Fóssil de 115 milhões de anos guarda penas de pterossauroPor Janderson Luiz
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Pesquisadores descreveram um pterossauro brasileiro de cerca de 115 milhões de anos com penas ramificadas e pigmentos fossilizados, e o achado levanta novas questões sobre a origem das penas. O estudo foi publicado na revista Nature em 20 de abril de 2022 e se baseia em um crânio parcial da espécie Tupandactylus imperator, encontrado na Formação Crato, na Bacia do Araripe, no Nordeste.
Além do esqueleto, o fóssil preservou tecidos moles na crista, uma estrutura formada por pele sobre ossos finos. Ao microscópio eletrônico de varredura, a equipe identificou dois tipos de filamentos: monofilamentos finos, parecidos com pelos, e estruturas que se ramificam ao longo do comprimento.
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Filamentos ramificados se parecem com penas de aves
A paleontóloga Maria McNamara, da University College Cork, na Irlanda, uma das coordenadoras do estudo, defende que esses filamentos são penas. O principal argumento é que o fóssil tem filamentos simples e outros ramificados por toda a extensão, algo até então visto apenas em penas de dinossauros. Antes, boa parte dos pesquisadores chamava essas estruturas de pycnofibras, filamentos densos típicos da pele de pterossauros.
Melanossomos sugerem variação de cores
Melanossomos são organelas que produzem melanina, o pigmento que dá cor às penas e à pele. A equipe os encontrou na pele e nos dois tipos de filamento, e cada um tinha formato diferente. Nas aves atuais, a forma dessas estruturas está ligada à cor da plumagem, por isso os autores sugerem que o animal exibia tons variados. Desde 2008, paleontólogos usam melanossomos para estudar a cor de fósseis.
Os pesquisadores não conseguiram determinar as cores exatas. Pelo formato dos melanossomos, estimam que os monofilamentos fossem escuros e as penas ramificadas, mais claras, provavelmente em tons de marrom.
Penas podem ter surgido bem antes dos dinossauros terópodes
O estudo sugere que essas estruturas já existiam no ancestral comum de pterossauros, dinossauros e aves, há cerca de 250 milhões de anos. A ideia contraria a visão clássica de que penas complexas eram exclusivas de dinossauros terópodes e de aves. Se a hipótese se confirmar, a origem das penas recua muito no tempo.
Penas podem ter servido à temperatura e à sinalização visual
Os autores propõem que as penas ajudavam a regular a temperatura do corpo e a comunicação visual, como ocorre nas aves atuais. A crista poderia exibir cores para atrair parceiros ou intimidar rivais. Essas funções, porém, são hipóteses, e o artigo não traz prova direta de uso.
Por que as rochas do Araripe preservam tecidos moles
O calcário fino da região capturou detalhes que raramente sobrevivem, como pele, músculos e vasos sanguíneos. Pesquisadores brasileiros afirmam que bactérias que decompunham o tecido no fundo de um antigo lago podem ter contribuído para essa preservação. Os fósseis do Araripe, portanto, continuam a fornecer dados sobre o corpo de animais extintos.
Fóssil contrabandeado voltou ao Brasil em 2022
O espécime saiu do país de forma ilegal décadas antes e passou às mãos de um colecionador privado em Bruxelas, que o cedeu ao Real Instituto de Ciências Naturais da Bélgica. Em 2022, ele foi repatriado por meio de acordo entre a instituição belga e o governo brasileiro. Atualmente, está no Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro.
Pesquisadores divergem sobre chamar os filamentos de penas
Nem todos aceitam o termo. O britânico Michael Benton, da Universidade de Bristol, comentou o estudo na própria Nature e observa que os filamentos de pterossauros costumam não ter raque, a haste central das penas. Ele também admite a possibilidade de que as estruturas escuras não sejam melanossomos. Os autores defendem a análise, e os pesquisadores afirmam que são necessários mais fósseis do Araripe para resolver a discussão.















