Veneno de jararaca deu origem ao captopril, remédio para pressão alta, após pesquisas da USP em Ribeirão PretoPor Janderson Luiz
4 min de leitura
![]() |
O veneno da jararaca, serpente brasileira conhecida pelos acidentes que causa, ajudou a criar o captopril, um dos medicamentos mais usados contra a hipertensão no mundo. O remédio é sintético e não tem veneno na fórmula. A origem está em estudos de farmacologistas brasileiros feitos entre as décadas de 1940 e 1960, em instituições de São Paulo e de Ribeirão Preto, que depois serviram de base para a indústria farmacêutica americana criar a molécula.
A história começa em 1948. O farmacologista Maurício Rocha e Silva, com os colegas Wilson Teixeira Beraldo e Gastão Rosenfeld, estudava como o veneno da jararaca matava ou paralisava as vítimas. Ao injetar o veneno em um cão, a equipe viu a pressão cair de um jeito diferente do que a histamina causava. A substância liberada recebeu o nome de bradicinina, palavra de origem grega que significa movimento lento, porque o efeito não surgia de imediato.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
Bradicinina foi descoberta em 1948 em experimento com veneno da jararaca
Os pesquisadores não buscavam um remédio: queriam entender um veneno.
A bradicinina tem ação vasodilatadora, ou seja, relaxa os vasos sanguíneos e faz a pressão cair. Por isso, o achado chamou a atenção de quem estudava circulação e choque. Anos depois, a descoberta passou a ser tratada como um dos pontos de partida da farmacologia brasileira.
Ferreira identificou em 1965 peptídeos que reforçavam a bradicinina
Sérgio Henrique Ferreira, orientando de Rocha e Silva, foi buscar no próprio veneno a resposta para um enigma: por que a bradicinina sintética era destruída tão depressa no organismo? Ele descobriu que a peçonha continha um conjunto de substâncias que prolongava a ação da bradicinina sobre a pressão arterial. Esses pequenos peptídeos passaram a ser chamados de fator potenciador da bradicinina, ou BPF.
Ferreira também percebeu que esses peptídeos inibiam a enzima conversora de angiotensina, responsável por transformar a angiotensina I em angiotensina II, substância que contrai os vasos. Em seguida, ele foi para Londres, onde fez pós-doutorado no Royal College of Surgeons, no grupo do farmacologista inglês John Vane. Lá, estudou o destino da bradicinina na circulação e constatou que 80% dela era inativada em uma só passagem pelo pulmão.
Em 1970, peptídeos do veneno mostraram ação sobre enzima da pressão
Em 1970, os pesquisadores Kevin Ng e John Vane usaram o fator de Ferreira e mostraram, em trabalho publicado na revista Nature, que a conversão de angiotensina I em angiotensina II era inibida na passagem pelo pulmão. O resultado ligou o veneno da jararaca à enzima que mantém a pressão alta. O primeiro desses peptídeos, um pentapeptídeo de cinco aminoácidos batizado de BPP5a, tinha sido isolado por Ferreira em parceria com Lewis Greene, do Brookhaven National Laboratory.
Squibb sintetizou captopril, primeiro inibidor oral da enzima conversora
A farmacêutica Squibb, nos Estados Unidos, partiu da estrutura dos peptídeos para desenhar uma molécula menor e sintética. O peptídeo natural, chamado teprotida, funcionava, mas tinha uma limitação: por ser peptídeo, não podia ser tomado por via oral. O novo composto, o captopril, manteve a ação e passou a ser administrado pela boca. Os químicos David Cushman e Miguel Ondetti descreveram o processo como um caso típico de desenho de fármacos.
A patente do captopril foi registrada por laboratórios estrangeiros, e os pesquisadores brasileiros não receberam royalties, porque publicaram os resultados em domínio público da ciência. Ferreira recebeu em 1982 o Ciba Award de hipertensão, dividido com Cushman e Ondetti. O captopril foi aprovado para uso médico no início dos anos 1980.
O caso mostra que a pesquisa básica, feita sem um remédio à vista, pode virar tratamento anos depois. O captopril abriu uma classe de medicamentos, os inibidores da enzima conversora, usada contra a hipertensão e algumas insuficiências cardíacas. A jararaca segue em estudo: pesquisadores testam toxinas da espécie como possíveis anticoagulantes, em fases iniciais, e ainda falta avaliar a segurança e a eficácia em animais antes de qualquer teste em pessoas.















