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Eletrificação de veículos impulsiona alta de 237% em motos no Brasil e muda engenharia

Carros elétricos
Foto: Carros elétricos - Natee Meepian/Shutterstock.com
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O crescimento notável de motos elétricas e híbridas está transformando a indústria automobilística brasileira e, por consequência, o mercado de trabalho da engenharia mecânica. Dados divulgados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) revelam que, de janeiro a agosto de 2026, foram emplacadas 21.096 unidades eletrificadas no país, um aumento de 237% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desse total, as motos puramente elétricas representaram 11.587 unidades. Embora o percentual de crescimento seja expressivo, o segmento ainda enfrenta desafios como a infraestrutura de recarga em desenvolvimento, a autonomia variável das baterias e os custos iniciais mais altos em comparação com os modelos a combustão, fatores que contribuem para que a base de veículos eletrificados ainda seja relativamente pequena no mercado geral.

Essa expansão no uso de tecnologias de propulsão elétrica já provoca uma revisão direta nos currículos acadêmicos e nas exigências para os perfis profissionais. Empresas do setor agora buscam engenheiros mecânicos com qualificação aprimorada, capazes de atuar em um ambiente que integra a mecânica tradicional com a eletrônica e a computação de forma intensa.

Conforme o engenheiro mecânico Adroaldo Moura Filho, que leciona no curso de Engenharia Mecânica da Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, a eletrificação automotiva gerou uma mudança significativa na indústria nas últimas décadas, refletindo diretamente nas qualificações profissionais requisitadas pela área.

Ele detalha que, mesmo com a substituição dos motores a combustão por sistemas elétricos, o papel do engenheiro mecânico permanece crucial no desenvolvimento da estrutura, do sistema térmico e da dinâmica dos veículos. “Os veículos elétricos requerem soluções avançadas em transmissão, sistemas de refrigeração para baterias, alta resistência mecânica, uso de materiais leves, eficiência energética e segurança estrutural”, afirmou o professor.

Adroaldo Moura Filho complementa que “a eletrificação automotiva se estabelece como uma das maiores evoluções da indústria automotiva nas últimas décadas. Isso impacta de forma direta a engenharia mecânica, consolidando o engenheiro mecânico como um profissional ainda mais vital dentro do setor”.

Carro elétrico
Carro elétrico – wellphoto/ Istockphoto.com

O que o setor automotivo busca em novos profissionais

Com as inovações tecnológicas no segmento, o mercado passou a priorizar profissionais com perfil mais versátil e preparados para gerenciar sistemas de alta complexidade. Competências antes vistas como secundárias hoje são consideradas essenciais para quem pretende ingressar ou avançar na carreira.

Segundo Adroaldo, as empresas, além de uma sólida formação em engenharia mecânica, procuram por profissionais que demonstrem conhecimento em:

  • Eletrificação automotiva
  • Tecnologias de baterias
  • Sistemas híbridos
  • Eletrônica de potência
  • Softwares de simulação computacional
  • Análise de dados
  • Ferramentas de inteligência artificial

Além das capacidades técnicas, as habilidades interpessoais e comportamentais ganharam importância nos processos seletivos. Um perfil adaptável, a facilidade em aprender continuamente e uma visão abrangente dos processos são algumas das características mais valorizadas. “As empresas buscam profissionais colaborativos, inovadores e com a capacidade de trabalhar em conjunto entre distintas áreas da engenharia, tecnologia e gestão”, disse o professor.

Na vivência prática, essa transformação já é uma realidade para profissionais do setor. Para o empreendedor Alexsandro Rios Façanha, que cursou Engenharia Mecânica na Unifor, o avanço dos veículos elétricos e híbridos alterou profundamente o cotidiano da indústria automotiva.

“Atualmente, além da mecânica convencional, lidamos diretamente com eletrônica embarcada, sistemas de alta tensão, controle térmico de baterias, softwares de diagnóstico e estratégias para otimizar a eficiência energética”, relatou o empreendedor.

