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O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou, na última segunda-feira, 14 de julho, a elevação obrigatória do percentual de etanol anidro na gasolina, que passará de 30% para 32%. A alteração está prevista para entrar em vigor a partir de 1º de agosto, após publicação no Diário Oficial da União (DOU), e terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período.

O governo, entretanto, já avalia a possibilidade de elevar ainda mais o teor de etanol na mistura, com planos de atingir 35%. Diante dessas mudanças, surge uma questão importante para os proprietários de veículos: qual será o verdadeiro efeito da nova composição da gasolina sobre os motores dos automóveis?

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A resposta para essa questão é complexa e depende de diversos fatores, como o modelo do carro e sua origem de fabricação. Apesar disso, entidades representativas dos setores de distribuição e importação de combustíveis manifestaram preocupação. Elas alertam para o impacto que a mudança pode gerar nos motores, especialmente considerando que cerca de 15% da frota nacional não é composta por veículos flex (compatíveis com gasolina e etanol), e a medida foi tomada sem a conclusão de estudos e testes técnicos prévios.

Segundo a avaliação do professor Marcio D’Agosto, que leciona na Coppe/UFRJ, a alteração não deverá afetar significativamente a motorização nem a frequência de manutenções em carros fabricados no Brasil. Contudo, ele enfatiza que os donos de veículos importados poderão notar uma diferença no desempenho ao acelerar.

O professor explica que, devido à vasta frota de veículos flex no Brasil, não se esperam grandes impactos tecnológicos para esses modelos. No entanto, para os importados, a situação muda, pois o etanol possui um poder calorífico distinto. Ele recorda a introdução e a popularização dos carros bicombustíveis no país a partir do início dos anos 2000.

Ponteiro, marcador gasolina
Ponteiro, marcador gasolina – Evgenius1985/shutterstock.com

Os impactos da nova mistura em carros seminovos e importados

A mudança na proporção de etanol não deve causar problemas aos veículos seminovos, que já se beneficiam da tecnologia flex, amplamente difundida há anos. D’Agosto comenta que as montadoras que importam seus carros para o mercado brasileiro já os programam para operar com certo nível de etanol. Mesmo assim, o aumento do percentual pode, de fato, diminuir a responsividade do motor.

Ele detalha que os motores de carros importados são projetados para as especificações da gasolina dos seus países de origem. Embora os fabricantes realizem adaptações eletrônicas para o mercado brasileiro, o aumento do teor de etanol pode resultar em perda de rendimento, já que esse combustível tem um poder calorífico inferior.

Percentuais de etanol em outros países são menores que no Brasil

Em regiões como Estados Unidos, Europa e Ásia, o etanol também é usado como aditivo na gasolina, porém em proporções bem mais modestas que no Brasil. Na Europa, a gasolina com 5% ou 10% de etanol é comum, enquanto nos EUA a adição usual é de 10%. No Japão, o teor é ainda menor, de apenas 3%.

Além do impacto em carros de passeio, o professor D’Agosto ressalta que uma eventual alteração no percentual de biodiesel no diesel teria consequências mais significativas, especialmente em caminhões mais antigos. Isso se deve às características solventes e de atração de água do biodiesel, que promovem uma “limpeza” nos sistemas de alimentação, aumentando a necessidade de manutenção.

Ele explica que caminhões antigos podem ter mais gastos com manutenção, mas não necessariamente problemas mecânicos graves. Com o tempo, esses veículos acumulam resíduos, e o biodiesel age como um agente de limpeza, desincrustrando a sujeira. Isso exigiria maior frequência de limpeza de bicos e troca do filtro de diesel, embora veículos de carga mais novos já sejam desenvolvidos com a mistura em mente.

D’Agosto também menciona que os tanques de armazenamento de diesel, encontrados em garagens e postos, também demandariam mais manutenção devido às propriedades do biodiesel.

Associações do setor expressam preocupação com a mudança

Em nota conjunta, a Brasilcom (setor de distribuição), a Abicom (importadores), a Fecombustíveis (postos) e o SindTRR (transporte revendedor) manifestaram apreensão. A preocupação das associações se dá pelo aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina sem que os estudos e testes técnicos necessários tenham sido previamente concluídos.

As entidades afirmam que a principal preocupação é com os possíveis impactos na frota de veículos leves, visto que cerca de 15% dos carros no país não são flex, segundo os dados das próprias associações. Elas também citam efeitos em embarcações de pequeno porte e motocicletas que funcionam exclusivamente com gasolina.

Como o aumento do etanol pode elevar seus gastos no abastecimento

Entre os reflexos potenciais do aumento do etanol, estão alterações no desempenho, na durabilidade dos componentes e nos custos de manutenção, afetando diretamente os usuários desses veículos. As associações afirmaram que “o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina acima dos atuais 30% também requer a realização de testes específicos para que se determine, com segurança, a sua viabilidade”.

As associações ainda alertam que, embora a adição de etanol na gasolina possa reduzir o preço do litro nas bombas, o combustível de cana-de-açúcar tem menor densidade energética. Isso significa que o motorista poderá gastar mais para percorrer a mesma distância, necessitando abastecer com maior frequência.

Adicionalmente, elas recordam que o aumento da participação do etanol exige ajustes regulatórios nas especificações da gasolina. Isso inclui, principalmente, a octanagem – um índice que mede a resistência do combustível à detonação prematura e impacta o desempenho do motor – e a massa específica, que se refere à densidade do combustível.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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