafios operacionais concretos. Os operadores relataram dificuldades para readequar, de forma imediata, escalas de trabalho, jornadas e rotinas previamente organizadas. A programação dos profissionais também havia considerado o direito à folga e a organização necessária para assegurar o exercício do voto, o que torna ainda mais complexa uma alteração dessa magnitude na véspera da eleição”, disse a SPTrans em nota.
Cronologia da operação de ônibus em São Paulo nas eleições
- Dezembro de 2023 — Entra em vigor na capital paulista o programa Domingão Tarifa Zero, que garante gratuidade nos ônibus municipais aos domingos.
- 24 de outubro de 2026, às 13h10 — A SPTrans é notificada pelo TRE-SP sobre a decisão judicial que exige 100% da frota em circulação no segundo turno.
- 24 de outubro de 2026, às 13h32 — A gestora municipal comunica as concessionárias dos 32 lotes operacionais da cidade sobre a ordem da Justiça Eleitoral.
- 25 de outubro de 2026, às 14h40 — Monitoramento do aplicativo BusInfo registra 71,04% da frota municipal em operação (9.786 de 13.767 veículos).
Índices de circulação por região de São Paulo e tarifa gratuita para passageiros
O levantamento de dados do BusInfo às 14h40 apontou diferenças na distribuição dos ônibus pelas zonas da capital paulista. A região Sudeste apresentou o menor índice proporcional de atendimento, com 57,13% da frota em operação (745 veículos circulando e 559 recolhidos nas garagens, de um total de 1.304). Na outra ponta, a região Oeste teve o maior percentual de coletivos nas ruas, alcançando 75,02% (877 em atividade e 292 na garagem, de um total de 1.169 ônibus).
Nas demais áreas monitoradas às 14h40, a Zona Leste operava com 70,92% da frota (2.485 veículos), a Zona Sul registrava 70,27% (2.662 veículos, o maior volume absoluto em operação na cidade) e a Zona Norte contava com 69,68% (2.284 veículos). O sistema contabiliza os ônibus que saíram das garagens, mas há denúncias ainda não confirmadas de que parte dos veículos deixou as garagens sem efetivamente circular pelas linhas.
Para os eleitores e demais usuários que dependem do transporte coletivo municipal em São Paulo durante o domingo de votação, o embarque nos ônibus é gratuito (R$ 0,00), benefício garantido pelo programa Domingão Tarifa Zero e pelas normas do TSE e do STF para o pleito. Apesar da isenção tarifária, passageiros relataram longas esperas nos pontos de parada e dificuldades de deslocamento nos bairros Jaraguá e Vila Zilda (Zona Norte), na Avenida Ibirapuera, na Estrada do M’Boi Mirim e no Jardim Ângela (Zona Sul), além do Itaim Paulista (Zona Leste).
Comparação da frota de São Paulo com o primeiro turno e finais de semana
Fora do período eleitoral, a frota municipal de São Paulo opera habitualmente aos domingos com cerca de 35% do total de veículos, o que representa aproximadamente 4.900 ônibus nas ruas, enquanto aos sábados o índice padrão é de 50%, equivalente a cerca de 6.900 coletivos. No primeiro turno das eleições de 2026, a Prefeitura de São Paulo adotou a tabela operacional de sábado, colocando cerca de 6,9 mil ônibus em circulação, com oferta aproximada de 8 milhões de lugares e registro de 3,4 milhões de passageiros transportados. Em nota, a SPTrans informou que permanece monitorando a disponibilidade da frota junto às concessionárias durante o segundo turno.
