FGV estima que reajuste do Bolsa Família tira 1,39 milhão da faixa de corte

bolsa familia governo Foto: Bolsa familia - Foto: joasouza/shutterstock.com

O reajuste de 15,04% nos benefícios do Bolsa Família tem potencial para retirar até 1,39 milhão de pessoas da faixa de corte do programa social e cerca de 1,29 milhão da situação de extrema pobreza internacional. As projeções constam em estudo elaborado pelo economista e pesquisador Vitor Hugo Miro, publicado na terça-feira (6) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), com base em microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2025.

Apesar do efeito imediato no alívio da vulnerabilidade das famílias, a pesquisa adverte que a transferência direta de renda precisa ser combinada com medidas estruturais para assegurar emancipação financeira de longo prazo. De acordo com o pesquisador, o reajuste apenas recompõe perdas inflacionárias passadas e não substitui a necessidade de gerar oportunidades de trabalho formal no país.

“Uma redução mais persistente da pobreza depende da articulação das transferências com políticas capazes de ampliar a geração de renda. Educação, qualificação profissional, acesso a serviços públicos e inclusão produtiva são importantes nesse processo, assim como um mercado de trabalho capaz de criar ocupações mais produtivas e mais bem remuneradas”, afirmou Vitor Hugo Miro no documento técnico.

Quem tem direito e como funcionam as linhas de corte

Bolsa Familia
Foto: Bolsa Familia – Foto: Divulgação/Gov.br

O ingresso no Bolsa Família segue restrito às famílias que possuem renda mensal de até R$ 218 por pessoa, critério administrativo que permaneceu inalterado no decreto recente. Na simulação realizada pelo FGV/Ibre, a proporção de brasileiros abaixo dessa linha oficial de ingresso recua de 3,14% para 2,49%, o que representa uma queda relativa de 20,8% e a saída de 1,39 milhão de cidadãos dessa faixa de rendimento.

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Para mensurar os reflexos sociais sob padrões globais, o estudo aplicou ainda os parâmetros de medição do Banco Mundial. Na linha de extrema pobreza internacional, estipulada em US$ 3,00 diários por pessoa (cerca de R$ 280 mensais per capita em paridade de poder de compra), a taxa recua de 4,61% para 4,01%, contemplando 1,29 milhão de pessoas. Já no patamar de pobreza moderada de países de renda média-alta, fixado em US$ 8,30 diários (aproximadamente R$ 775 mensais per capita), a proporção de pessoas vulneráveis passa de 25,09% para 24,50%, retirando cerca de 1,25 milhão de indivíduos desse estrato.

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Quais são os novos valores do Bolsa Família?

A correção nos pagamentos foi oficializada pelo governo federal por meio do Decreto nº 13.120, publicado em 17 de setembro de 2026. O percentual de 15,04% corresponde à variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026, elevando as quantias creditadas mensalmente aos beneficiários cadastrados.

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  • Piso mensal garantido por família: passa de R$ 600,00 para R$ 691,00
  • Benefício médio estimado por família: passa de R$ 675,00 para R$ 777,00
  • Benefício de Renda de Cidadania por integrante: passa de R$ 142,00 para R$ 164,00
  • Benefício Primeira Infância por criança de 0 a 6 anos: passa de R$ 150,00 para R$ 173,00
  • Benefício Variável Familiar: passa de R$ 50,00 para R$ 58,00

Concentração de renda no Norte e Nordeste

A pesquisa ressalta que os reflexos da atualização monetária são desiguais no território nacional, concentrando-se de forma expressiva onde a dependência do programa é mais acentuada. Cerca de 40% dos moradores do Norte e 39% da população do Nordeste residem em lares atendidos pelo Bolsa Família, enquanto esse percentual atinge cerca de 15% no Centro-Oeste, 13% no Sudeste e pouco mais de 9% na Região Sul.

Em decorrência desse perfil demográfico, o acréscimo médio na renda domiciliar por indivíduo apresenta forte disparidade regional no modelo estatístico. “No cenário simulado, o aumento seria de aproximadamente R$ 11,87 por pessoa no Nordeste e R$ 11,07 no Norte, ante R$ 3,86 no Sudeste e R$ 2,65 no Sul”, destacou Vitor Hugo Miro. Na faixa de extrema pobreza de R$ 280, a incidência cai 1,29 ponto percentual no Norte (de 6,83% para 5,54%) e também 1,29 ponto percentual no Nordeste (de 8,70% para 7,41%), onde cerca de 734 mil pessoas conseguem superar a linha.

Histórico do benefício e datas de pagamento

O valor base do programa social permanecia sem alteração monetária desde agosto de 2022, quando os R$ 600,00 foram fixados durante a vigência do antigo Auxílio Brasil. A recomposição atual cumpre o dispositivo da Lei nº 14.601 de 2023, que autoriza revisões periódicas pelo Poder Executivo a cada intervalo máximo de 24 meses, impedindo qualquer redução de valor nominal. Sob a gestão do ministro Wellington Dias, à frente do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, a folha atualizada terá impacto fiscal de R$ 5,8 bilhões nos meses restantes de 2026 e custo anualizado estimado em R$ 22,7 bilhões para os anos de 2027 e 2028.

  • 17 de setembro de 2026: publicação do Decreto nº 13.120 com o reajuste de 15,04%
  • 6 de outubro de 2026: divulgação da pesquisa técnica pelo Blog do IBRE/FGV
  • 19 de outubro de 2026: início dos repasses bancários com as parcelas corrigidas

O estudo do pesquisador pontua que a manutenção da linha de corte em R$ 218 per capita, sem mecanismo automático de correção pela inflação, tende a restringir a entrada futura de famílias em vulnerabilidade. “A atualização dos benefícios recompõe seu poder de compra diante da inflação acumulada, mas não foi acompanhada por uma revisão da linha de elegibilidade”, afirmou Miro. Até o momento, o governo federal não definiu calendário de reajuste para o teto de elegibilidade de R$ 218 nem aprovou regras para indexação fixa periódica do programa.

O início do pagamento da folha de outubro do Bolsa Família com os novos valores está confirmado para segunda-feira, 19 de outubro de 2026.

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