Pacientes adultos diagnosticados com insônia que utilizam suplementos de melatonina por pelo menos um ano apresentam um risco 89% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos. A conclusão faz parte de um estudo preliminar liderado por pesquisadores da instituição médica SUNY Downstate/Kings County Primary Care, localizada no Brooklyn, em Nova York, e apresentado nas Sessões Científicas de 2025 da Associação Americana do Coração (AHA), em Nova Orleans, no estado da Louisiana, nos Estados Unidos.
O levantamento também identificou um aumento nas taxas de hospitalização e de mortalidade por qualquer causa entre os consumidores contínuos da substância. Em comunicado oficial, o médico residente-chefe de medicina interna na SUNY Downstate/Kings County Primary Care e autor principal do estudo, Ekenedilichukwu Nnadi, destacou a surpresa com os dados obtidos. “Os suplementos de melatonina são amplamente considerados uma opção segura e ‘natural’ para ajudar a dormir melhor, por isso foi impressionante ver aumentos tão consistentes e significativos em desfechos graves de saúde, mesmo após equilibrar muitos outros fatores de risco”, afirmou, em tradução livre.
Dados clínicos e índices de hospitalização pelo uso de melatonina
A investigação científica analisou prontuários eletrônicos de um total de 130.828 adultos com diagnóstico clínico de insônia, divididos exatamente em dois grupos de 65.414 pessoas cada um. O primeiro bloco reuniu pacientes que possuíam prescrição médica e registro de uso contínuo de melatonina por um período mínimo de 365 dias, enquanto o grupo de controle concentrou indivíduos com o mesmo distúrbio do sono, mas sem qualquer anotação de consumo do suplemento hormonal. Para evitar distorções nos resultados, a equipe médica excluiu previamente da amostra inicial qualquer pessoa que já tivesse histórico de insuficiência cardíaca ou que fizesse uso receitado de outros medicamentos hipnóticos ou benzodiazepínicos, substâncias psicotrópicas atuantes no sistema nervoso central.
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Durante o período de cinco anos de acompanhamento clínico, os pesquisadores aplicaram métricas estatísticas, como a razão de risco (Hazard Ratio, medida que compara a velocidade com que um evento ocorre em grupos distintos ao longo do tempo), para mensurar os impactos na saúde cardiovascular. A equipe ainda realizou análises de sensibilidade exigindo ao menos duas prescrições do suplemento com intervalo mínimo de 90 dias, nas quais o risco elevado manteve-se consistente, registrando uma razão de risco de 1,82.
- Novos casos de insuficiência cardíaca: 3.021 registros no grupo da melatonina (incidência de 4,6% a 5%) contra 1.797 no grupo de controle (2,7% a 3%), resultando em razão de risco de 1,89 e diferença de risco absoluto de 1,9%.
- Hospitalizações por insuficiência cardíaca: 12.411 internações entre os usuários do suplemento (19,0% do grupo) ante 4.309 no bloco de comparação (6,6% a 7%), índice cerca de três vezes e meia superior.
- Mortalidade por qualquer causa em cinco anos: 5.118 mortes entre os consumidores da substância (7,8% a 8%) frente a 2.820 óbitos no grupo sem registro de uso (4% a 4,3%), o que representa o dobro de probabilidade (razão de risco de 2,09).
Como o estudo sobre a melatonina foi estruturado em Nova Orleans
A pesquisa foi divulgada inicialmente como resumo na revista científica Circulation e levada para debate presencial durante o encontro anual de cardiologia nos Estados Unidos. A substância avaliada pelos médicos é a versão sintética de um hormônio produzido naturalmente pelo cérebro humano, responsável por regular o relógio biológico interno e induzir o sono.
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- Identificação oficial do trabalho: Resumo científico código MP2306.
- Data de divulgação prévia: 3 de novembro de 2025, às 5h (horário do leste dos Estados Unidos).
- Evento e período de apresentação: Sessões Científicas de 2025 da Associação Americana do Coração, realizadas de 7 a 10 de novembro de 2025, em Nova Orleans.
- Base de dados consultada: Rede global de pesquisa clínica TriNetX Global Research Network.
- Perfil demográfico dos participantes: Idade média de 56 anos, sendo a amostra composta por 61% de mulheres.
Quais são as limitações da pesquisa sobre a melatonina e o coração?
Os próprios autores do levantamento ressaltam que o trabalho tem caráter observacional e preliminar, o que significa que os números apontam uma associação estatística, mas não comprovam uma relação direta de causa e efeito entre o consumo do suplemento e o desenvolvimento da doença cardíaca. Como a coleta de informações baseou-se exclusivamente em registros eletrônicos de prescrição, sem a realização de entrevistas diretas com os pacientes, o estudo carece de dados precisos sobre a gravidade da insônia de cada indivíduo e sobre as dosagens exatas consumidas diariamente.
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Outro fator limitante decorre da própria legislação sanitária norte-americana, onde os suplementos de melatonina são comercializados livremente nas farmácias sem necessidade de receita médica (modalidade conhecida como over-the-counter) e não passam por regulamentação da agência federal de saúde dos Estados Unidos (FDA) quanto à padronização de pureza e concentração entre diferentes marcas comerciais. Essa facilidade de acesso contrasta com as regras de países como o Reino Unido, onde a aquisição exige prescrição médica obrigatória, e abre a possibilidade de que integrantes do grupo de controle norte-americano tenham comprado e ingerido o produto por conta própria, sem que o hábito constasse nos prontuários médicos analisados.
Comparação com dados históricos de saúde dos Estados Unidos de 1999 a 2018
A relação entre o indutor de sono e problemas cardiovasculares já foi alvo de outras revisões científicas com resultados divergentes. Uma análise posterior baseada nos registros da pesquisa nacional de saúde e nutrição dos Estados Unidos (NHANES), que englobou dados coletados entre os anos de 1999 e 2018 e foi publicada na base científica PubMed Central (PMC), indicou que estudos observacionais sobre a melatonina são altamente vulneráveis a fatores de confusão clínica, tais como a severidade do distúrbio do sono e a presença simultânea de quadros de depressão e ansiedade. Naquela avaliação específica da coorte histórica de quase duas décadas, os cientistas não encontraram associação estatística significativa entre o uso recente do suplemento e a prevalência de insuficiência cardíaca.
Diante das incertezas sobre o consumo ocasional e das variáveis não controladas na amostra de cinco anos, a equipe médica de Nova York defende a realização de novos testes clínicos que avaliem diretamente a segurança cardiovascular da substância a longo prazo. “Os suplementos de melatonina podem não ser tão inofensivos quanto comumente se supõe. Se o nosso estudo for confirmado, isso poderá afetar a forma como os médicos aconselham os pacientes sobre auxiliares de sono”, declarou Ekenedilichukwu Nnadi, em tradução livre.
