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Médicos prescrevem implantes com hormônios anabolizantes proibidos para fins estéticos, contornando uma decisão da Anvisa de outubro de 2024. Apresentam os dispositivos como tratamentos para endometriose, síndrome dos ovários policísticos e menopausa condições sem comprovação científica de resposta a esses implantes. O Conselho Federal de Medicina (CFM) identifica infrações éticas nesse modelo, mas o esquema permanece operacional. Notas fiscais, processos judiciais e relatos de pacientes revelam como farmácias de manipulação produzem em larga escala, médicos prescrevem e lucram em múltiplas frentes do negócio.

O mercado de farmácias de manipulação faturou R$ 11,3 bilhões entre 2019 e 2023. Especialistas apontam que implantes hormonais puxaram boa parte desse montante — mas nenhum dado oficial quantifica o tamanho real do segmento, já que os produtos não circulam por canais rastreáveis.

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Produção industrial disfarçada de manipulação individualizada

A lei exige que farmácias de manipulação preparem implantes por encomenda, um a um. Registros da Elmeco, uma das maiores do país, mostram pedidos de 400 implantes padronizados de hormônios como gestrinona e testosterona prática irregular que indica produção em escala industrial.

Em novembro, o Ministério Público da Bahia pediu à Justiça a interdição da Elmeco por “manipulação e comercialização de medicamentos controlados sem prescrição médica prévia”. A empresa nega irregularidades e afirma atuar em conformidade com normas sanitárias.

Implantes são vendidos à farmácia por cerca de R$ 200 e repassados a pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil margem que estimula o crescimento do volume.

Triangulação médico-farmácia-curso cria conflito de interesse

A reportagem identificou estrutura em que um mesmo médico prescreve implantes, oferece cursos para treinar outros prescritores e participa de uma farmácia de manipulação que fornece os produtos. O CFM classifica essa triangulação como infração ética, embora reconheça que desde 2024 não proíba médicos sócios de empresas.

  • Médico Gabriel Almeida: oferecia cursos sobre implantes, prescrevia produtos aos pacientes e era sócio oculto da farmácia Unikka alvo da Operação Slim da Polícia Federal em novembro
  • Médico Luiz Paulo Schaefer Pinto: ministra cursos em estádios de futebol, prescreve em consultório a R$ 2,5 mil a consulta e participa de holding que controla a farmácia Bio Meds
  • Ginecologista Bruno Jacob: formado por Luiz Paulo, acumula 2,5 milhões de inscritos no YouTube, elogia a Bio Meds em vídeos e prescreve implantes

A Bio Meds foi inspecionada pela Anvisa em março de 2026. Agentes encontraram medicamentos manipulados em grande volume sem pedido médico incompatível com farmácia de manipulação e ausência de testes de controle de matérias-primas.

Mulheres exploradas como alvo central do mercado

Profissionais que se apresentam como “hormonologistas” especialidade não reconhecida pelo CFM tratam níveis naturalmente baixos de testosterona em mulheres como explicação para queixas vagas de saúde, sem respaldo científico. Redes sociais funcionam como principal vitrine, com promessas de melhora de libido, desempenho nos treinos e até qualidade da vida conjugal.

Médico Lázaro Lourenço oferece curso de R$ 996 que ensina estratégias para transformar inseguranças íntimas das mulheres em argumentos de venda. Em aulas, orienta alunos a conversar com parceiros sobre desempenho sexual da paciente, sugerindo que o marido pague pelo implante como forma de “convencer” prática que caracteriza venda casada.

Ginecologista Bruno Jacob, em resposta em rede social, respondeu a paciente sobre nível de testosterona de 13 aos 48 anos com ironia: “Tá bom pra você jogar xadrez com seu marido no sábado à noite; tá muito bom pra vocês virarem amigos; tá ótimo pra você […] não ter lubrificação nenhuma; orgasmo então… isso aí é maravilhoso.”

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) afirma que não há correlação direta entre nível isolado de testosterona e queixas sexuais. Essa abordagem reduz problemas complexos de saúde sexual a um exame único e induz pacientes a tratamentos sem indicação comprovada.

Justiça condena médico por complicações graves

Paciente Ana Karina Porto Oliveira recebeu implante hormonal em maio de 2022 do ginecologista Bruno Jacob. O dispositivo combinava gestrinona, metformina, estradiol, estriol e testosterona — todos anabolizantes. Ana tinha um fator de risco crítico: vive com apenas um rim desde a infância.

Semanas após a implantação, internação por infarto renal associado a trombose, edema pulmonar agudo e necessidade de respirador na UTI. Perícia judicial concluiu haver “nexo causal” direto entre implante e infarto renal.

Ana relatou que não foi informada de receber hormônios anabolizantes. O médico garantiu riscos “praticamente inexistentes”. Durante internação, ao cobrar assistência ao médico, ele respondeu que atendia “400 pacientes por mês” e não poderia visitar todos os internados. Sentença transitada em julgado condenou o médico a indenizar a paciente.

CFM identifica dupla infração ética

Bruno Leandro de Souza, conselheiro do CFM, afirma que prescrição de implantes com fins estéticos, anabolizantes ou ganho muscular infringe tanto o Código de Ética Médica quanto resoluções específicas do conselho sobre hormônios.

Existe um potencial conflito de interesse que deve ser investigado. O médico está induzindo o paciente a usar uma prescrição da farmácia ao qual ele pertence.

Estratégias que privilegiam a venda de procedimentos sobretudo explorando inseguranças caracterizam “mercantilização da medicina”, segundo conselheiro. O CFM informou que investigará os casos após publicação da reportagem.

Luiz Paulo recebeu sanção do CFM em 2024: registro suspenso por 30 dias por “divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico”. Formado em 2016 sem residência médica, ostenta vida de luxo em redes sociais, incluindo carro de R$ 2,2 milhões dado à esposa.

Entidades médicas cobram proibição total à Anvisa

Desde 2023, organizações como Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM), Febrasgo e Abeso enviaram cartas à Anvisa classificando implantes como “grave problema de saúde pública”. Alertam que produtos carecem de bula, dados de segurança e eficácia, e podem causar infarto, AVC e trombose.

Endocrinologista Clayton Macedo, doutor pela Unifesp, relata atender pacientes saudáveis que desenvolveram complicações graves após implantes. Muitas chegam internadas sem saber o que foi implantado. O hormônio continua liberado no corpo — em alguns casos, nem remoção é possível.

Ginecologista Zsuzsanna Di Bella, da Febrasgo: testosterona age além do músculo. O coração responde risco real. Estamos vendo mulheres saudáveis saindo dos consultórios com problemas cardíacos importantes.

Ministério Público Federal pediu proibição total dos implantes manipulados em dezembro de 2025. Até a publicação, Anvisa não respondeu.

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