O Congresso Nacional se prepara para uma fase decisiva na tramitação das leis orçamentárias, com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 ainda aguardando votação e a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2027 com prazo final de envio pelo governo até 31 de agosto. A sobreposição de pautas gera um cenário de calendário apertado, especialmente em um ano eleitoral.
Tradicionalmente, a LDO serve como um guia fundamental para a elaboração do Orçamento do ano seguinte, definindo metas fiscais e prioridades. Contudo, a ausência de sua aprovação prévia implica que o Executivo pode ter que formular a LOA 2027 com base em diretrizes ainda não validadas pelos parlamentares, um descompasso que pode gerar questionamentos.
A importância da LDO e o desafio do calendário legislativo
A Lei de Diretrizes Orçamentárias é uma peça essencial no planejamento financeiro do país, pois estabelece as grandes linhas que orientarão a distribuição de recursos e os gastos públicos para o período seguinte. Ela define as metas fiscais, as prioridades para a aplicação dos fundos e as regras para a alocação de verbas, funcionando como a etapa inicial e estratégica do ciclo orçamentário.
Em contraste, a Lei Orçamentária Anual (LOA) é o documento que detalha, de forma minuciosa, onde cada recurso será aplicado. A LOA especifica os montantes destinados a cada programa governamental, obra de infraestrutura ou política pública. O projeto da LDO passa primeiramente pela análise e votação da Comissão Mista de Orçamento (CMO), que teve sua instalação e a escolha do presidente, deputado Domingos Neto (PSD-CE), concretizadas em junho.
Projeções econômicas e o salário mínimo para o próximo ano
A proposta da LDO de 2026, identificada como PLN 2/2026 e encaminhada ao Congresso pelo Poder Executivo em abril, já apresenta importantes indicadores econômicos que servirão de base para o planejamento orçamentário. Entre as projeções, o salário mínimo para o próximo ano está estimado em R$ 1.717.
Este valor representa um acréscimo de R$ 96 em relação ao patamar atual de R$ 1.621, correspondendo a um aumento de 5,9%. Além do reajuste do salário mínimo, o projeto da LDO também delineia outros parâmetros econômicos cruciais para a definição das metas fiscais e a elaboração detalhada do orçamento. Estes incluem:
- Inflação: projetada em 3,04%
- Produto Interno Bruto (PIB) real: expectativa de crescimento de 2,56%
- Câmbio: taxa média estimada em R$ 5,47
- Juros (taxa Selic): previsão de 10,55%
Esses números são fundamentais para que as estimativas de receita e despesa do governo sejam realistas e alinhadas com as expectativas do cenário econômico.
Implicações do atraso na aprovação das diretrizes
Ainda que a LDO seja um instrumento orientador crucial, sua votação tardia pode gerar desafios para a elaboração do orçamento. De acordo com o consultor legislativo Bento Monteiro, da Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e Controle do Senado, a ausência de uma LDO aprovada antes do envio da LOA significa que o Poder Executivo acaba por desenvolver a proposta orçamentária utilizando as regras que ele próprio sugeriu no projeto da LDO. Isso ocorre sem que tais diretrizes tenham sido previamente validadas pelos parlamentares.
Uma das possíveis consequências desse cenário é a dificuldade em exigir a segregação de gastos de certas políticas públicas em classificações específicas, um ponto levantado por Monteiro. Ele também enfatiza que, embora a votação em atraso possa diminuir a influência da LDO na fase de elaboração, sua relevância para a execução do orçamento ao longo do ano permanece intacta. Essa dinâmica se deve, em parte, à crescente atenção do Congresso às normas de execução orçamentária.
Monteiro observa que o foco dos parlamentares tem se deslocado, havendo maior preocupação em modificar as regras de execução do orçamento do que as de elaboração. Ele argumenta que as regras de elaboração existentes já atendem bem às necessidades do Legislativo, enquanto o processo de execução com a participação parlamentar ainda está em desenvolvimento, sendo, inclusive, alvo de deliberações anuais do Supremo Tribunal Federal.
Esforço concentrado para destravar a pauta legislativa
Diante do calendário apertado e da proximidade das eleições de outubro, que naturalmente comprometem as atividades legislativas, a liderança do Congresso Nacional tem articulado medidas para otimizar os trabalhos. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou a realização de dois períodos de esforço concentrado, visando acelerar a votação de proposições importantes.
As semanas programadas para essa força-tarefa são de 10 a 14 de agosto e de 31 de agosto a 3 de setembro. Essa iniciativa é coordenada com a Câmara dos Deputados, conforme entendimento com o presidente daquela Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). O objetivo principal é garantir que as propostas sejam aprovadas por ambas as Casas Legislativas em uma mesma semana, otimizando o fluxo e evitando a paralisação de matérias essenciais para o funcionamento do país.

