Política de Trump derruba mercados e eleva chance de recessão global, diz JPMorgan

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Bolsa de Valores Foto: Bolsa de Valores - Foto: Zakharchuk/Shutterstock.com

A onda de tarifas anunciada por Donald Trump sacudiu os mercados globais nesta sexta-feira, 4 de abril de 2025, trazendo temores de uma crise econômica iminente. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, sentiu o impacto em sua cotação em dólar, registrando queda superior a 3% no pré-market de Nova York. O movimento reflete a reação em cadeia desencadeada pelas medidas protecionistas dos Estados Unidos, que agora enfrentam retaliações contundentes, como as tarifas de 34% impostas pela China sobre produtos americanos. O JPMorgan, um dos maiores bancos do mundo, revisou suas projeções e elevou de 40% para 60% a probabilidade de uma recessão global ainda este ano, apontando a política comercial americana como o principal gatilho.

O pregão desta sexta-feira começou sob forte pressão nos mercados internacionais. O iShares MSCI Brazil (EWZ), fundo de índice que acompanha o desempenho das ações brasileiras em Wall Street, despencou 3,49% no pré-market, negociado a US$ 25,41 por volta das 8h40. A queda acompanha o cenário global: os futuros de Wall Street recuam mais de 3%, com a Nasdaq liderando as perdas ao cair 4,16%. Na Europa, as bolsas operam com baixas superiores a 4%, impactadas pela tarifa de 20% anunciada pelos EUA sobre produtos do bloco europeu.

A escalada das tensões comerciais ganhou um novo capítulo com a resposta da China. O Ministério das Finanças chinês anunciou que, a partir de 10 de abril, todos os produtos norte-americanos importados pelo país asiático estarão sujeitos a tarifas adicionais de 34%. A medida é uma retaliação direta às políticas de Trump, que incluem tarifas recíprocas e restrições a parceiros comerciais estratégicos. O mercado agora teme que o embate entre as duas maiores economias do planeta arraste o mundo para um cenário de estagnação econômica.

Impacto imediato nos mercados globais

A decisão de Trump de impor tarifas generalizadas, como os 34% sobre a China, 26% sobre a Índia e 20% sobre a União Europeia, reverberou rapidamente. Em Nova York, os investidores ajustam suas posições diante do risco crescente de uma guerra comercial em larga escala. O Nasdaq, que reúne gigantes da tecnologia, sofre perdas expressivas devido à dependência de cadeias globais de suprimentos, muitas delas ligadas à China. Já o STOXX 600, índice que representa as principais empresas europeias, registra queda de 3%, ampliando as perdas acumuladas na semana.

No Brasil, o Ibovespa em dólar reflete a percepção de que, apesar de o país ter sido menos afetado diretamente pelas tarifas americanas — com uma alíquota de 10% —, os efeitos indiretos de uma recessão global podem atingir as exportações de commodities. Ontem, o índice brasileiro chegou a resistir à pressão internacional, sustentado pela ideia de que o impacto local seria limitado. Hoje, porém, a realidade se impõe, e o mercado doméstico acompanha a tendência de aversão ao risco que domina o cenário global.

Por que o risco de recessão aumentou

O JPMorgan explica o salto na probabilidade de recessão global com base em modelos econômicos que consideram o impacto das tarifas sobre o comércio internacional. Bruce Kasman, economista-chefe do banco, destaca que a implementação total das políticas anunciadas por Trump representa um choque macroeconômico significativo. Ele prevê que os custos adicionais impostos às famílias e empresas americanas, combinados com a redução do consumo e da atividade econômica em outros países, podem levar os EUA e o mundo a uma recessão ainda em 2025.

Analistas apontam que as tarifas elevam os preços de bens importados, pressionando a inflação nos Estados Unidos. Isso força os consumidores a pagar mais por produtos do dia a dia, enquanto empresas enfrentam custos maiores em insumos e cadeias de produção. Na Europa, a tarifa de 20% ameaça setores como o de vinhos e automóveis, que dependem fortemente do mercado americano. Na Ásia, a China já sinaliza que pode limitar ainda mais as exportações de terras raras, essenciais para a indústria de tecnologia, como forma de ampliar sua resposta às medidas americanas.

Retaliações que acirram o conflito

A resposta da China às tarifas de Trump não se limita aos 34% sobre produtos americanos. Pequim também anunciou restrições à exportação de terras raras, como samário e gadolínio, materiais cruciais para a fabricação de chips e dispositivos eletrônicos. Além disso, 16 empresas americanas foram incluídas em uma lista de controle de exportação, proibindo-as de acessar tecnologias chinesas de uso duplo. Outras 10 companhias foram classificadas como “entidades não confiáveis” por supostamente apoiar Taiwan, intensificando as tensões geopolíticas no embate comercial.

