Mexilhão-dourado atinge 15.849 indivíduos por metro quadrado no TocantinsPor Luís Henrique Costa
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Levantamentos publicados entre o fim de 2025 e 2026 confirmam que o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) se espalhou por todos os municípios banhados pelo rio Tocantins. O molusco de água doce, originário do Sudeste Asiático, também alcançou a ilha de Marajó, no Pará, e se fixou na bacia do rio Pajeú, em Pernambuco. A proliferação ameaça ecossistemas locais e entope tubulações de usinas hidrelétricas brasileiras.
O avanço no Norte foi descrito em um artigo de 2026 publicado na revista científica Actapesca. O trabalho tem como autor principal Rafael Anaisce das Chagas, engenheiro de pesca e pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (Cepnor/ICMBio). O levantamento reuniu expedições de campo, relatos de moradores e dados científicos que registram o animal também no rio Pará. Ainda não há confirmação de colônias estabelecidas em Belém, capital paraense.
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Crescimento do molusco no Pará e a aproximação do rio Amazonas
Medições feitas em outubro de 2024 em três pontos do Pedral do Lourenço, formação rochosa no rio Tocantins entre Marabá e Tucuruí, mostram o crescimento da população. Os dados quali-quantitativos do Cepnor/ICMBio foram divulgados em 19 de dezembro de 2025 na revista Acta Limnologica Brasiliensia. Eles indicam que a espécie já completou ao menos um ciclo reprodutivo na Amazônia brasileira, depois do primeiro registro na região em 2023.
- Densidade máxima no Pedral do Lourenço (outubro de 2024): 15.849 indivíduos por metro quadrado.
- Densidade média no Pedral do Lourenço (outubro de 2024): 11.940 indivíduos por metro quadrado, ante 88 indivíduos por metro quadrado no registro inicial de 2023.
- Comprimento dos exemplares coletados no rio Tocantins: entre 1,92 mm e 22,10 mm, com média de 12,22 mm.
- Velocidade estimada de dispersão em ecossistemas fluviais continentais: 240 km por ano.
Pesquisadores avaliam que o próximo passo da invasão no Norte pode ser a entrada plena na calha principal do rio Amazonas. Esse deslocamento depende de duas frentes: larvas microscópicas que flutuam com as correntes até grudar em pedras e cascos de barcos, e o tráfego intenso de embarcações que ligam as bacias da região.
Reservatório Barra do Juá registra colônias fixas no sertão pernambucano
No Nordeste, a presença do molusco na bacia do rio Pajeú foi registrada pela primeira vez em estudo de 2026 publicado na revista Biota Neotropica. A pesquisa é liderada pela pesquisadora Betsy Dantas de Medeiros. O foco é o reservatório Barra do Juá, com capacidade de armazenamento de 71.474.000 metros cúbicos de água, entre os municípios de Floresta e Betânia, no sertão de Pernambuco, em área sob influência do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF).
Os primeiros registros no reservatório são de 2023, quando exemplares apareceram presos apenas em cascos de embarcações, sem detecção no fundo do lago. Já nas coletas feitas ao longo de 2025, os cientistas encontraram o molusco fixado em cinco pontos distintos da zona litorânea. Para a equipe, o achado confirma a formação de uma população local definitiva.
Custos de limpeza e paradas em usinas e no abastecimento de água
O dano à infraestrutura acontece porque o molusco forma camadas densas sobre estruturas submersas, processo chamado de bioincrustação. Ao se acumularem em grades, filtros, tubulações e sistemas de resfriamento de turbinas, as colônias bloqueiam a passagem da água. Segundo dados históricos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pelo menos 50 usinas hidrelétricas brasileiras já foram atingidas, com paradas não programadas para limpeza e manutenção.
O setor elétrico gasta, em média, US$ 9,97 milhões por ano em ações de prevenção e controle do molusco. Pelo levantamento histórico do Ibama, uma usina de pequeno porte afetada registra prejuízo diário de cerca de R$ 40 mil por dia de paralisação. Na Usina de Itaipu, os custos extras chegaram a cerca de US$ 1 milhão por dia de limpeza e manutenção de turbinas.
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Fora da geração de energia, o entupimento de dutos compromete redes de abastecimento público, canais de irrigação, motores de embarcações e tanques-rede usados na pesca e na aquicultura. Nos rios invadidos, a alta taxa de reprodução e a falta de predadores naturais fazem o bivalve ocupar espaço, prejudicar a vegetação submersa e disputar alimento com espécies nativas. A mudança alcança toda a cadeia alimentar aquática.
De onde veio o molusco e o plano do Ibama para barrar sua entrada
O molusco chegou à América do Sul em 1991, identificado primeiro no rio da Prata, na Argentina. Ele atravessou o oceano na água de lastro de navios cargueiros vindos da Ásia, água captada para dar estabilidade à viagem e despejada nos portos de destino. No fim da década de 1990, alcançou os rios brasileiros e passou a subir as bacias pelo transporte fluvial.
Em dezembro de 2018, o Ibama publicou o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Mexilhão-dourado no Brasil. O documento previa, em um horizonte de 25 anos, impedir a entrada da espécie nas regiões hidrográficas Amazônica e Tocantins-Araguaia. A previsão foi superada cinco anos depois, com a chegada do invasor ao rio Tocantins em 2023.
Com a tecnologia atual, a erradicação completa é considerada inviável depois que a espécie se instala em rios ou reservatórios. Por isso, o enfrentamento se limita ao monitoramento de novas frentes de invasão, à prevenção no transporte de barcos e ao controle nas instalações industriais, com filtração, limpeza mecânica e tratamento químico das tubulações.















