Bebidas energéticas aumentam riscos ao coração; café oferece proteção cardiovascular

Café
Foto: Café - Foto: Mocomoo/ shutterstock

Um novo estudo científico da Associação Americana do Coração trouxe à luz a complexa relação entre o consumo de cafeína e a saúde cardiovascular, indicando que o café pode proteger o coração, enquanto doses elevadas de bebidas energéticas podem ser prejudiciais. A cafeína é o estimulante mais consumido globalmente, sendo o café a principal forma de ingestão para a maioria das pessoas.

Para muitos adultos, a ingestão moderada de até 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a cerca de cinco xícaras de café de 240 mililitros, é considerada segura e pode estar associada a um menor risco de doenças cardiovasculares. Essa quantidade não deve incluir açúcares ou outros ingredientes adicionados.

No entanto, o cenário muda drasticamente com fontes concentradas de cafeína. Bebidas energéticas, inclusive aquelas em dose única, podem elevar significativamente o risco de problemas cardiovasculares, um fato que merece atenção redobrada. Essas descobertas foram detalhadas na *Circulation*, a revista científica de destaque da Associação Americana do Coração, em um artigo intitulado “Cafeína e Doenças Cardiovasculares”.

Entenda por que a pesquisa sobre a cafeína é complexa

energético

Foto: energético – Foto: narvo vexar/iStock.com

A compreensão exata dos efeitos da cafeína no sistema cardiovascular é um desafio, principalmente porque o café, sendo a fonte principal na maioria dos estudos, contém diversas outras substâncias com potencial impacto na saúde. Pesquisas experimentais sugerem que alguns compostos bioativos presentes no café possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, que podem contribuir para seus benefícios.

Além disso, é difícil isolar os efeitos puros da cafeína dos impactos causados pelos ingredientes frequentemente adicionados ao café, como leite, creme, xaropes e açúcar. A maior parte dos estudos sobre cafeína é de natureza observacional, o que significa que eles conseguem identificar associações, mas não estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a cafeína e os resultados de saúde.

É importante lembrar que o café não é a única fonte de cafeína. Chá, chocolate, refrigerantes e bebidas energéticas, além de medicamentos de venda livre e com receita, também contribuem para a ingestão diária de uma pessoa. Pesquisadores destacam a necessidade de mais estudos para esclarecer o teor de cafeína e os efeitos cardiovasculares desses outros produtos, que muitas vezes possuem composições variadas.

A declaração recém-divulgada revisa evidências sobre o café cafeinado e suas possíveis conexões com hipertensão, colesterol alto, diabetes tipo 2, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e outras arritmias e doenças cardiovasculares, oferecendo um panorama abrangente sobre o tema.

Quantidade de cafeína: qual é considerada segura?

Com base nas pesquisas mais recentes analisadas, a ingestão de até 400 miligramas de cafeína por dia é vista como segura para a maioria dos adultos. Essa dosagem equivale a um máximo de três a cinco xícaras de 240 mililitros de café preto comum, sem adição de açúcares, adoçantes, aromatizantes ou aditivos.

O café comum, sem especialidades, geralmente contém entre 9,4 e 20,6 miligramas de cafeína a cada 30 mililitros. O consumo de café cafeinado puro, sem aditivos, foi associado a riscos menores de diabetes tipo 2, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e certas arritmias.

Ensaios randomizados, considerados os métodos de estudo mais rigorosos, associaram a cafeína do café a um menor risco de fibrilação atrial. Contudo, essa mesma pesquisa também apontou uma ligação com um risco maior de extrassístoles ventriculares.

A adição de açúcar, xaropes saborizados, leite e/ou creme ao café pode reduzir seus potenciais benefícios à saúde. Os pesquisadores indicam que mais estudos são necessários para determinar como esses ingredientes adicionais afetam os resultados de saúde de longo prazo.

O consumo excessivo de cafeína pode apresentar riscos mais elevados. Níveis comumente encontrados em bebidas energéticas, incluindo as versões em dose única, foram associados à hipertensão e arritmias cardíacas. As bebidas energéticas em dose única podem conter de 40 a 69 miligramas de cafeína a cada 30 mililitros (ou flocos), o que representa três a quatro vezes mais cafeína do que o café comum.

O que a cafeína provoca no corpo

Após a ingestão, a cafeína do café é processada pelo fígado e geralmente atinge sua concentração máxima no organismo em aproximadamente uma hora. A velocidade desse processo varia de pessoa para pessoa, influenciada por fatores como genética, metabolismo, idade e consumo prévio de cafeína.

Indivíduos que consomem grandes quantidades de café cafeinado regularmente podem desenvolver tolerância gradualmente, enquanto outros podem experimentar efeitos intensos mesmo com doses muito menores. A curto prazo, a cafeína pode elevar temporariamente a pressão arterial, a frequência cardíaca, os níveis de açúcar no sangue e o estado de alerta, podendo também causar palpitações e/ou distúrbios do sono em algumas pessoas.

Efeitos da cafeína na pressão arterial

O consumo de café pode influenciar a pressão arterial de diferentes maneiras, dependendo da quantidade ingerida. Em pessoas com pressão arterial normal, a ingestão de uma a três xícaras por dia foi associada a um risco ligeiramente maior de desenvolver hipertensão. Curiosamente, o consumo de mais de três xícaras diárias foi relacionado a um risco menor de hipertensão arterial.

Doses elevadas de cafeína, como as encontradas em bebidas energéticas ou em pó, podem provocar aumentos significativos na pressão arterial. Esse efeito é especialmente preocupante para indivíduos que já possuem pressão alta.

