Terremoto em Mianmar deixa 2.719 mortos e devasta cidades como Mandalay e Naypyitaw

Um terremoto de magnitude 7,7 abalou Mianmar na sexta-feira, 28 de março, deixando um rastro de destruição que já contabiliza 2.719 mortes até o início de abril. O epicentro, localizado a 16 quilômetros a noroeste de Mandalay, a segunda maior cidade do país, desencadeou tremores que derrubaram prédios, pontes e estradas em regiões como Sagaing, Meiktila e a capital Naypyitaw. A profundidade rasa do abalo, a apenas 10 quilômetros da superfície, intensificou os danos, afetando também Tailândia e China. Em Bangkok, um arranha-céu em construção desabou, matando 18 pessoas e deixando 76 desaparecidos sob escombros. Equipes de resgate, incluindo bombeiros locais e grupos internacionais, trabalham contra o tempo para encontrar sobreviventes em meio a uma infraestrutura colapsada e uma guerra civil que dificulta os esforços humanitários. A junta militar que governa Mianmar decretou estado de emergência em seis regiões e fez um raro apelo por ajuda global, enquanto hospitais lotados lutam para atender mais de 3.900 feridos.

Mandalay, coração cultural e budista do país, viu pagodes centenários desmoronarem e bairros inteiros reduzidos a escombros. Sobreviventes relatam cenas de desespero, com moradores escavando destroços com as mãos na ausência de máquinas pesadas. Em Naypyitaw, a torre de controle do aeroporto internacional caiu, paralisando operações aéreas essenciais para a chegada de suprimentos. A Organização das Nações Unidas mobilizou US$ 5 milhões em ajuda, e países como China, Rússia e Estados Unidos enviaram equipes e recursos médicos. O tremor, um dos mais fortes da história recente de Mianmar, expôs a vulnerabilidade das construções locais e reacendeu debates sobre a preparação do país para desastres naturais em meio a um conflito interno que já deslocou milhões.

A Tailândia também sentiu o impacto, com Bangkok registrando pânico nas ruas enquanto prédios balançavam. O desabamento do arranha-céu em construção na capital tailandesa, perto do mercado Chatuchak, transformou um canteiro de obras em uma pilha de concreto e aço, onde drones e cães farejadores buscam sinais de vida. Enquanto isso, em Mianmar, histórias de resiliência emergem, como o resgate de uma mulher de 63 anos após 91 horas sob os escombros em Naypyitaw. Esses eventos, somados à devastação econômica estimada em bilhões, colocam o terremoto como um marco trágico para a região, testando a solidariedade internacional e a capacidade de resposta em tempos de crise.

Cidades em ruínas

Mandalay, com seus 1,2 milhão de habitantes, tornou-se o símbolo da destruição causada pelo terremoto. Edifícios residenciais desabaram, e o monastério U Hla Thein, onde mais de 600 monges realizavam exames, sofreu um colapso parcial, matando pelo menos 80 pessoas e ferindo mais de 200. As ruas da cidade, antes movimentadas, agora estão cheias de escombros, com moradores relatando a falta de eletricidade, água potável e assistência imediata. A ponte Inwa, sobre o rio Irrawaddy, também cedeu, isolando comunidades e dificultando o transporte de ajuda para áreas próximas como Sagaing.

Em Naypyitaw, a capital planejada do país, a situação não é menos caótica. A queda da torre de controle do aeroporto internacional interrompeu voos, enquanto hospitais improvisados atendem vítimas ao ar livre devido à superlotação. Ruínas de pagodes e casas mostram a força do tremor, que danificou até prédios governamentais. A junta militar isolou algumas áreas afetadas, como conjuntos residenciais de funcionários públicos, mas imagens de satélite revelam a extensão dos estragos, com mais de 1.500 casas danificadas só em Mandalay.

Esforços de resgate em andamento

Salvar vidas tornou-se uma corrida contra o tempo em Mianmar e na Tailândia. Em Mandalay, equipes locais, apoiadas por grupos da China e Rússia, resgataram uma mulher viva após 60 horas sob os escombros do Great Wall Hotel, uma operação que durou cinco horas e trouxe esperança em meio à tragédia. Em Naypyitaw, bombeiros encontraram outra sobrevivente, uma idosa de 63 anos, após 91 horas presa em um apartamento destruído, em uma ação que levou mais de uma hora. Esses resgates, embora raros, destacam a determinação das equipes diante de condições adversas, como estradas bloqueadas e falta de equipamentos pesados.