  • Setores afetados nos EUA: Agricultura (soja, carne), energia (gás natural liquefeito) e tecnologia (chips).
  • Medidas chinesas adicionais: Suspensão de importações de aves de dois produtores americanos após alegações de uso de drogas proibidas.
  • Impacto global: Redução da oferta de terras raras pode encarecer produtos eletrônicos em todo o mundo.
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Bolsa de Valores – Foto: Zakharchuk/Shutterstock.com

Escalada comercial pressiona o dólar e as commodities

Enquanto os mercados afundam, o dólar ganha força como ativo de segurança. No Brasil, a moeda americana ultrapassou os R$ 5,80 nesta sexta-feira, refletindo a busca por proteção em meio à incerteza. A valorização do dólar pressiona os preços das commodities, principal motor das exportações brasileiras, como soja e minério de ferro. Embora o Brasil tenha recebido uma tarifa menor em comparação com outros países, a desaceleração da economia global pode reduzir a demanda por esses produtos, afetando o saldo comercial do país.

A guerra comercial também mexe com as projeções de política monetária. No México e no Canadá, dois dos principais alvos das tarifas americanas, bancos centrais podem ser forçados a cortar juros para conter a inflação gerada pelo encarecimento das importações. O Morgan Stanley estima que o PIB mexicano pode encolher significativamente, enquanto a Oxford Economics prevê um aumento do desemprego nos EUA, de 4,1% para 4,5%, como reflexo das medidas protecionistas.

Como as tarifas de Trump começaram

A política de tarifas recíprocas de Trump começou a tomar forma no início de seu segundo mandato, em fevereiro de 2025. Após assumir o cargo, o presidente americano assinou decretos que impuseram taxas de 25% sobre aço e alumínio importados, incluindo de aliados como Canadá e México. Em março, ele anunciou as chamadas tarifas recíprocas, que visam equalizar as taxas cobradas por outros países sobre produtos dos EUA. A justificativa da Casa Branca é corrigir déficits comerciais anuais que chegam a US$ 1 trilhão e estimular a produção doméstica.

Desde então, as medidas escalaram rapidamente. Em abril, Trump elevou as tarifas sobre a China para 34%, enquanto Índia e União Europeia enfrentam taxas de 26% e 20%, respectivamente. A estratégia, segundo o presidente, é trazer de volta investimentos de empresas como Apple, Nvidia e Hyundai para os EUA. No entanto, o efeito imediato tem sido o oposto: incerteza, quedas nas bolsas e retaliações que ameaçam desestruturar o comércio global.

O que dizem os números da crise

Os dados mais recentes mostram o tamanho do impacto econômico em curso. O comércio entre EUA e China, que movimentou US$ 401 bilhões em importações chinesas para os EUA em 2024, agora enfrenta barreiras significativas. A China, por sua vez, importou US$ 131 bilhões dos americanos no mesmo período, valor que deve cair com as novas tarifas. Na Europa, o STOXX 600 acumula perdas de 6% na semana, enquanto o Ibovespa em dólar reflete a cautela dos investidores com o Brasil.

Analistas do Goldman Sachs estimam que as tarifas podem reduzir o PIB americano em até 1,1 ponto percentual em 2025. Já o Morgan Stanley prevê uma inflação adicional de 0,3 a 0,6 pontos percentuais nos EUA nos próximos meses, o que limita a capacidade do Federal Reserve de apoiar a economia com cortes de juros. No cenário global, o JPMorgan alerta que o crescimento do PIB mundial pode ser cortado em até 1 ponto percentual caso as retaliações persistam.

Cronograma das tarifas e retaliações

As ações de Trump e as respostas dos parceiros comerciais seguem um calendário acelerado:

  • Fevereiro de 2025: Tarifas de 25% sobre aço e alumínio entram em vigor nos EUA.
  • Março de 2025: Anúncio das tarifas recíprocas, com taxas iniciais sobre Canadá, México e China.
  • 2 de abril de 2025: Trump assina decreto ampliando tarifas para quase todos os países, incluindo 10% ao Brasil.
  • 10 de abril de 2025: China implementa tarifas de 34% sobre produtos americanos.
  • Próximos passos: União Europeia e Índia preparam retaliações para maio, caso não haja negociações.

