A transformação no cenário empresarial brasileiro vai além dos avanços tecnológicos, como algoritmos e inteligência artificial. Essa mudança ocorre principalmente nas esferas de decisão, onde a crescente presença de mulheres em cargos de liderança impulsiona uma reavaliação do que realmente define o sucesso para as corporações. Essa tendência foi o foco de um painel na Expert XP 2026, ocorrido em 28 de julho de 2026.
Durante o evento, três executivas que estão na vanguarda dessa alteração – Cris Rego, CEO do Fert Group; Heloisa Rios, conselheira e especialista em estratégia; e Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude – debateram como temas antes considerados pessoais, como a saúde mental e a fertilidade, estão se convertendo em ativos estratégicos e, em alguns casos, em requisitos legais. Heloisa Rios enfatizou que a governança corporativa passa por um ciclo de amadurecimento, onde a mudança pode vir do “design”, “decreto” ou “desgraça”. Ela argumenta que a verdadeira liderança proativa integra o impacto humano e a sustentabilidade no cerne dos negócios.
Saúde mental se consolida como pauta estratégica e legal
A saúde mental serve como um exemplo notório dessa evolução. Tatiana Pimenta fundou a Vittude em 2016, uma plataforma que conecta pacientes a psicólogos para sessões de terapia online. Ela lembra que a criação da empresa surgiu da falta de acesso a esses serviços e da percepção de que o burnout se tornaria uma doença ocupacional, acarretando custos previdenciários e trabalhistas para as organizações.
A antecipação da mudança do Código Internacional de Doenças (CID-10 para CID-11) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sinalizou que a questão da saúde mental se tornaria um encargo significativo para as empresas. O que começou como uma luta pela regulamentação da terapia online hoje se transformou em uma exigência da Norma Regulamentadora 1 (NR1), que obriga as empresas a identificar e gerenciar riscos psicossociais. Essa obrigatoriedade impulsionou o crescimento da Vittude, que multiplicou seu tamanho em 12 vezes entre 2020 e 2022, demonstrando que o bem-estar deixou de ser um item secundário.
Fertilidade ganha espaço como benefício corporativo
Se a saúde mental já está bem estabelecida, a fertilidade agora começa a trilhar o mesmo caminho. Cris Rego, líder do Fert Group, a maior rede de clínicas de reprodução assistida da América do Sul, destaca que este assunto não é apenas uma questão médica. Ele funciona como uma ferramenta de autonomia feminina que influencia diretamente a capacidade das empresas de reter talentos valiosos.
A sociedade passou por mudanças profundas: o número de lares com casais homoafetivos cresceu sete vezes em 12 anos, e a maternidade após os 35 anos é uma realidade cada vez mais comum. Diante desse cenário e buscando uma nova via de negócios, o Fert Group introduziu um modelo de benefício corporativo que opera de forma semelhante a um plano de saúde. Ele oferece às colaboradoras acesso a tratamentos de alto custo, como o congelamento de óvulos, garantindo privacidade e eliminando a necessidade de solicitar reembolso ao RH, o que ajuda a quebrar o estigma associado ao tema.
Obstáculos no capital de risco e a busca por equidade
Apesar dos progressos, o caminho para a equidade ainda enfrenta barreiras estruturais, especialmente no ecossistema de venture capital. Tatiana Pimenta, que buscou rodadas de investimento para a Vittude, compartilhou as dificuldades de negociar com fundos onde a representação feminina nas mesas de decisão é quase inexistente.
“Em 122 fundos com os quais conversei para a Série A, apenas um tinha uma mulher na mesa, e ela não era a decisora”, revela Pimenta. As participantes do painel defendem que a solução exige intencionalidade. Heloisa Rios refuta firmemente o argumento de que “não há mulheres preparadas” para cargos de conselho ou C-level. Ela afirma que, em caso de empate técnico, a escolha deve ser pela mulher, mas a competência deve sempre prevalecer, independentemente do gênero, pois a diversidade é um motor comprovado de performance financeira.
O futuro da liderança: competência e diversidade como padrão
O consenso entre as líderes é um desejo compartilhado: que, dentro de uma década, a discussão sobre “liderança feminina” se torne obsoleta. O objetivo é que a competência e a diversidade sejam a norma, e não mais a exceção, em um mercado que finalmente compreendeu que, por trás de cada CNPJ, existem pessoas cujas necessidades não podem mais ser ignoradas. A integração de questões como saúde mental e fertilidade no planejamento estratégico demonstra um avanço significativo para um ambiente corporativo mais humano e produtivo.