Alexsandro também observa que a demanda por especialistas tem um crescimento acelerado, principalmente devido à escassez de mão de obra capacitada. “É um segmento que ainda apresenta poucos profissionais verdadeiramente qualificados, o que abre grandes oportunidades para aqueles que buscam se preparar”, afirmou ele.

A necessidade de aprendizado contínuo na área de mobilidade elétrica

A evolução acelerada das tecnologias automotivas impõe uma necessidade constante de atualização aos profissionais. Sistemas eletrônicos complexos, softwares integrados e o gerenciamento energético fazem parte da rotina de quem atua com veículos elétricos.

Alexsandro explica que o aprendizado contínuo se tornou um requisito praticamente obrigatório dentro do setor. “Hoje, quem trabalha na indústria automotiva precisa estudar sem parar, participar de treinamentos, acompanhar as novas tecnologias e buscar especializações”, reforçou o egresso.

Em sua rotina profissional, ele utiliza conhecimentos em diagnóstico eletrônico, análise de redes de comunicação veicular, gerenciamento térmico e sistemas de controle. “Também é fundamental entender a lógica de funcionamento de sensores e atuadores, o gerenciamento de energia, a segurança em sistemas de alta tensão e a análise de falhas complexas”, explicou Alexsandro.

Para o professor Adroaldo Moura Filho, essa reconfiguração amplia significativamente as possibilidades de atuação para a engenharia mecânica. Além do setor automotivo tradicional, novas frentes de trabalho surgem em áreas como:

  • Mobilidade urbana
  • Infraestrutura de carregamento
  • Manutenção especializada
  • Pesquisa aplicada
  • Desenvolvimento de tecnologias sustentáveis

“O avanço da mobilidade elétrica fomenta o surgimento de startups e novos negócios em áreas como infraestrutura de recarga, reciclagem de baterias e serviços de manutenção especializados”, disse Adroaldo. Ele também enfatiza o potencial estratégico do Brasil para o desenvolvimento tecnológico, impulsionado pela matriz energética renovável do país.

Instituições de ensino adaptam currículos às novas demandas do setor

Diante desse cenário dinâmico, as universidades também estão ajustando a formação dos futuros profissionais. Na Unifor, o curso de Engenharia Mecânica busca unir os fundamentos clássicos da engenharia com práticas inovadoras e contato direto com tecnologias atuais.

Essa abordagem é exemplificada pelo Núcleo de Pesquisa em Energia e Materiais (Nupem), um centro dedicado ao desenvolvimento de soluções inovadoras para os setores energético e industrial. Com uma infraestrutura moderna, o Nupem foca na criação de tecnologias para otimizar sistemas térmicos e energéticos, realizando pesquisas em energia solar, máquinas térmicas e refrigeração, biomassa e combustão, gestão de energia e hidrogênio verde.

De acordo com o professor Adroaldo Moura Filho, os alunos da Unifor participam de atividades de laboratório, projetos de pesquisa e programas de iniciação científica. Eles também utilizam ferramentas avançadas de modelagem e simulação computacional. “Atualmente, nosso laboratório possui uma variedade de equipamentos, incluindo diversos motores de combustão interna, dinamômetro de bancada e uma bancada híbrida”, contou ele.

O professor reforça ainda a importância da interdisciplinaridade e da colaboração entre a academia e a indústria para preparar profissionais que estejam alinhados às constantes transformações do setor automotivo.

Para o egresso Alexsandro, a formação universitária foi essencial para o desenvolvimento das competências hoje exigidas pelo mercado. “A Universidade de Fortaleza ofereceu não apenas o conhecimento teórico, mas também aprimorou o raciocínio analítico, a visão estratégica e a capacidade de resolver problemas complexos”, comentou.

Ele aconselha que os estudantes interessados na área busquem experiências práticas desde cedo e invistam continuamente em atualização tecnológica. “Hoje, mais do que nunca, o engenheiro deve ser multidisciplinar, familiarizado com tecnologia e aberto a inovações”, concluiu.

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