Banco Central do Paraguai intervém no Ueno Bank e chefe renunciaPor Luís Henrique Costa
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Carlos Carvallo Spalding deixou a presidência do Banco Central do Paraguai nesta terça-feira (3), no mesmo dia em que a crise do Ueno Bank chegou ao centro do poder em Assunção. O banco privado tem cerca de 3 milhões de clientes cadastrados e a maior carteira de cartões de crédito do país. As operações foram suspensas depois que o índice oficial de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação bancária.
O Ministério Público paraguaio abriu processo criminal imediato e expediu mandados de prisão contra oito pessoas da cúpula administrativa e societária da instituição. A medida atingiu gestores e sócios ligados ao comando do banco. Outros dois diretores já estavam detidos até a tarde de terça-feira.
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O colapso se espalhou rapidamente pelas ruas. As agências da capital e de cidades do entorno, como Ñemby, fecharam as portas, e filas se formaram desde as primeiras horas da manhã com correntistas particulares, clientes comerciais e aposentados. Centenas de depositantes foram às ruas de Assunção para cobrar a devolução integral dos recursos, e houve confronto com a polícia.
O Ueno Bank concentrava a custódia e a movimentação de cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos. Entre eles estão fatias do fundo de reserva do Instituto de Previdência Social, autarquia estatal que paga as pensões do funcionalismo, além de verbas de secretarias e empresas mistas ligadas ao Poder Executivo. Esses recursos ficaram represados com a paralisação.
Inspetores bancários já acompanhavam inconsistências fiscais e patrimoniais da instituição. A suspeita central é de manobras de triangulação ilícita de ativos, usadas para absorver carteiras de crédito podre de subsidiárias do Grupo Vázquez, conglomerado que controla o banco. A direção negava as acusações até que reclassificações contábeis expuseram o déficit de capitalização.
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Números da intervenção no banco paraguaio
- Garantia do Fundo de Garantia de Depósitos: até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, o equivalente a cerca de US$ 38 mil
- Início do procedimento de resolução: decisão unânime do Banco Central tomada em 2 de novembro de 2026
- Índice de solvência: abaixo de 50% do mínimo requerido pela lei
- Órgão fiscalizador: Superintendência de Bancos do Banco Central do Paraguai
O caso chegou ao gabinete do presidente Santiago Peña. Ele atuou como sócio comercial do Grupo Vázquez até março de 2025, período anterior à aceleração dos aportes de fundos previdenciários públicos na carteira do banco. Carvallo, por sua vez, comandou a antiga Financiera Ueno até agosto de 2023, antes de assumir a autarquia monetária federal.
O mercado financeiro internacional reagiu logo na abertura. Papéis da dívida externa paraguaia e bônus corporativos do Ueno Bank em dólar, com vencimento em 2031, perderam valor de forma acentuada no pregão de terça-feira. Empresários e fazendeiros brasileiros da fronteira do Paraná e do Mato Grosso do Sul também acompanham o caso, porque transferiram parte de suas movimentações para plataformas paraguaias nos últimos três anos, atraídos por regimes fiscais simplificados.
Peña convocou lideranças partidárias no Palácio de López para montar um canal de votação legislativa de urgência. O objetivo declarado é flexibilizar o resgate do Fundo de Garantia de Depósitos, viabilizando repasses a correntistas pessoa física e o ressarcimento prioritário às contas da seguridade social. O presidente rejeitou o risco de contágio no setor. “Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, declarou o chefe de Estado.
Do comando do Ueno ao afastamento no Banco Central
- Agosto de 2023: Carlos Carvallo Spalding deixa a administração privada do Ueno e assume a presidência do Banco Central do Paraguai
- Março de 2025: Santiago Peña desfaz oficialmente sua participação societária nas empresas do Grupo Vázquez
- Setembro de 2026: parlamentares rejeitam parecer contábil da Superintendência de Bancos e apontam maquiagem em operações de crédito interligadas
- Outubro de 2026: reclassificação compulsória mostra que o índice de capital do Ueno caiu abaixo de 50% da margem prudencial
- 3 de novembro de 2026: agências amanhecem sem atendimento, o Ministério Público decreta a prisão de oito investigados e Carvallo renuncia
Carvallo afirmou que já tinha assinado a renúncia antes da intervenção, mas que continuaria no cargo para conduzir o processo. Ele permanecerá em funções administrativas até a ratificação de seu substituto pela comissão bicameral do Congresso. A condução técnica dos ativos e a conferência do patrimônio ficam sob equipe designada pela Superintendência de Bancos.
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Peña cancelou uma viagem à Espanha, onde participaria de uma cúpula de líderes. Ele também pediu a saída de Carvallo do comando do Banco Central, decisão que o dirigente acatou nesta terça-feira (3).
O que muda para correntistas e aposentados
- Depósitos de pessoas físicas: a liberação dos limites do fundo depende da aprovação de projeto legislativo de emergência
- Primeiro repasse: o Banco Central promete liberar até 10 milhões de guaranis, cerca de US$ 1.700, por cliente, descontadas as dívidas com o Ueno, sem data definida
- Prazo legal: o pagamento deve ocorrer em até 15 dias após a intervenção, com possibilidade de uma prorrogação
- Aposentados: segurados do Instituto de Previdência Social que recebiam pelo Ueno serão remanejados temporariamente para a rede do Banco Nacional de Fomento
- Denúncias: cidadãos com pendências de saque podem registrar contestação na Promotoria de Delitos Econômicos em Assunção
Peritos auditores do Banco Central começarão nos próximos dias a conferência física e eletrônica de todas as carteiras e ativos vinculados ao banco. Para saldos acima do limite do fundo, não há garantia de devolução integral. As agências e plataformas remotas seguem sem previsão oficial de retorno às operações regulares.















