Decreto de Vargas em 1932 oficializou celebração das mães com influência do modelo americanoPor Luís Henrique Costa
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O segundo domingo de maio tornou-se oficialmente dedicado às mães no Brasil através do Decreto nº 21.366, assinado por Getúlio Vargas em 5 de maio de 1932. A medida legislativa reconhecia a relevância dos sentimentos maternos e sua contribuição para a bondade e solidariedade humana na sociedade brasileira. O documento formalizava uma homenagem que já circulava em práticas sociais, especialmente em comunidades religiosas, mas ainda carecia de reconhecimento estatal. A oficialização refletia influência direta do modelo de comemoração adotado nos Estados Unidos, onde a data já havia conquistado forte apelo popular anos antes.
A promulgação de Vargas e seus fundamentos legais
O decreto presidencial estabelecia explicitamente que “o segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano”. A redação sublinhava o caráter moral e social que se desejava atribuir à celebração, fundamentando a decisão em princípios de reconhecimento coletivo. O texto legislativo buscava alinhar a iniciativa governamental com anseios sociais e morais da época, inserindo-a em um contexto maior de construção de valores cívicos e familiares sob a ótica da gestão varguista.
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O documento apresentava três considerações principais para justificar a criação da data oficial:
- Vários dias do ano já haviam sido oficialmente dedicados à lembrança de fatos e sentimentos profundamente marcados na consciência coletiva.
- O sentimento de ternura, respeito e veneração evocado pelo amor materno é um dos que mais distinguem e dignificam a espécie humana.
- O Estado não pode ignorar as legítimas imposições da consciência coletiva, sendo seu dever reconhecê-las e prestar apoio moral a toda obra que vise cultuar sentimentos que conferem força afetiva de cultura e aperfeiçoamento humano.
Anna Jarvis e a origem americana da celebração moderna
O modelo para a celebração do Dia das Mães no Brasil foi diretamente influenciado pelos Estados Unidos através da iniciativa de Anna Maria Jarvis (1864-1948). A história começou em 1905, quando sua mãe faleceu. Profundamente afetada pela perda, Jarvis iniciou uma campanha vigorosa para que houvesse uma data oficial dedicada à exaltação do sentimento materno. A mãe de Anna, também chamada Anna, era amplamente reconhecida em sua comunidade na Virgínia Ocidental como uma figura de grande importância social, atuando na Igreja Metodista e desenvolvendo diversos trabalhos comunitários.
A iniciativa de Anna Jarvis, mesmo sendo uma mulher solteira e sem filhos, rapidamente ganhou proporções consideráveis. O apelo emocional e a ressonância com o público foram tão fortes que o presidente americano Woodrow Wilson (1856-1924) decidiu oficializar o segundo domingo de maio como o Dia das Mães em todo o país. Este reconhecimento presidencial solidificou a data no calendário americano, servindo de inspiração para outras nações, incluindo o Brasil. A campanha demonstrou o poder de um sentimento universal em gerar um movimento de grande escala, atravessando fronteiras e encontrando terreno fértil em diferentes contextos culturais.
Consolidação durante o regime militar e valorização familiar
Embora tenha sido oficializada em 1932, a verdadeira consolidação e o forte apelo da data no Brasil ocorreram mais intensamente durante o regime militar entre 1964 e 1985. A ditadura implementou políticas de valorização familiar que ressoavam com a importância da figura materna. Naquele período, houve uma valorização intensa da família e, em particular, da figura materna, alinhando-se a um ideal social propagado pelo governo. A maternidade era um ideal social amplamente exaltado, com mulheres dedicadas aos filhos sendo perfiladas em concursos e ganhando destaque em capas de revista.
Antes da oficialização de Vargas, contudo, já existiam no Brasil algumas manifestações de homenagem às mães, principalmente ligadas a igrejas cristãs. O mês de maio era tradicionalmente associado à comemoração do mês de Maria, a mãe de Jesus, facilitando as associações com o papel materno. Registros históricos apontam que em 12 de maio de 1918 houve uma celebração dedicada ao Dia das Mães no Rio Grande do Sul, organizada pela Associação Cristã de Moços. A Igreja Católica no Brasil incorporou a tradição de forma mais ampla em 1947, por iniciativa do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jaime de Barros Câmara.
Transformação comercial e impacto econômico
A transição da celebração do Dia das Mães para um evento de forte cunho comercial foi um processo natural e relativamente rápido. Na cultura ocidental, muitas datas comemorativas se interligam ao consumo e à troca de presentes, e o Dia das Mães não foi exceção. O comércio visualizou na data uma grande oportunidade de negócios, impulsionada pelo forte apelo emocional e sentimental que a figura materna representa na cultura do país. Atualmente, o Dia das Mães ocupa a posição de segunda data mais importante para o comércio brasileiro, superada apenas pelo Natal.
A movimentação econômica gerada pela data supera a do Dia dos Namorados, Dia dos Pais e Dia das Crianças. Lojistas utilizam o Dia das Mães para comercializar não apenas vestuário e artigos pessoais como perfumes, joias, maquiagem e bolsas, mas também eletrodomésticos. Historicamente, a ideia de que um presente para a mãe era um presente para o lar impulsionava a venda de bens duráveis. Segmentos de móveis e eletrodomésticos sempre registraram desempenho muito bom neste período, oferecendo uma oportunidade vital para comercializar produtos de maior valor agregado antes do final do ano.
Perenidade entre afeto e economia
A trajetória do Dia das Mães no Brasil ilustra como uma celebração pode evoluir de uma iniciativa política e social para um fenômeno de vastas implicações culturais e econômicas. Desde sua oficialização por Getúlio Vargas, inspirada por movimentos americanos, a data se entrelaçou profundamente com o tecido social brasileiro. A dualidade do Dia das Mães é evidente: permanece como um símbolo de amor e gratidão familiar, ao mesmo tempo em que se solidificou como um motor essencial para a economia varejista. Este equilíbrio entre o sentimental e o comercial assegura a sua perenidade no calendário nacional, garantindo que, ano após ano, o segundo domingo de maio continue sendo um momento de celebração enraizado nos laços familiares.















