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Falhas persistentes no sistema Meu INSS atrasam concessão de aposentadorias e elevam volume de processos

Aplicativo Meu INSS
Foto: Aplicativo Meu INSS - rafastockbr / Shutterstock.com
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Uma professora, que prefere ter sua identidade preservada e foi nomeada como Tatiana, aguardou com expectativa seu 62º aniversário. Em abril, ao atingir a idade legal para solicitar sua aposentadoria junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ela esperava finalmente obter a aprovação do benefício, após uma tentativa anterior, há aproximadamente dois anos, ter sido recusada, mesmo com seus mais de 30 anos de contribuição.

Contudo, a efetivação do pedido só ocorreu no começo de junho, quando Tatiana conseguiu submeter a requisição através do Meu INSS. Esta plataforma digital da Previdência, que disponibiliza mais de uma centena de serviços e contabiliza aproximadamente 105 milhões de acessos mensais, tem sido alvo de reclamações constantes de usuários que reportam instabilidades e erros.

Intercorrências, como a interrupção no funcionamento do sistema e a terminologia complexa, podem impactar diretamente a gestão da fila de benefícios, questão prioritária para a administração do governo Lula. Muitos indivíduos têm seus pedidos recusados de maneira automatizada, considerando que 50% das solicitações passam por esse tipo de avaliação.

Um levantamento interno, conduzido pelo próprio INSS no primeiro semestre de 2025 e acessado pela Folha, revelou que dos 543.419 pedidos processados eletronicamente, 280.231 foram rejeitados. Esse montante representa uma taxa de reprovação de 51,57% nas análises automáticas.

Tribunal de Contas da União exige correções nas análises do INSS

Recentemente, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou irregularidades no processo de concessão automática de benefícios. O órgão estabeleceu que o INSS, o Ministério da Previdência Social e a Dataprev, empresa de tecnologia responsável pelos sistemas, implementem as devidas alterações em um prazo máximo de 180 dias.

De acordo com o parecer do tribunal, as dificuldades encontradas têm repercussões na fila de requerimentos, que chegou a superar a marca de 3 milhões em fevereiro. O número foi reduzido para 2,191 milhões em maio, o que, conforme o próprio INSS, representa uma queda de 30% e o menor patamar dos últimos 17 meses.

Profissionais da área previdenciária alertam que a complexidade de utilização do Meu INSS pode excluir segurados do acesso ao sistema, impedindo-os de entrar na contagem oficial da fila. Além disso, as recusas automáticas frequentemente resultam em novos pedidos ou interposição de recursos, elevando o volume geral de processos.

O advogado previdenciário Rômulo Saraiva, que também é colunista da Folha, destaca que a plataforma tem indeferido benefícios em larga escala sem apresentar justificativa clara. Saraiva ressalta que, apesar das otimizações, o Meu INSS ainda carece de facilidade de uso para a maioria dos beneficiários.

“Ao se deparar com uma falha, o segurado precisa reiniciar todo o processo”, explica. O jurista também evidencia a volatilidade do sistema, caracterizada por lentidão excessiva, interrupções constantes e defeitos que podem comprometer o cumprimento de prazos importantes.

A professora Tatiana relatou ter enfrentado seguidas interrupções na plataforma e pequenos erros, como dificuldades ao inserir o e-mail pelo aplicativo. Mesmo com mais de 34 anos de contribuição ao INSS —somando períodos como docente e consultora—, o que superaria os 30 anos exigidos para a aposentadoria por contribuição feminina, ela optou por aguardar a idade mínima de 62 anos, estabelecida pela reforma da Previdência de 2019.

Outro caso é o de Angélica, que fez 60 anos no início de maio. Após a reforma previdenciária de 2019, ela esperava por uma modalidade de transição que lhe fosse mais favorável para requerer seu benefício. Embora contasse com mais de 34 anos de contribuição e somente oito meses de inatividade profissional em toda sua trajetória, a reforma a obrigou a adiar a solicitação por cinco anos, justamente quando estava a poucos meses de ter seu direito consolidado.

Angélica programou-se para aguardar seu aniversário em 2026, visando enquadrar-se na regra do pedágio de 100%. Esta modalidade exige que o contribuinte trabalhe e aporte mais 100% do tempo que ainda faltava para se aposentar na data da promulgação da emenda constitucional 103, mesmo tendo a opção de ter solicitado o benefício meses antes por intermédio de outras normas de transição.

No entanto, ela não previu as dificuldades que encontraria ao utilizar o Meu INSS. Angélica teve problemas para verificar as datas de todos os seus vínculos empregatícios, devido a inconsistências no sistema, e desconhecia a importância de consultar o Cadastro Nacional de Informações Sociais (Cnis). Adicionalmente, o simulador do INSS gerou confusão, pois a plataforma indica que o resultado da simulação não assegura a concessão do benefício.