Na Tailândia, a busca por 76 desaparecidos no arranha-céu de Bangkok entrou no quarto dia em 1º de abril. Usando drones e cães farejadores, os resgatistas detectaram sinais fracos de vida, mas o progresso é lento devido à complexidade dos destroços. O número de mortos no país subiu para 18, com a maioria das vítimas sendo trabalhadores da construção civil. Autoridades tailandesas confirmaram que o prédio, próximo ao mercado Chatuchak, estava em fase final de acabamento quando desabou, levantando questões sobre a segurança estrutural em áreas sísmicas pouco habituadas a tremores.

terremoto em Mianmar
terremoto em Mianmar – Foto: somkanae sawatdinak / Shutterstock.com

Números da tragédia

O terremoto deixou marcas profundas em números:

  • Mortes em Mianmar: 2.719 confirmadas até 1º de abril.
  • Feridos: Mais de 3.900 em Mianmar, com hospitais sobrecarregados.
  • Mortes na Tailândia: 18, todas ligadas ao desabamento em Bangkok.
  • Desaparecidos: 76 na Tailândia e centenas em Mianmar.

Impacto em meio à guerra civil

A tragédia em Mianmar ocorre em um contexto de instabilidade política e humanitária. Governado por uma junta militar desde o golpe de 2021, o país enfrenta uma guerra civil que já deslocou mais de 3,5 milhões de pessoas e devastou a economia. O general Min Aung Hlaing, líder da junta, fez um apelo incomum por ajuda internacional, pedindo doações de sangue e suprimentos médicos. Apesar disso, relatos indicam que ataques aéreos militares contra vilarejos continuaram após o terremoto, complicando ainda mais os esforços de resgate em áreas como o estado de Kayin e Shan.

A infraestrutura crítica, incluindo pontes, rodovias e aeroportos, sofreu danos severos, atrasando a chegada de ajuda. Em Sagaing, perto do epicentro, moradores afirmam que a assistência governamental é quase inexistente, deixando comunidades dependentes de esforços locais. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários estima que 23 mil sobreviventes precisam de assistência urgente, enquanto a Cruz Vermelha relata destruição generalizada em áreas rurais. A combinação de isolamento político, pobreza (40% da população vive abaixo da linha da pobreza) e conflito armado torna a recuperação um desafio monumental.

Resposta internacional

Mobilizar ajuda para Mianmar tem sido uma prioridade global desde o terremoto. Os Estados Unidos prometeram US$ 2 milhões por meio de organizações humanitárias locais e enviaram uma equipe da USAID, apesar das tensões com a junta militar. A União Europeia destinou US$ 2,7 milhões, enquanto a China forneceu equipes de resgate e suprimentos médicos, incluindo uma operação que salvou a mulher no Great Wall Hotel. A Rússia também enviou especialistas, e a Índia contribuiu com equipamentos de saúde, mostrando uma rara cooperação em meio às sanções internacionais contra o regime militar.

Na Tailândia, o governo coordena os esforços em Bangkok, onde a busca por sobreviventes segue intensa. A Organização Mundial da Saúde reportou que hospitais em Mandalay e Naypyitaw estão sem bolsas de sangue e anestésicos, enquanto 17 caminhões com suprimentos médicos estão a caminho, com chegada prevista para 2 de abril. O chefe da ONU, António Guterres, expressou solidariedade às vítimas, e o papa Francisco ofereceu orações pelos mortos e trabalhadores de resgate, destacando a dimensão humanitária da crise.

Danos estruturais em foco

Avaliar os estragos revela a escala do desastre. Em Mandalay, imagens de satélite mostram pagodes desmoronados e a ponte Inwa submersa no rio Irrawaddy. Naypyitaw perdeu a torre de controle do aeroporto, e o hospital geral teve paredes destruídas, com carros soterrados por escombros. Na Tailândia, o arranha-céu de Bangkok, com 30 andares, colapsou em segundos, engolindo trabalhadores e levantando poeira visível a quilômetros. Especialistas apontam que a profundidade rasa do terremoto amplificou os danos, especialmente em construções vulneráveis de madeira e alvenaria não reforçada, comuns em Mianmar.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que as perdas econômicas podem superar o PIB anual de Mianmar, que é de cerca de US$ 60 bilhões. A liquefação do solo, um risco apontado pelo USGS em áreas com mais de 1 mil km² afetados, ameaça agravar a situação, podendo causar mais colapsos de edifícios e deformações permanentes. Em Bangkok, onde tremores são raros, a tragédia expôs falhas na preparação sísmica, com autoridades prometendo revisar normas de construção após o incidente.

