Mercado ilegal de remédios para emagrecer cresce no Brasil com riscos à saúdePor Janderson Luiz
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O contrabando de medicamentos para perda de peso, como semaglutida e tirzepatida, experimenta um aumento alarmante no Brasil, com a fronteira com o Paraguai se tornando um ponto central para essa atividade ilícita. Somente no primeiro semestre de 2026, as autoridades apreenderam mais de 76 mil canetas e frascos desses produtos na região, um volume quase três vezes maior do que o registrado em todo o ano anterior, segundo dados da Receita Federal do Brasil divulgados em 30 de agosto de 2026. Esse crescimento transformou os remédios para emagrecer em um dos contrabandos mais valiosos, atraindo grupos criminosos organizados pela alta lucratividade e facilidade de transporte.
Contrabando de medicamentos para emagrecer atinge níveis alarmantes na fronteira
A Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai perto das Cataratas do Iguaçu, é há muito tempo um corredor para o transporte ilegal de mercadorias. Atualmente, os medicamentos para perda de peso se destacam como o segundo item de maior valor apreendido por fiscais da Receita Federal nos estados do Paraná e Santa Catarina, ficando atrás apenas de telefones celulares. Flávio Bernardino de Carvalho, auditor fiscal federal, relatou que os produtos são transportados de diversas formas, incluindo ônibus públicos, carros, caminhões e até por turistas, indicando a atuação tanto do crime organizado quanto de indivíduos.
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A diferença de preço entre os países alimenta significativamente esse mercado. Enquanto uma dose de Mounjaro, medicação autorizada com tirzepatida no Brasil, custa cerca de 1.400 reais (aproximadamente 280 dólares), uma ampola do mesmo princípio ativo fabricada no Paraguai pode ser encontrada por cerca de 340 reais (cerca de 68 dólares). Essa disparidade econômica faz com que o crime organizado migre para esse tipo de contrabando. José Ricardo Bandeira, especialista em segurança pública, afirmou que, ao contrário do cigarro, que exige uma logística complexa com caminhões, os medicamentos são pequenos e de alto valor, tornando o transporte mais simples e lucrativo.
Estratégias criativas e perigosas usadas por contrabandistas
Diariamente, mais de 100 mil pessoas e 45 mil veículos cruzam a Ponte da Amizade, o que representa um desafio monumental para os fiscais aduaneiros. Para evitar a detecção, os contrabandistas adotam métodos cada vez mais engenhosos. Autoridades brasileiras já encontraram medicamentos escondidos sob as solas de botas, dentro de frascos de shampoo, em potes de gel de massagem e em compartimentos secretos de veículos.
Alguns carregamentos contornam a ponte e são transportados de barco pelo Rio Paraná, que forma parte da fronteira. A origem desses produtos é muitas vezes impossível de rastrear; alguns são roubados de farmácias no Paraguai, enquanto outros são versões falsificadas produzidas em operações clandestinas. O Comissário Carlos Dure, da Aliança de Polícias do Comando Tritípice (Argentina, Brasil e Paraguai), informou que até importações chinesas dos medicamentos foram identificadas.
Riscos graves à saúde do consumidor por produtos irregulares
A ilegalidade do comércio não é o único problema. Medicamentos injetáveis à base de GLP-1 requerem condições específicas de armazenamento para manter sua eficácia e segurança. Dr. Alexandre Hohl, professor de endocrinologia da Universidade Federal de Santa Catarina e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, alerta veementemente contra a compra desses produtos fora dos canais regulamentados.
Ele explicou que as drogas legítimas passam por uma cadeia de suprimentos rigorosamente controlada. Peptídeos como semaglutida e tirzepatida perdem estabilidade se expostos a temperaturas acima de 30°C ou abaixo de 0°C. Essas condições dificilmente são mantidas quando os produtos são contrabandeados em carros, sapatos ou junto ao corpo.
- Ineficácia: A consequência mais provável do armazenamento inadequado é a redução da eficácia do medicamento, fazendo com que o consumidor pague por algo que não trará os resultados esperados.
- Conteúdo desconhecido: A maior preocupação reside em produtos cuja origem e conteúdo não podem ser verificados. Podem ser cópias fabricadas sem controle, com impurezas que causam efeitos adversos imprevisíveis.
- Casos graves: Dr. Hohl atendeu pacientes que desenvolveram reações anormais após usar medicamentos contrabandeados. Uma paciente foi parar na UTI com acidose láctica após usar um produto vendido como tirzepatida. Outro desenvolveu náuseas persistentes, vômitos e diarreia, buscando atendimento de emergência.
Crescimento da demanda acelera mercado ilícito e introduz novas drogas
A procura por medicamentos baseados em GLP-1 disparou no Brasil. Dados da Serasa Experian revelam que os pedidos online relacionados a essas medicações cresceram 149,3% no primeiro semestre de 2026, totalizando mais de 1,36 milhão de solicitações e movimentando mais de 2,3 bilhões de reais. Esse aumento significativo de demanda cria um terreno fértil para o mercado ilegal.
Diante do cenário, as autoridades brasileiras estão intensificando a cooperação com o Paraguai. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do Brasil firmou um acordo com a Direção Nacional de Vigilância Sanitária do Paraguai (Dinavisa) para fortalecer a fiscalização na fronteira entre os dois países.
A evolução do mercado clandestino é tão rápida quanto a da indústria farmacêutica. Dr. Hohl relatou ter encontrado pacientes usando retatrutida, uma droga experimental para perda de peso que ainda não foi aprovada por nenhuma agência reguladora no mundo, mas já é vendida no Paraguai. Além disso, a semaglutida e a tirzepatida podem ser compradas sem receita médica em cidades como Ciudad del Este, ao contrário do sistema regulamentado no Brasil. As vendas online e a troca de informações em redes sociais também são um desafio crescente para os fiscais.