Adriane Bramante, advogada e conselheira da comissão de direito previdenciário da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), aponta que uma das maiores questões reside nas imprecisões do Cnis e do simulador de aposentadoria. Estes não contemplam cenários específicos, como a conversão de tempo especial, aposentadoria especial, a de professores ou a destinada a pessoas com deficiência.

“A ferramenta de simulação é deficiente, e os valores de renda ou períodos de contribuição podem ser calculados incorretamente quando há informações ausentes no Cnis”, explica Adriane Bramante.

TCU
TCU – Foto: Arnaldo Jr / Shutterstock.com

Relatório interno do INSS detalha falhas na concessão automática

Durante a auditoria de 2025, o próprio INSS reconheceu deficiências no processo de concessão automática. O relatório indica que falhas na comunicação com os usuários resultam em dados imprecisos e afetam negativamente a avaliação das solicitações.

Da análise de 261 requerimentos recusados, 110 (equivalente a 42,14%) exibiam inconsistências entre o que os solicitantes declararam, os documentos apresentados e os registros do Cnis. O documento também destacou a ausência de clareza nas orientações aos segurados e discrepâncias entre a renda projetada no momento da solicitação e o montante real concedido, observadas em 83,33% dos casos examinados (50 de 60 processos).

Leonardo Fonseca, diretor do Sindicato dos Trabalhadores do Seguro Social e Previdência (SINSSP-BR), declara que as dificuldades vivenciadas pelos segurados também se estendem aos funcionários. Ele aponta que nas unidades do INSS há computadores que não são compatíveis com os softwares da Dataprev, conexão de internet instável e um quadro de funcionários insuficiente.

Fonseca detalha que o número de servidores diminuiu significativamente, passando de 40 mil em 2018 para aproximadamente 19,6 mil. Ele menciona, ainda, que o sistema apresentou intermitência entre janeiro e o começo de maio, e que, mesmo com a recente atualização dos equipamentos, as falhas persistem. “Sempre que a folha de pagamento é processada, passamos de um a três dias sem acesso a certos sistemas”, completa.

Posicionamento oficial do INSS e Dataprev sobre as supostas falhas

Em uma nota conjunta, o INSS e a Dataprev negam a existência de falhas generalizadas, atribuindo os relatos a “ocorrências pontuais”. A Dataprev garante que seus serviços operam com um índice de disponibilidade de 98%.

“Até meados de junho de 2026, o registro mais baixo de disponibilidade foi de 98,50%. Nos anos de 2024 e 2025, os mesmos serviços mantiveram um nível de disponibilidade acima de 96%. Entre 2022 e 2023, o percentual mínimo registrado foi de 98,39%, o que comprova a estabilidade do sistema”, afirma a nota.

A Dataprev também esclarece que o reconhecimento automatizado de direitos é realizado por meio da aplicação de legislações e regulamentos específicos, utilizando o cruzamento de dados de diversas bases governamentais, sem a utilização de robôs.

“A conclusão automática de um requerimento só acontece quando os dados apresentados permitem uma deliberação imparcial e incontestável. Caso seja necessária uma investigação adicional ou se as informações não possibilitarem uma decisão automatizada, o processo é direcionado para a análise de um servidor do INSS”, detalha o comunicado.

Atualmente, aproximadamente 528 mil processos estão aguardando ações dos próprios segurados, o que significa que mais de 20% do total da fila de espera depende da entrega de documentos ou de outras providências dos requerentes.

Entenda como solicitar benefícios pelo Meu INSS

Para iniciar o processo de solicitação de benefícios, a Previdência Social orienta a utilização do Meu INSS. Primeiramente, é necessário selecionar o tipo de benefício desejado na seção “Serviços”. Durante o preenchimento, não há necessidade de especificar a regra de aposentadoria pretendida, visto que o INSS realiza a análise com base nos dados do Cnis e em outras informações disponíveis. “Essa etapa, de fato, ocorre de forma automática”, esclarece a instituição.

O sistema, então, exibirá a etapa “Relações Previdenciárias”, que lista todos os vínculos registrados no Cnis. Nesta interface, o usuário deve revisar os períodos de trabalho ou de contribuição, com a opção de adicionar vínculos não registrados ou corrigir dados, conforme a necessidade.

Nesta mesma fase, é fundamental declarar quaisquer períodos de atividade rural, tempo de serviço em condições especiais ou tempo de serviço público. O anexo de documentos não é mandatório durante a submissão inicial do requerimento, podendo-se prosseguir sem essa ação. Entretanto, se houver a necessidade, o INSS poderá posteriormente solicitar a apresentação dos documentos indispensáveis para a análise.

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