Inteligência artificial sustenta PIB dos EUA, mas eleva risco global

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Inteligência artificial para empresas - gnepphoto / shutterstock.com Foto: Inteligência artificial para empresas - gnepphoto / shutterstock.com

O economista André Sacconato, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), divulgou na sexta-feira (23) uma análise apontando que os investimentos em inteligência artificial (IA) deixaram de ser apenas uma pauta tecnológica para se tornarem uma variável macroeconômica nos Estados Unidos. Com aportes crescendo a taxas próximas de dois dígitos, a expansão de datacenters, chips e infraestrutura de redes sustenta a demanda agregada norte-americana, mas amplia a vulnerabilidade econômica global diante da pressão sobre a rede elétrica e das incertezas sobre o retorno financeiro.

Em um ambiente de juros elevados, no qual outros segmentos do investimento privado perdem fôlego, a atuação das grandes empresas de tecnologia (Big Techs) funciona como âncora da expansão norte-americana. O autor, que também é membro do Conselho de Economia Empresarial e Política da FecomercioSP, PhD em Economia, Relações Governamentais e Ambiente de Negócios e professor do MBA da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA-USP), adverte para a dependência gerada por esse movimento. “O risco, portanto, não está na IA em si, mas na concentração do crescimento em torno de um único ciclo de investimento”, afirmou André Sacconato.

Inteligência artificial - Quality Stock Arts / shutterstock.com
Foto: Inteligência artificial – Quality Stock Arts / shutterstock.com

Mercado financeiro troca ações de inteligência artificial por títulos públicos

A dependência da economia norte-americana em relação às decisões de um grupo restrito de conglomerados condiciona o crescimento do país à saúde financeira dessas empresas e ao sucesso de projetos cujos retornos ainda não foram plenamente comprovados. Como os Estados Unidos figuram entre os principais motores da demanda mundial, uma eventual reversão desse ciclo de investimentos produz efeitos fora de suas fronteiras. Nos mercados financeiros, os primeiros sinais de cautela já são registrados pelos investidores, que passaram a retirar recursos de ações ligadas à inteligência artificial diante das dúvidas sobre a rentabilidade futura da tecnologia no longo prazo.

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Essa mudança na percepção de risco é acompanhada pela maior procura por títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries), papéis da dívida pública considerados mais previsíveis pelo mercado de renda fixa. O movimento ocorre em conjunto com outros indicadores e restrições do quadro macroeconômico e político dos Estados Unidos:

  • Taxa de expansão dos aportes privados em datacenters, chips e redes: próxima de dois dígitos.
  • Rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) com vencimento em dez anos: próximo de 5%, o que eleva o custo de oportunidade para aplicações de maior risco.
  • Política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos): tendência de manutenção de postura restritiva devido às pressões inflacionárias alimentadas pelo petróleo e por tensões geopolíticas, encarecendo o custo de capital para projetos intensivos em recursos e de longo prazo de maturação.
  • Calendário eleitoral nos Estados Unidos: expectativas de avanço do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato já estão incorporadas aos preços dos ativos, mas mudanças na agenda econômica podem alterar as perspectivas de expansão, sem que o país tenha um substituto imediato caso o ritmo de aportes em IA diminua.

Consumo de energia pelos datacenters de inteligência artificial e disputa com a China

A infraestrutura energética tornou-se um dos principais obstáculos para a manutenção desse ciclo de aportes nos Estados Unidos, uma vez que os datacenters consomem eletricidade em escala industrial e a disputa por capacidade de geração e distribuição já pressiona as tarifas. Diante desse quadro, governos estaduais e municipais norte-americanos passaram a cobrar das empresas de tecnologia uma fatia maior dos custos de expansão da rede elétrica, medida que reduz a rentabilidade potencial de novos empreendimentos e faz a conta de luz ganhar peso nas decisões corporativas. Para os cidadãos, a divisão dos custos mostra-se desigual e virou tema de disputa política em ano eleitoral: embora reúna algumas das companhias mais capitalizadas do mundo e com amplo acesso ao mercado de crédito e de capitais, o setor recebe expressivos benefícios fiscais financiados pelos impostos dos contribuintes, que ainda correm o risco de pagar mais caro pela própria eletricidade para viabilizar a expansão computacional dessas empresas.

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Apesar da pressão sobre as tarifas e o orçamento público, o governo em Washington não pode desacelerar deliberadamente o setor. A inteligência artificial está no centro da competição tecnológica e geopolítica com a China, onde está em jogo a liderança em inovação e a capacidade de converter ganhos tecnológicos em produtividade, competitividade e poder econômico. A tarefa do governo norte-americano consiste em sustentar a disputa sem repassar os custos de maneira desproporcional a consumidores e contribuintes. “Até que esses ganhos se materializem, porém, a questão central permanece: quem pagará a conta dessa corrida tecnológica e por quanto tempo a sociedade estadunidense estará disposta a arcar com seus custos?”, declarou o economista na publicação de 23 de outubro de 2026.

Impacto de uma correção nos aportes em inteligência artificial sobre o Brasil

Uma economia apoiada em incentivos públicos, concentrada em poucos setores e pressionada por restrições elétricas fica exposta a uma correção abrupta caso os retornos financeiros decepcionem ou as prioridades políticas mudem nos Estados Unidos. Para o restante do mundo, o desdobramento inclui maior volatilidade na demanda global, permanência de juros norte-americanos elevados por mais tempo e encarecimento do financiamento para países emergentes.

No caso do Brasil, a vulnerabilidade a um choque externo dessa natureza ocorre em um momento em que o país já registra perda de fôlego na atividade econômica, juros altos e investimento enfraquecido. Em análises anteriores divulgadas ao longo de outubro de 2026, André Sacconato já havia apontado que a economia brasileira enfrenta um ambiente restritivo marcado por inflação de serviços resistente, crédito caro e necessidade de um ajuste fiscal crível para permitir a queda sustentável da taxa básica de juros (Selic) em 2027.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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