Mais de 2 milhões de pessoas vivem com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) na Alemanha, condição psiquiátrica que transforma ideias cotidianas em ameaças e teve 36 genes de alto risco identificados em estudo na revista científica Nature Neuroscience. Os dados da Sociedade Alemã de Transtornos Obsessivos-Compulsivos e de especialistas de Bonn, divulgados nesta quarta-feira (14), apontam que a Terapia de Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) aliada a medicamentos permite aos pacientes retomar o controle da rotina.
Para quem convive com o distúrbio sem acompanhamento adequado, os rituais diários de verificação e limpeza passam a ditar todas as tarefas domésticas e sociais. “Você assiste a si mesmo enlouquecendo”, disse Alex, paciente alemã de 36 anos diagnosticada com a doença.
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Como o modelo de Paul Salkovskis e o Hospital de Bonn explicam o TOC
O funcionamento da condição é detalhado pelo modelo cognitivo criado pelo psicólogo britânico Paul Salkovskis, segundo o qual o quadro começa com um pensamento intrusivo comum, como a dúvida sobre ter esquecido o fogão ligado. Enquanto a maioria das pessoas faz uma checagem mental rápida e descarta a preocupação, o indivíduo com o transtorno interpreta a dúvida como um perigo concreto de incêndio e morte, o que desencadeia sensações intensas de medo, culpa ou responsabilidade.
De acordo com Katharina Bey, psicoterapeuta e responsável pelo ambulatório especializado em TOC do Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha, os atos repetitivos surgem justamente para tentar neutralizar essas emoções negativas. “Até pode haver um alívio momentâneo da ansiedade, mas isso reforça a ideia de que aquele pensamento era realmente importante ou perigoso”, afirmou a especialista.
Entre as manifestações mais severas atendidas em consultório estão as ideias de conteúdo sexual ou agressivo, como o receio repentino de ferir alguém com uma faca, empurrar o próprio filho de uma escada ou ser pedófilo. “São pensamentos totalmente incompatíveis com os valores e a personalidade dessas pessoas”, declarou Bey, acrescentando que o caráter inaceitável dessas imagens mentais faz com que o paciente as vivencie como ameaças reais.
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Estudo na Nature Neuroscience mapeia 36 genes ligados ao TOC
A investigação sobre as causas biológicas do distúrbio avançou em 1 de setembro de 2026, data em que a revista Nature Neuroscience publicou um artigo liderado por Belinda Wang, pesquisadora da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos. Antes dessa publicação científica, os pesquisadores conheciam apenas quatro genes classificados como de alta confiança para o risco de desenvolver o problema e transtornos de tiques crônicos por meio de mutações raras. A nova análise ampliou esse mapeamento ao confirmar que a condição e os tiques crônicos, a exemplo da síndrome de Tourette, compartilham bases neurobiológicas e vias genéticas semelhantes, que também se sobrepõem a outros transtornos do neurodesenvolvimento.
Para Katharina Bey, comprovar que existe uma base biológica real para a doença ajuda a diminuir o sentimento de culpa e vergonha nos consultórios, embora o DNA não determine sozinho o aparecimento dos sintomas. Segundo a responsável pelo ambulatório de Bonn, a outra metade do risco decorre de fatores ambientais, como complicações no parto ou experiências de perda de controle na infância — a exemplo da morte de um familiar ou da separação dos pais quando o episódio não é devidamente explicado à criança.
Números e dados genéticos do estudo sobre o TOC
- Amostra analisada na pesquisa genética: 3.964 indivíduos diagnosticados com TOC, transtornos de tiques crônicos ou ambas as condições, utilizando o sequenciamento completo do exoma (parte do DNA que codifica proteínas).
- Recorte familiar do levantamento: 2.418 trios familiares incluídos na base de dados avaliada pelos cientistas.
- Variantes identificadas: 36 genes e variantes genéticas raras de grande efeito associadas ao risco elevado para o transtorno.
- Divisão de fatores de risco clínico: 50% atribuídos à predisposição genética e 50% ligados a fatores ambientais, conforme estimativa clínica de Katharina Bey.
- Incidência na Alemanha: mais de 2 milhões de moradores convivem com o diagnóstico, segundo a Sociedade Alemã de Transtornos Obsessivos-Compulsivos (Deutsche Gesellschaft Zwangserkrankungen e.V.).
Terapia EPR e medicamentos no controle dos sintomas em Bonn
Na prática clínica, o tratamento considerado mais eficaz pelos especialistas é a Terapia de Exposição e Prevenção de Resposta, frequentemente associada ao uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), uma classe de medicamentos antidepressivos. Na abordagem de exposição, o paciente é colocado diante das situações que disparam seus medos, mas recebe orientação para tolerar a ansiedade sem executar os rituais habituais de alívio.
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Ao deixar de obedecer aos impulsos repetitivos, a pessoa comprova na prática que consegue suportar emoções desagradáveis e que nenhuma tragédia ocorre pela falta do ritual. “Paradoxalmente, os pensamentos e sentimentos só perdem força quando recebem espaço para existir”, disse Katharina Bey.
Para a instrutora de ioga alemã Jessica Teitz, que desenvolveu os sintomas na infância e passou anos sem diagnóstico até perder a capacidade de conviver com outras pessoas, o uso de antidepressivos ISRS e a terapia de exposição foram decisivos para que ela voltasse a sair de casa. “Saber de onde ele veio não me ajuda a lidar com ele”, afirmou Jessica sobre as origens da doença.
Rotina de Alex e Jessica Teitz na associação alemã de pacientes
O mesmo método terapêutico permitiu a retomada da rotina de Alex, que convive com o problema desde os 13 anos de idade — o sobrenome da paciente não foi confirmado, pois foi preservado a pedido dela. Na adolescência, ela sentia a obrigação de carregar sempre sete objetos consigo e manter exatamente 400 contatos na agenda do telefone celular.
Com o avanço do quadro ao longo da vida adulta, Alex passou a evitar maçanetas, teve a vida sexual e as idas ao supermercado comprometidas, tomava banho após cada ida ao banheiro e jogava talheres usados diretamente no lixo para não ter de lavá-los. Após o tratamento, tanto ela quanto Jessica aprenderam a aceitar o surgimento eventual de impulsos sem reagir de forma automática.
Atualmente, Jessica ministra aulas de ioga direcionadas a alunos com inquietação constante e pensamentos obsessivos, e as duas pacientes atuam como voluntárias na Sociedade Alemã de Transtornos Obsessivos-Compulsivos, onde orientam pessoas com sintomas parecidos a procurar atendimento médico e psicológico logo nos primeiros sinais. “Quanto mais tempo você convive com isso, mais difícil fica sair desse ciclo e mais longo tende a ser o tratamento”, declarou Jessica.
