Conselho debate contribuição para empresas de IA e remuneração de criadores, sem substituir direitos autorais
O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional iniciou, nesta segunda-feira (3), uma discussão crucial sobre a implementação de uma Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para companhias de tecnologia. O foco está nas plataformas que comercializam conteúdos elaborados por inteligência artificial (IA), buscando equilibrar inovação com a proteção aos criadores originais.
A iniciativa visa não apenas fomentar o desenvolvimento tecnológico dentro do país, mas também estabelecer mecanismos de compensação financeira para artistas e produtores de conteúdo. Muitos destes profissionais podem ter suas obras utilizadas no treinamento de sistemas de IA sem a devida remuneração, levantando questões éticas e econômicas sobre a propriedade intelectual na era digital.
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Cide para impulsionar tecnologia e compensar impactos
A proposta da Cide surge como uma ferramenta para gerenciar os efeitos da inteligência artificial sobre a produção cultural e científica. Lucca Shirru, representante do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), destacou que a medida pode servir como um motor para o avanço tecnológico nacional. Ele ressaltou que a arrecadação da contribuição seria direcionada para fundos específicos, com o objetivo de mitigar os impactos negativos do uso dessas tecnologias sobre a produção de conhecimento.
Shirru enfatizou que a base de treinamento de muitos sistemas de IA generativa consiste em obras já existentes, produzidas por criadores humanos. “A proposta é cobrar uma Cide das grandes empresas de IA generativa e destinar os recursos a fundos que compensem os impactos do uso dessas tecnologias sobre a produção de conhecimento”, afirmou. A ideia é que, enquanto grandes veículos de comunicação podem negociar diretamente o licenciamento de seus conteúdos com as plataformas digitais, um modelo de gestão coletiva de direitos poderia amparar pequenos criadores e empresas independentes.
- Estímulo ao desenvolvimento tecnológico nacional: A Cide poderia injetar recursos em pesquisa e inovação.
- Compensação a artistas e criadores: Fundos específicos seriam criados para remunerar aqueles cujas obras foram usadas no treinamento de IAs.
- Gestão coletiva de direitos: Um modelo que beneficiaria pequenos produtores e empresas com menos poder de negociação individual.
Direitos autorais e o desafio do equilíbrio remuneratório
Apesar do debate sobre a Cide, o secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos de Souza, fez questão de sublinhar que essa contribuição não substituiria o pagamento direto de direitos autorais. Ele defendeu a gestão coletiva dos direitos, mas reiterou que qualquer nova contribuição não isentaria as empresas de IA de remunerar o uso de obras protegidas que serviram para o treinamento de seus algoritmos.
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A questão da remuneração e do seu equilíbrio é uma preocupação central para especialistas. Sérgio Branco, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade, manifestou receio de que valores excessivamente altos possam levar empresas de tecnologia a transferir suas operações de treinamento de sistemas para outros países, buscando ambientes regulatórios mais flexíveis. Além disso, ele alertou para a necessidade de evitar uma carga tributária excessiva sobre pequenas empresas de tecnologia, que são cruciais para a inovação e o dinamismo do setor.
A importância da educação midiática na era da IA
O avanço da inteligência artificial não impõe desafios apenas no campo econômico e jurídico, mas também no social. A pesquisadora Silvana Bahia, da Universidade de São Paulo (USP), destacou a relevância da educação midiática para capacitar a população a compreender criticamente como a IA gera informações e molda decisões. Em um cenário onde a inteligência artificial se torna uma fonte cada vez mais presente na vida cotidiana, entender seus mecanismos é fundamental.
“Não basta garantir acesso à inteligência artificial. As pessoas precisam compreender criticamente como essas ferramentas produzem conhecimento e influenciam decisões”, pontuou Bahia. A preocupação é validada por um estudo europeu, citado durante a audiência, que revela uma crescente dependência dos resumos produzidos por IAs como única fonte de informação. O percentual de pessoas que utilizam essa prática saltou de 56% em 2024 para uma projeção de 69% em 2025, indicando uma mudança significativa no consumo de notícias e dados.
As discussões e propostas apresentadas no Conselho de Comunicação Social serão encaminhadas à comissão especial da Câmara dos Deputados. Este grupo é responsável por analisar o projeto de lei sobre o marco legal da inteligência artificial (PL 2338/23), um tema que promete moldar o futuro da tecnologia e da criatividade no Brasil.

