Efeitos em cadeia na economia global

Além dos impactos diretos, as tarifas de Trump estão redesenhando as relações comerciais em todo o mundo. A China, por exemplo, pode intensificar laços com países como o Brasil, redirecionando exportações que antes iriam para os EUA. Isso poderia baratear produtos chineses no mercado brasileiro, mas também ameaçar a indústria local, que já enfrenta competição acirrada de plataformas como Shein e AliExpress. O setor automotivo brasileiro, representado pela Anfavea, já registra queda nas vendas financiadas, que caíram de 45% em 2024 para 30% no início deste ano.

Na Europa, a produção de bens de luxo, como vinhos franceses e carros alemães, sente a pressão das tarifas americanas. O premier australiano, Anthony Albanese, criticou as medidas, mas descartou retaliações imediatas, argumentando que elas levariam a uma “corrida para o fundo do poço”. Já o Japão, outro parceiro comercial dos EUA, viu seu mercado acionário registrar a pior semana em anos, com o índice Nikkei caindo 1,57% na abertura desta sexta-feira.

Setores mais vulneráveis à guerra comercial

A guerra tarifária atinge diferentes setores com intensidades variadas. Nos EUA, os agricultores temem perdas significativas, já que a China é o maior destino de produtos como soja e carne suína. As tarifas de Pequim sobre esses bens, que variam de 10% a 15%, entram em vigor em 10 de abril e podem repetir o cenário de 2018, quando o Brasil ganhou espaço como fornecedor do mercado chinês. Na tecnologia, a restrição às terras raras ameaça gigantes como Apple e Nvidia, que dependem desses materiais para seus produtos.

  • Agricultura americana: Soja, carne suína e aves enfrentam barreiras na China.
  • Tecnologia global: Encarecimento de chips e eletrônicos devido à escassez de terras raras.
  • Indústria europeia: Vinhos, automóveis e aço perdem competitividade nos EUA.
  • Brasil: Possível aumento de importações chinesas e queda na demanda por commodities.

O papel das empresas na nova realidade

Grandes corporações já sentem o peso das tarifas. Nos EUA, montadoras como General Motors e Ford pressionaram Trump por isenções temporárias, obtidas em março, mas a incerteza persiste. A Apple anunciou planos de ampliar sua produção doméstica, enquanto a TSMC, maior fabricante de chips do mundo, avalia investimentos adicionais em solo americano. No entanto, analistas alertam que essas mudanças não ocorrem da noite para o dia e podem elevar custos operacionais, repassados aos consumidores.

A volatilidade também afeta os bancos. O Bank of America, o JPMorgan Chase e o Citigroup registraram quedas de cerca de 2% no pré-market desta sexta-feira, refletindo a preocupação com cortes de juros globais e o impacto das tarifas no crescimento econômico. No Japão, a queda nas ações do setor bancário intensificou as perdas do mercado local, enquanto na Europa os bancos enfrentam riscos adicionais com a desvalorização do euro frente ao dólar.

Perspectivas para os próximos meses

Olhando adiante, o mercado aguarda os próximos passos de Trump e as respostas de outros países. A União Europeia planeja negociar isenções, mas já prepara tarifas retaliatórias caso as conversas fracassem. A China, por sua vez, mantém uma postura cautelosa, com tarifas menores que as americanas, sinalizando espaço para diálogo. No Brasil, o governo monitora os desdobramentos, enquanto a Confederação Nacional da Indústria alerta para os riscos de uma desaceleração global sobre os empregos no setor de transformação, que exporta bilhões para os EUA.

A incerteza domina o cenário econômico. O Federal Reserve, que mantém as taxas de juros entre 4,25% e 4,5%, enfrenta um dilema: cortar juros para estimular a economia ou mantê-los para conter a inflação impulsionada pelas tarifas. No México, o peso se deprecia frente ao dólar, enquanto o Canadá avalia taxar US$ 107 bilhões em produtos americanos, de suco de laranja a aço, em uma escalada gradual que começa neste mês.

Fatores que agravam o cenário econômico

Além das tarifas, outros elementos contribuem para o pessimismo. A economia chinesa já enfrenta desafios internos, como a crise imobiliária e a queda no consumo das famílias, que representou apenas 29% da atividade econômica no último trimestre de 2024, ante 59% antes da pandemia. Nos EUA, a inflação, embora distante do pico de 2022, ronda os 3%, e pode chegar a 6% com as tarifas, segundo especialistas. Esse cenário de estagflação — alta inflação com crescimento estagnado — é um dos maiores temores dos investidores.

O Brasil, mesmo com uma tarifa menor, não está imune. A Embraer, por exemplo, pode sofrer com a redução da demanda por aviões nos EUA, enquanto o setor siderúrgico teme perdas em um mercado que absorve cerca de um quinto de suas exportações. A combinação de dólar alto, inflação importada e incerteza global cria um ambiente desafiador para a economia doméstica, que vinha se recuperando lentamente.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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