O Ministério de Minas e Energia (MME) abriu nesta sexta-feira (23) uma consulta pública para subsidiar um diagnóstico voltado à expansão da infraestrutura nacional de recarga de veículos elétricos no Brasil. A medida ocorre após o volume de vendas desse tipo de automóvel superar em cerca de 70% o total registrado ao longo de todo o ano de 2025.
De acordo com a pasta, o objetivo do processo é coletar informações técnicas do mercado para traçar um panorama da atividade no país, identificar barreiras legais e regulatórias e formular ajustes normativos. As diretrizes buscadas pelo governo federal visam integrar os aparelhos de recarga às redes de distribuição de energia e aprimorar o planejamento energético nacional diante do avanço rápido da frota eletrificada.
Crescimento das vendas de veículos elétricos e dados da ABVE em 2026
O levantamento divulgado pelo Ministério de Minas e Energia toma como base os números da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) referentes aos primeiros nove meses de 2026. O ritmo de adoção dos modelos elétricos e híbridos pelos consumidores brasileiros ficou acima do que previam os órgãos de planejamento do setor energético para o período.
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“Em setembro a participação de veículos eletrificados alcançou 19,8% das vendas de veículos leves, ritmo que tem superado as projeções oficiais disponíveis”, informou o Ministério de Minas e Energia, em nota técnica publicada na abertura do processo em 23 de outubro de 2026.
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Os indicadores de mercado e de infraestrutura que fundamentam a abertura da consulta pública reúnem os seguintes volumes consolidados no país:
- Emplacamentos de janeiro a setembro de 2026: 381.609 veículos leves eletrificados vendidos no Brasil, conforme dados da ABVE.
- Avanço sobre o ano anterior: crescimento aproximado de 70% nos nove primeiros meses de 2026 na comparação com todas as vendas de 2025.
- Fatia de mercado mensal: 19,8% de participação sobre o total de veículos leves comercializados no país em setembro de 2026.
- Rede disponível no território nacional: 29.866 pontos de recarga públicos e semipúblicos em operação, segundo levantamento da ABVE em parceria com a Tupi Mobilidade.
Como os pontos de recarga de veículos elétricos se dividem pelo Brasil?
Apesar do avanço nos emplacamentos, a localização física dos equipamentos que condicionam o uso diário dos veículos elétricos apresenta forte concentração regional. Os dados da ABVE e da Tupi Mobilidade citados pelo governo mostram que a disponibilidade de eletropostos está centralizada nas regiões Sudeste e Sul, deixando grandes áreas do território nacional com baixa cobertura.
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A divisão geográfica dos pontos públicos e semipúblicos instalados atualmente pelo país registra os seguintes percentuais:
- Estado de São Paulo: concentra sozinho 26,3% de todos os pontos de recarga em funcionamento no Brasil.
- São Paulo somado aos três estados da região Sul: responde por metade da estrutura nacional, alcançando 50,7% do total de aparelhos.
- Região Norte: os sete estados nortistas reúnem, juntos, 3,4% da rede de carregamento do país.
Investimentos de BYD, Stellantis, Volkswagen, Toyota e GWM até 2030
Na avaliação técnica do governo brasileiro, a eletrificação da frota nacional deixou de ser um movimento passageiro e tende a se firmar como uma mudança estrutural do mercado automotivo. Um dos fatores apontados pelo ministério para explicar essa transformação e a alta expressiva nas vendas é a entrada de novas fabricantes estrangeiras no país, acompanhada pelo anúncio de aportes financeiros diretos para a produção e a montagem local desses automóveis, o que amplia a oferta de modelos ao consumidor.
A montadora chinesa BYD avança no processo de nacionalização de componentes automotivos e já deu início aos pedidos de licenças para dobrar a capacidade anual de produção de sua fábrica instalada em Camaçari, na Bahia, planejando alcançar a marca de 600 mil veículos por ano. Além dela, grandes grupos automotivos já estabelecidos no Brasil — como Stellantis, Volkswagen, Toyota e GWM — incluíram os carros elétricos e híbridos como parte central de seus cronogramas de investimentos no país, que somam cerca de R$ 130 bilhões até 2030, conforme levantamentos do governo federal.
Projeção de 15 TWh até 2036 e impactos na rede de distribuição elétrica
Com o aumento da frota nas ruas, o governo projeta que o abastecimento de baterias passará a exigir uma fatia relevante da matriz elétrica. A estimativa oficial é que o consumo de energia voltado exclusivamente para a eletromobilidade chegue a aproximadamente 15 terawatts-hora (TWh, medida equivalente a 1 bilhão de quilowatts-hora) no ano de 2036. Segundo a nota técnica da pasta, esse volume representa uma “ordem de grandeza comparável à de outras novas cargas relevantes para a expansão da demanda elétrica considerada no planejamento setorial”.
Para a operação do sistema elétrico brasileiro, o desafio técnico não se resume à quantidade total de energia que será consumida até a próxima década, mas abrange principalmente a maneira como essa procura por eletricidade vai se distribuir no tempo e no espaço. O hábito de conectar múltiplos carros à tomada nos mesmos horários e em regiões específicas exige preparo prévio das concessionárias para evitar sobrecargas na rede local.
“Em especial, a recarga de veículos elétricos pode provocar concentrações localizadas de demanda em áreas urbanas, condomínios residenciais, garagens corporativas, centros logísticos e corredores rodoviários, com possíveis reflexos sobre os circuitos de distribuição e transformação que os atendem”, declarou o Ministério de Minas e Energia, em nota técnica.
A consulta pública aberta pelo Ministério de Minas e Energia permanece disponível para o envio de contribuições pelo prazo de 30 dias.