Histórias de sobrevivência

Resgatar sobreviventes tem sido um raio de esperança em meio à devastação. A mulher de 63 anos encontrada em Naypyitaw, após 91 horas sob os escombros, foi levada a um hospital em condição estável, enquanto a sobrevivente do Great Wall Hotel em Mandalay também se recupera. Em Bangkok, equipes detectaram sinais fracos de vida nos destroços do arranha-céu, mantendo viva a expectativa de mais resgates. Essas histórias contrastam com a perda de monges no monastério U Hla Thein e trabalhadores soterrados na Tailândia, mostrando a dualidade de desespero e resistência diante do desastre.

A população de Mandalay, muitas vezes sem eletricidade ou água, passou noites nas ruas com medo de novos tremores. Em Sagaing, a falta de ajuda levou moradores a organizar resgates improvisados, usando ferramentas manuais para buscar familiares. A solidariedade local, somada à chegada de equipes internacionais, reflete o esforço coletivo para enfrentar uma tragédia que já é considerada a mais mortal da história recente de Mianmar.

Cenário em Bangkok

Viver o terremoto em Bangkok foi uma experiência inédita para muitos moradores. O desabamento do arranha-céu em construção, capturado em vídeos que mostram uma nuvem de poeira engolindo o bairro de Bang Sue, gerou pânico nas ruas. Alarmes soaram, e pessoas correram para áreas abertas, enquanto a polícia estima que até 70 trabalhadores estavam no prédio no momento do colapso. O vice-chefe de polícia local, Worapat Sukthai, descreveu a cena como aterrorizante, com gritos de socorro ecoando sob os escombros.

A capital tailandesa, com 17 milhões de habitantes na região metropolitana, raramente enfrenta tremores dessa magnitude. O incidente deixou 18 mortos, incluindo nove trabalhadores no local do desabamento, e as buscas por sobreviventes continuam com o apoio de tecnologia avançada. Brasileiros na cidade relataram o susto, com uma testemunha dizendo que a piscina de seu prédio “parecia o mar” durante o tremor, enquanto outros correram para fora de casa temendo o pior.

Linha do tempo do desastre

O terremoto e seus desdobramentos seguem esta cronologia:

  • 28 de março, 12h (horário local): Tremor de magnitude 7,7 atinge Mianmar, com epicentro perto de Mandalay.
  • 29 de março: Número de mortos sobe para 1.644; ajuda internacional começa a chegar.
  • 31 de março: Junta militar atualiza para 2.065 mortes; resgates continuam em Mandalay e Bangkok.
  • 1º de abril: Total de vítimas chega a 2.719 em Mianmar, com 18 na Tailândia.

Um país vulnerável

Situado na Falha de Sagaing, entre as placas tectônicas da Índia e de Sunda, Mianmar é sismicamente ativo, mas tremores tão devastadores são raros. O último evento similar, de magnitude 6,8, ocorreu em 2012, matando 26 pessoas. O terremoto de 28 de março, porém, superou todos os registros recentes, com especialistas comparando-o ao de 1956, que também atingiu a região central. A falta de construções preparadas para abalos, aliada à profundidade rasa do epicentro, explica a destruição em massa, que afetou mais de 1 milhão de pessoas em áreas densamente povoadas.

A guerra civil e o isolamento político agravam o cenário. Com 40% da população abaixo da linha da pobreza e uma economia fragilizada, Mianmar enfrenta um desafio sem precedentes. A ajuda internacional, embora crescente, esbarra em danos à infraestrutura e na instabilidade causada pelo conflito, enquanto o governo paralelo, o Governo de Unidade Nacional, também tenta coordenar resgates em áreas rebeldes. O terremoto expôs as fragilidades de um país já em crise, tornando a recuperação uma tarefa de longo prazo.

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