A fabricante americana de tintas e revestimentos PPG, sediada em Pittsburgh, projeta triplicar suas vendas de proteção industrial para data centers em 2026 na comparação com 2025. O crescimento decorre da corrida de empresas como Microsoft, Google e Amazon para erguer infraestruturas de inteligência artificial, movimentando um mercado onde cada obra consome entre US$ 3 milhões (R$ 15,1 milhões) e US$ 8 milhões (R$ 40,3 milhões) apenas com esses materiais.
O avanço específico no setor de computação supera a média geral da companhia, que tem valor de mercado de US$ 24 bilhões (R$ 121 bilhões) e registrou alta de 7% nas vendas totais do trimestre mais recente, alcançando US$ 4,5 bilhões. “Nunca vi um boom tão grande quanto este”, disse Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos de proteção e marítimos da PPG para as Américas.
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Steelguard 951 e os testes da PPG contra fogo e eletricidade estática
O produto central da PPG para atender os centros de dados é o revestimento intumescente cinza Steelguard 951, formulado para impedir que estruturas metálicas cedam durante incêndios. No Coatings Innovation Center, complexo de pesquisa situado em Allison Park, subúrbio a cerca de 21 km de Pittsburgh, a empresa realiza testes com maçaricos em um prédio de concreto conhecido como “o bunker”. Quando submetida ao fogo pelos pesquisadores, a camada aplicada sobre painéis de aço se expande de 1 milímetro de espessura para uma crosta preta de quase 10 milímetros de altura, retendo o ar para isolar o metal e evitar que ele amoleça sob alta temperatura.
Paul Fenton, químico pesquisador sênior e engenheiro de testes da PPG, conduziu as demonstrações de resistência térmica no laboratório. “É como um marshmallow tostado, que gosta de se expandir”, afirmou Fenton, explicando que o ar retido no material expandido “mantém tudo frio”. Amy Ericson, vice-presidente sênior da PPG, diferenciou a tecnologia industrial dos produtos domésticos formados por simples pintura. “Não é como entrar em uma loja, comprar uma lata de tinta e passá-la na parede”, declarou a executiva sobre o sistema composto por primer de aderência, camada funcional e acabamento.
Em abril de 2026, durante uma feira do setor em Washington, a fabricante apresentou um pacote de soluções adaptado para instalações de inteligência artificial e fábricas de chips, cobrindo mais de 75 componentes de um data center:
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- Revestimento intumescente Steelguard 951 para proteção de vigas e estruturas de aço contra fogo;
- Isolante térmico Pitt-Therm 909 para manter frias as tubulações de água e impedir a condensação sobre equipamentos elétricos;
- Pisos especiais projetados para evitar descargas de eletricidade estática que possam danificar servidores ou iniciar incêndios;
- Primers antiferrugem e camadas que bloqueiam interferências elétricas entre máquinas;
- Revestimentos específicos para equipamentos de refrigeração e carcaças de câmeras de segurança.
Custos por obra e avanço da concorrente Sherwin-Williams
A expansão da infraestrutura de computação — que já impulsionou fabricantes de chips como a Nvidia, laboratórios como OpenAI e Anthropic, além de fornecedores de brita, fios e cabos — também elevou os resultados da Sherwin-Williams, principal concorrente da PPG. Em julho de 2026, a presidente-executiva (CEO) da Sherwin-Williams, Heidi Petz, informou que as vendas da divisão de revestimentos de proteção e marítimos da empresa cresceram na casa dos dois dígitos, na faixa intermediária da escala, em relação ao ano anterior, puxadas pela aplicação de produtos das vigas de aço aos racks de servidores. Na companhia, o braço de revestimentos de performance também teve avanço superior a 6% nos dois últimos trimestres consecutivos. “Velocidade importa”, disse Petz.
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Segundo Matthew Giddings, executivo que atua na administração de data centers na consultoria imobiliária comercial JLL, os produtos químicos são aplicados “das paredes às coberturas dos telhados, passando pelas estruturas de aço e pela parte externa do edifício” para evitar incêndios em salas elétricas e controlar a estática. Como os prédios abrigam majoritariamente servidores e quase não há circulação de pessoas, a aparência não é prioridade: a PPG fornece basicamente variações de cinza-claro, cinza e cinza-escuro. De acordo com Jenn Solcz, a estética “não está exatamente entre as principais preocupações de nossos clientes, nem dos proprietários de data centers, arquitetos e engenheiros com quem conversamos”.
Mudança de foco da PPG em 2024 e gargalos de energia nos Estados Unidos
Fundada em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Corporation para fabricar vidro, a PPG reformulou seu modelo de negócios em 2024 ao vender suas lojas de tintas nos Estados Unidos e no Canadá, incluindo a marca varejista Glidden, comercializada na rede Home Depot. Desde então, a empresa concentrou a operação no fornecimento industrial para montadoras de carros, fabricantes de aviões, latas de bebidas e grandes obras. A mobilização para o setor de tecnologia teve início após o lançamento do ChatGPT pela OpenAI no fim de 2022. Como um data center é erguido em cerca de um terço do tempo de uma obra de infraestrutura tradicional, a PPG criou equipes exclusivas para atuar junto a engenheiros, arquitetos e gigantes de tecnologia antes do início das construções.
Em conferência de resultados do segundo trimestre, realizada em julho de 2026, o CEO da PPG, Tim Knavish, destacou a demanda do setor: “Há uma carteira considerável de projetos em trabalhos de data centers, o que inclui não apenas proteção contra incêndio, mas pisos para aço estrutural, revestimentos isolantes e revestimentos dielétricos”, disse, em tradução livre. Embora os produtos sejam aplicados em instalações do Brasil à China, mais da metade das oportunidades de venda da PPG está nos Estados Unidos. O país concentra cerca de 5.500 data centers, volume aproximadamente dez vezes maior que o do segundo colocado global, segundo o relatório Artificial Intelligence Index Report, da Universidade Stanford.
Atualmente, o segmento representa um percentual de um dígito baixo nas vendas de duas divisões da PPG, mas a projeção interna é de crescimento acelerado nos próximos anos. A expansão das obras, contudo, enfrenta atrasos provocados pela falta de fornecimento de energia elétrica, pela escassez de transformadores e pela oposição de comunidades locais aos projetos — como ocorre na Índia, onde um data center do Google é alvo de protestos. Sobre a resistência de moradores e os gargalos na rede elétrica, Amy Ericson afirmou que a resolução depende das empresas de tecnologia e das concessionárias de energia: “Cabe a elas conduzir essas conversas”.
