Nova espécie de cacto descoberta na Bahia corre risco de extinçãoPor Beatriz
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Cientistas identificaram uma nova espécie de cacto na Caatinga baiana que já foi enquadrada como Criticamente em Perigo de extinção logo no momento de sua descrição formal. Batizada de Quiabentia pelodaserra, a planta representa o primeiro achado inédito pertencente a esse gênero botânico desde 1923, quebrando um intervalo de 103 anos sem registros similares na literatura científica internacional. O vegetal restringe-se a uma área estimada em 72 quilômetros quadrados, cercada por atividades de mineração e lavouras agrícolas.
O achado inicial ocorreu durante expedições de campo realizadas em 2025 pelo botânico José Alves Siqueira, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A confirmação taxonômica e a descrição morfológica contaram com o trabalho conjunto dos especialistas Daniela Zappi e Nigel Taylor, culminando na publicação do artigo na revista científica britânica Bradleya.
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Flores noturnas e espinhos finos revelam planta inédita
A vegetação rupestre onde o vegetal habita localiza-se sobre afloramentos de calcário na divisa entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte da Bahia. O acesso ao ponto exato do registro exigiu caminhadas entre paredões e rochas pontiagudas típicas do relevo semiárido.
Diferente das outras duas espécies conhecidas do gênero, cujas pétalas são róseas e diurnas, a nova planta exibe flores brancas e tubulares que se abrem exclusivamente ao anoitecer. Essa estrutura floral possui uma cavidade avantajada para armazenamento de néctar e passa a pender para baixo quando atinge a maturidade reprodutiva. O caule fino conta ainda com folhas reduzidas, seiva de odor acre e espinhos diminutos que aderem com facilidade à pele e aos tecidos de quem caminha pelo terreno.
O nome popular Pelo da Serra, atribuído pelos moradores da região rural circunvizinha, acabou incorporado ao nome científico formal como reconhecimento à sabedoria botânica da população local.
Hipótese de polinização por morcegos intriga botânicos
A morfologia floral noturna gerou uma suspeita ecológica inédita para os pesquisadores envolvidos no trabalho de campo. Caso venha a ser comprovado que morcegos visitam e fecundam essas flores, o fenômeno representará o primeiro caso documentado desse tipo de polinização em cactáceas pertencentes ao grupo dos opuntioides. As espécies aparentadas Quiabentia zehntneri e Quiabentia verticillata, registradas no início do século passado, dependem exclusivamente da ação diurna de abelhas e beija-flores para a dispersão de pólen.
As variações estruturais entre os três vegetais concentram-se principalmente nas sementes, nos frutos e nas peças reprodutivas florais.

Pressões sobre o habitat motivam cultivo preventivo
A sobrevivência da planta em ambiente selvagem enfrenta ameaças diretas da mineração de calcário, do sobrepastoreio praticado por rebanhos de ovelhas, da abertura de estradas e do avanço das fronteiras urbanas e agrícolas sobre as chapadas. Por causa dessas pressões antrópicas imediatas e da extensão territorial diminuta, os botânicos classificaram a espécie no grau mais severo da escala de ameaça antes do desaparecimento total da natureza.
Como medida preventiva de salvaguarda genética, duas mudas do cacto foram coletadas e permanecem sob cuidados no Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas das Caatingas, sediado no campus de Ciências Agrárias da Univasf, em Petrolina. O trabalho agora concentra-se no diálogo com prefeituras e comunidades locais para traçar zonas de proteção no afloramento rochoso e viabilizar futuros planos de reintrodução de sementes.