Possíveis consequências no diabetes tipo 2

Estudos apontam que o café com cafeína pode diminuir temporariamente a sensibilidade à insulina. Contudo, o consumo regular de café preto cafeinado, sem aditivos, aromatizantes ou adoçantes, foi associado a um menor risco de desenvolver diabetes tipo 2.

Os cientistas ainda não conseguem afirmar com certeza se a cafeína é a única responsável por essa associação. Outros compostos presentes no café podem ser os verdadeiros responsáveis por parte ou pela totalidade do benefício. Mais pesquisas são necessárias para diferenciar os efeitos da cafeína dos diversos compostos encontrados na bebida.

O preparo do café e seu impacto no colesterol

Pesquisas clínicas randomizadas demonstraram que o cafestol, uma substância presente tanto no café cafeinado quanto no descafeinado, está associado a níveis mais elevados de lipoproteína de baixa densidade, conhecida como colesterol “ruim”.

O cafestol é encontrado em cafés não filtrados, como expresso, café de prensa francesa, café turco ou café fervido, mas não está presente em cafés preparados com filtros de papel ou no café instantâneo. Os pesquisadores ainda precisam determinar quais produtos contêm os níveis mais altos de cafestol e como isso afeta diretamente os níveis de colesterol.

Cafeína e o ritmo do coração

Análises recentes, baseadas em informações de saúde auto-relatadas por participantes, revelaram que o consumo de uma a três xícaras de café com cafeína por dia não foi associado a um risco aumentado de fibrilação atrial ou de ritmos cardíacos anormais.

No entanto, essa mesma quantidade pode estar ligada a um número maior de contrações ventriculares prematuras, ou PVCs. Estas são contrações precoces que se originam na câmara inferior do coração.

Doses muito elevadas de cafeína, como as presentes em bebidas energéticas ou energéticos em pó, têm sido associadas a ritmos cardíacos anormais, mesmo em pessoas consideradas de baixo risco para doenças cardiovasculares, incluindo adultos saudáveis com menos de 30 anos.

Doenças cardíacas, insuficiência cardíaca e acidentes vasculares cerebrais

O consumo de duas a quatro xícaras de café com cafeína por dia foi associado a menores riscos de desenvolver doenças cardíacas, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral.

No entanto, essa relação pode mudar em níveis mais elevados. Consumir mais de quatro xícaras de café com cafeína diariamente pode aumentar o risco de insuficiência cardíaca.

Fontes de cafeína: elas não são iguais

Os pesquisadores reforçam que os produtos com cafeína não devem ser tratados como intercambiáveis devido às suas composições distintas. Mais estudos são fundamentais para comparar os diferentes tipos de café cafeinado com chá, refrigerantes, bebidas energéticas, energéticos em pó e alimentos que contêm cafeína.

O chá tem recebido menos atenção nas pesquisas em comparação com o café. Mesmo assim, o consumo de chá tem sido associado à redução dos riscos de fibrilação atrial, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral, de maneira similar aos benefícios observados com o café cafeinado.

Bebidas energéticas, assim como barras, géis e suplementos à base de cafeína, podem conter ingredientes adicionais que facilitam a absorção mais rápida da cafeína pelo corpo. Esses aditivos podem acelerar os efeitos da cafeína, elevar a pressão arterial e aumentar o risco de danos cardiovasculares, demandando cautela.

Necessidade de estudos mais rigorosos

O grupo de autores da declaração defendeu a realização de mais ensaios clínicos randomizados e controlados, que investiguem a cafeína presente no café e em outros produtos cafeinados. Os cientistas precisam de uma compreensão mais clara sobre por que as pessoas reagem de forma diferente à cafeína e como cada fonte específica afeta a saúde cardiovascular.

Os pesquisadores também destacaram a limitação das evidências disponíveis sobre bebidas energéticas cafeinadas e outros produtos com cafeína que estão se tornando cada vez mais populares. Como ainda não há evidências rigorosas suficientes para estabelecer recomendações formais de ingestão, a cafeína não foi incluída nas Diretrizes Alimentares para Melhorar a Saúde Cardiovascular de 2026 da Associação Americana de Cardiologia.

O presidente do grupo de redação voluntária da declaração científica, Gregory M. Marcus, professor de medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e chefe associado de Cardiologia para Pesquisa na mesma instituição, enfatizou que não existe uma estratégia única para o consumo seguro de cafeína. Ele alertou que as pessoas reagem de forma muito diferente à substância, dependendo de fatores como idade, medicamentos, condições de saúde preexistentes, genética e a velocidade com que seus corpos a metabolizam. Marcus aconselha: “O que pode ser uma quantidade razoável para uma pessoa pode causar efeitos indesejáveis, como palpitações cardíacas, ansiedade ou distúrbios do sono, em outra. É por isso que é importante prestar atenção em como seu corpo reage à cafeína e conversar com sua equipe de saúde sobre o que é adequado para você”.

Principais considerações sobre cafeína e saúde do coração

  • As evidências mais recentes indicam que o consumo de até 400 miligramas de cafeína por dia, equivalente a até cinco xícaras de 240 mililitros de café cafeinado, é geralmente seguro para a maioria dos adultos.
  • Para algumas pessoas, esse nível de ingestão também pode estar associado a menores riscos de insuficiência cardíaca, doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais.
  • O consumo elevado de cafeína, incluindo as quantidades encontradas em bebidas energéticas e energéticos em dose única, pode aumentar a probabilidade de hipertensão arterial e/ou ritmos cardíacos irregulares ou arritmias.
  • Os pesquisadores afirmam que são necessárias mais evidências para determinar como a cafeína afeta o corpo, como diferentes fontes de cafeína influenciam a saúde do coração e por que os efeitos podem variar tanto de pessoa para pessoa.

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